Abuso sexual e segredo

 

Conte a eles que você jamais é realmente uma pessoa inteira se
permanece em silêncio, porque há sempre aquele pedacinho
dentro de você que deseja ser verbalizado, e se você continua
ignorando-o, ele fica cada vez mais indignado, e se você não
falar, um dia ele simplesmente vai levantar e soqueá-la na boca,
vindo de dentro
”. (AUDRE LORDE, 1984).

 

Há temas e situações que desencadeiam dentro de nós tantos sentimentos que nos dificultam abordá-los. Mas, tanto na minha experiência clínica como neste espaço, houve uma sincronização que me despertou a escrever este post, escolhendo um foco que envolve o abuso sexual da criança e adolescente pouco explorado – o pacto de silêncio (segredo).

A violência sexual contra criança e adolescente é secular. No Brasil transformou-se em preocupação pública na década de 80. Muito se tem escrito e estudado sobre esta questão, mas poucos se detiveram sobre os segredos que envolvem as famílias em situações de abuso.

Entende-se como abuso sexual “uma série de práticas sexuais” onde há o desvirtuamento de alguns pressupostos necessários para sua ocorrência, tais como a falta de consentimento (que pode ser explícito, no caso de adultos – ou tácito, ou implícito, no caso de menores),  ou uso da violência (física ou moral).  Fonte

A ocorrência desse fenômeno se dá em todas as classes sociais e econômicas. Em relação ao gênero,  o abuso sexual atingi meninos e adolescentes do sexo masculino, mas o percentual maior é contra o sexo feminino.

Frequentemente, no abuso sexual da criança o agressor é um membro da família ou alguém em quem a criança confia.  O mais devastador é o incesto consumado por um pai (biológico ou adotivo).

Ele vem cercado pelo silêncio imposto por violência, ameaça ou mesmo uma relação sem palavra.  O segredo tem por função manter uma coesão familiar e proteger a família do julgamento de seu meio social.

A guarda de segredos envolve fidelidades familiares. Para Imber-Black, 1994 “segredos são fenômenos sistêmicos. Eles estão ligados ao relacionamento, moldam as díades, formam triângulos, alianças encobertas, divisões, rompimentos, definem limites de quem está ‘dentro’ e de quem está ‘fora’ e calibram a intimidade e os distanciamentos nos relacionamentos”.

Karpel (apud Imber-Black, 1994) descreve três níveis de segredos.” O primeiro, ele chama de individual, onde uma pessoa da família conhece um segredo e o mantém para si mesmo. Um outro nível é o interno, no qual algumas pessoas da família compartilham o segredo e o mantém de outros. O terceiro nível é formado de segredos familiares compartilhados, onde toda a família sabe algo, mas não deseja compartilhar com o mundo externo.”.

A força do segredo, segundo alguns autores, ocasiona a não revelação do abuso, envolvendo a pessoa que abusa,  a criança vítima, a mãe e os profissionais.

O abusador é motivado a se calar temeroso das ameaças objetivas de punição, sanções legais e sociais; a criança por motivos como não ter sido acreditada, por temer as conseqüências de uma revelação, pelas ameaças introjetadas entre outros; a mãe porque teme perder o parceiro, teme rupturas familiares, por ser questionada em seu papel maternal na manutenção do abuso e por considerar a ação dos serviços de proteção como mais danosos do que positivos para ela e a família.

Do ponto de vista terapêutico… “a necessidade de atravessar, passo a passo, a seqüência de eventos, de modo a compreender e relacionar emoções específicas a cognições específicas na seqüência do abuso constitui um elemento terapêutico central, quando lidamos com o abuso sexual da criança.” (FURNISS, 1993).

O rompimento do pacto de silêncio do abuso sexual é o primeiro e decisivo passo para o enfrentamento da questão. No entanto, é um dos maiores desafios para as vítimas.

Considerando Roberts (in Imber-Black1994) são cinco os efeitos principais na guarda de segredos localizados nas famílias:
 
1. Distorções perceptivas e comunicacionais.
2.Estabelecimento de pseudovínculos e distanciamentos negativos.
3. Ocorrência de processos familiares patológicos.
4. Esgotamento de recursos familiares.
5. Manutenção de ansiedades.

Os segredos devem ser identificados e analisados através da herança de padrões de gerações anteriores. Isto possibilita a construção de um novo modelo familiar.

A terapia auxilia a criança e a família a lidarem com suas emoções, cria ambiente favorável ao resgate da autoestima, da reconstrução de relações e vínculos afetivos, bem como propicia a emergência de significados ocultos ou inconscientes.

A aliança terapêutica e fundamental para desenvolver o relacionamento saudável terapeuta-paciente bem como a obtenção de sucesso no tratamento.

Referências bibliográdicas

FURNISS, Tillmann. Abuso sexual da criança. Trad. Maria Adriana Veríssimo
Veronese. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

IMBER-BLACK, Evan et all. Os segredos na família e na terapia familiar. Trad. Dayse Batista. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.

Norma Emiliano

Comments

  • Nina
    Responder

    Esse é um tema terrivelmente difícil mesmo, Norma. Acho que segredo tem mt a ver com culpa também. Sao mts os sentimentos presentes, e o porquê de se calar, tem, como vc disse, diferentes razoes. O silêncio da mae eu particularmente acho o mais prejudicial, ela corre o risco de ter um filho que vai sempre ter um certo distanciamento delae talvez até culpá-la pro resto da vida…” minha mae nao me protegeu qd eu precisei e por medo de perder sua posicao na sociedade, seu marido, enfim, aceitou calada que abusassem de mim” pensa bem que horror é isso na cabeca de um adulto frustrado com as marcas malditas que um abuso desses pode causar… ah sei lá, tem mt o que se discutir sobre esse tema tao dolorido pra mts 🙁

    Bjs pra ti Norma!

  • Gina
    Responder

    Não dá pra se conceber ignorar um fato desse sem tomar uma providência, do ponto de vista da mãe, principalmente. Falta amor, razão e sensibilidade.
    Muito triste!
    Bjs.

  • Norma Emiliano
    Responder

    Gina
    É mais comum do que se pensa esta atitude materna. Alguns filmes mostram bem essa realidade.
    Daí tantos sentimentos ambivalentes das crianças vítimas de abuso.
    bjs

  • Manuel marques
    Responder

    Cabe a nós também,cidadãos de bem estar-mos atentos e denunciar.

    Abraço.

  • Nilce
    Responder

    Oi Norma

    Precisamos estar atentos sempre. Não há como calar tamanha violência. A proteção da mãe é primordial e se ela não denuncia, é conivente, não merece ser chamada de mãe.

    Bjs no coração!

    Nilce

  • chica
    Responder

    Um tema forte, requer toda a atençaõ da família e sobretudo tentar ajudar da melhor forma.beijos,chica

  • Élys
    Responder

    Este tipo de ocorrência ouço falar há muitos anos . As autoridades diretamente ligadas às crianças assim como, educadores, psicólogos, outros envolvidos, deveriam buscar em conjunto uma solução.
    Beijos.

  • Valéria
    Responder

    Oi Norma!
    É assustador imaginar a realidade de uma ciança que passa por isso! Os medos, seus olhinhos pedindo socorro sem se fazer entender, um silêncio que vai minando toda uma vida. Saber que mães não veem, fazem que não vê ou não acreditam no filho é torturante para quem é vítima.
    Beijo e uma feliz semana!

  • Toninhobira
    Responder

    É a pior violencia se assim pode classificar violencia, e ainda a impunidade que impera chega a ser algo meso odioso. As leis são dribladas assim como para as contra a violencia à mulher.Quando se busca proteção à ela, acaba por se descobrir mais.Um tema que pode ser muito explorado amiga.Calar sobre ele é admitir a culpa.
    Meu abraço de toda paz.
    Feliz por voce conseguir acessar.
    Grato sempre.

  • C.
    Responder

    Li num blog a história de sua dona, que ela foi violentada quando criança, ficou anos sendo, e acabou gostando da “brincadeira”, isso que sempre acabo achando nesses casos, minha amiga.
    Acho a lei Maria da Penha aí muito forte e que ajuda bastante casos, inclusive esse.

  • Tati
    Responder

    OI Norma, vim descendo hoje por seu blog, aproveitando tudo. E de repente cheguei aqui. É assunto difícil de se falar. Eu sou uma mãe quase neurótica, de olhar ao redor o tempo inteiro, de não deixar filho na casa de coleguinha, de ficar atrás dele em casa de festa (não o perco de vista…). O abusador pode ser uma pessoa que “parece gostar de criança”, e a mãe o vê como o tio fulano, tão simpático… Acho que as mães de hoje são um pouco mais ligadas no que acontece, será que não? Eu sei que uma hora vou precisar afrouxar o laço, sei que preciso prepará-lo para se defender, mas acho que antes preciso lidar com meu medo! Beijos.

Grata por sua visita sempre bem-vinda.

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