Em uma caminhada, surpreendi-me ao olhar para o trânsito a minha direita e ver um casal, com provavelmente 70 anos, usando como transporte uma moto.
Fiquei curiosa sobre este fato. Sei que existem grupos de motoqueiros. Quem sabe eles façam parte deste grupo e para eles não seja uma aventura utilizar moto com transporte em horário de rush ?
Há clubes organizados, com encontros regulares, inclusive para viagens.
Li aqui que “nos anos 70 o estilo ‘motociclístico’ assumiu uma nova imagem e vitalidade dentro do aspecto de ampliação de estilos de vida (…) uma imagem de diversão saudável e liberdade (…) foi em 1996 que este estilo se popularizou no Brasil.
Enfim, fica aqui registrada a minha curiosidade sobre este casal que como vento passou por mim. Lamentei não estar com a máquina fotográfica para poder compartilhar com você.
O título do post é de uma crõnica do escritor Rubem Alves que, com sua forma de ver o processo de viver, me motivou a reproduzir alguns trechos para reflexão sobre o amor e o envelhecimento. Caso se interesse em lê-la na íntegra clique aqui.
(…) “O amor surgira no tempo em que ele é mais puro: a adolescência. Mas naqueles tempos havia uma outra Aids, chamada tuberculose, que se comprazia em atacar as pessoas bonitas, os artistas, os apaixonados — esses eram os grupos de risco. Pois ela, a tuberculose, invejosa da felicidade dos dois, alojou-se nos pulmões do moço, que teve de ir em busca de ar puro, no alto das montanhas, sanatório …
(…)Amor de mocidade é bonito, mas não é de espantar. Jovem tem mesmo é que se apaixonar. Romeu e Julieta é aquilo que todo mundo considera normal. Mas o amor na velhice é um espanto, pois nos revela que o coração não envelhee jamais. Pode até morrer, mas morre jovem. “O amor retribuido sempre rejuvenesce”, dizia Eliot, no vigor de sua paixão, aos 70 anos…
Amor de adolescência interrompido – cada um seguindo seu caminho, diferentes, outros amores, familias. Mas o tempo não consegue apagar. A psicanálise acredita que no inconsciente não há tempo…Somos eternamente jovens.
Ela casou. Ele casou. Nunca mais se viram. Quando ele tinha 76 anos, ficou viúvo. Quando ela tinha 76 anos (ele tinha 79), ela ficou viúva. E ficou sabendo que ele estava vivo. A curiosidade e a saudade foram fortes demais. Foi procurá-lo. Encontraram-se. E, de repente, eram namorados adolescentes de novo. Resolveram casar-se.
Os filhos protestaram. Eles, os filhos, todos os filhos, não suportam a idéia de que os velhos também têm sexo. Especialmente os pais. Pais velhos devem ser fofos, devem saber contar estórias, devem tomar conta dos netos. Mas velho apaixonado é coisa ridícula. Não combina.
Os filhos sempre decidem contra o amor dos pais. Mas, na nossa estória, os dois velhos deram uma solene banana para os filhos e foram viver juntos em Poços de Caldas.
E de repente, já no crepúsculo, as arvores que todos julgavam secas começama soltar brotos, florescem. Viveram um ano de amor maravilhoso, e ele até começou a escrever poesia e voltou a tocar o violino que ficara por mais de 50 anos sobre um guarda roupa, porque a esposa não gostava de música de violino.Reaprendeu as antigas palavras de amor.
O amor tem esse poder mágico de fazer o tempo correr ao contrário. O que envelhece não é o tempo. É a rotina, a incapacidade de se comover ante o sorriso de uma mulher ou de um homem. Mas será incapacidade mesmo? Ou será uma outra coisa: que a sociedade inteira ensina aos velhos que o tempo do amor passou, que o preço de serem amados por seus filhos e netos é a renuncia aos seus sonhos de amor? Morreu de amor, como temia o Vinícius” (…)
Retrospectiva- IV Encontro Fluminense de Terapia Familiar- Ecos do IX Congresso
Existe desejo na terceira idade?
Ana Maria Oliveira Zagne
Existem muitos aspectos dificieis na terceira idade, que podem agravar o desempenho sexual do casal, como por exemplo, lidar com a aposentadoria, tanto pelo motivo de parar de trabalhar, quanto pelo risco do achatamento salarial, diminuindo a qualidade de vida em muitos casais. Ocorre nesta faixa etária fragilidade física e emocional que leva o homens e mulheres à muitas limitações. Como fazer para conjugar todas as dificuldades que aparecem na idade avançada, com a vida sexual ativa? Isso às vezes torna-se dificil. Por isso que muitos acham que sexo na terceira idade é diferente do sexo em outras fases do ciclo vital do casal. Mas, o que muda na realidade, são as diferenças no desejo, entre o homem e a mulher. Muitas mulheres adoecem no período de menopausa e se desinteressam pela vida sexual, por falta de esclarecimento sobre os tratamentos adequados. Nos homens poderão ocorrer dificuldades na sua capacidade sexual, causadas por doenças comuns nesta fase, que em alguns casos podem deixá-los incapacitados para as relações sexuais. Muitos não têm coragem de enfrentar essa dificuldade procurando tratamento, para tornar sua vida sexual satisfatória novamente. O casal deverá estar aberto para não cair nas várias encruzilhadas reservadas pela vida afora, como por exemplo, a “sindrome do ninho vazeio”, quando os filhos saem de casa.
Fonte: Livro de resumo do IX Congresso de Terapia Familiar/ 2010
” Um ocidental em visita à China ficou surpreso de ver a quantidade de velhos saudáveis e, curioso a respeito da milenar medicina chinesa, indagou de um experiente médico qual o segredo para se viver mais e melhor.
Ouviu do mesmo a sábia resposta:
- É muito simples. É só:
Comer a metade.
Andar o dobro.
E rir o triplo.”
“No Brasil, considera-se idosas as pessoas com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos. É o que estabelece o primeiro artigo do Estatuto do Idoso, disposto pela Lei Nº. 10.741, de 1º de outubro de 2003.” Fonte
A crescente qualidade de vida de algumas pessoas tem dificultado a caracterização do idoso somente pela idade cronológica. Assim sendo, esta, hoje, envolve um conjunto de características específicas de acuidade, mobilidade e independência
Envelhece – se como se vive. Portanto, um estilo de vida ativo e o cultivo da alegria de viver devem ser enfatizados desde a infância.
Não se pode negar que problemas existem, mas há recursos preventivos. A velhice é uma etapa do ciclo vital e como as demais precisa de reorganização (adequações).
Temos, na atualidade, o computador como meio de informação, distração, relacionamento e atualização. Por outro lado, é importante o sentimento de pertencimento e desenvolvimento da capacidade criativa. A família e amizades constituem pontos decisivos na manutenção da autoestima.
Enfim, aquele que não encontrar tempo para cuidar de si (corpo e mente) acabará por encontrar tempo para doença.
Que este seja um dia de muitas reflexões sobre a velhice.
Falar do cotidiano é simples, porém a forma como é percebido faz toda a diferença. Neste relato, o contexto é um ônibus urbano e os participantes: o motorista e seus passageiros (jovens, crianças e idosos).
Sabemos que a partir dos 65 anos de idade, o transporte rodoviário é gratuito e cada pessoa possui o seu próprio passaporte após o cadastramento realizado pela Secretaria Municipal de Assistência Social. Diante desse direito por lei, muitas são as situações que os idosos enfrentam no seu dia-a-dia.
A Lei nº.10.741/2003 (Estatuto do Idoso), em seu artigo 230, determina que “a família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida”. Contudo, o que vivenciamos denuncia que a sociedade “não comunga desse credo”.
A impessoalidade reinante, no sentido de tirar da vida tudo que é humano, e o excesso de individualismo não conferem dignidade ao ser humano e cenas de desrespeito são frequentes. Nesse sentido, chegamos ao seguinte fato ocorrido: uma senhora de 80 anos entra no ônibus com outros passageiros. O motorista, que é atualmente também o cobrador, recebe o dinheiro, dá instruções sobre lugares para outros e dirige-se a senhora referindo-se ao seu cartão e à roleta. Diante de tanta confusão, a senhora não consegue passar e o motorista solicita-lhe que desça, pois a roleta travou e depende de um novo pagamento. Ela se recusa a descer e muitos dos passageiros começam a gritar para que ela desça, pois estão com pressa. Ela desce, com a fisionomia irritadiça, para enfrentar uma nova espera, num dia ensolarado.
A teoria na prática não se concretiza. Propiciar ao ser humano bem-estar requer políticas públicas, humanização de todos e valorização da vida.
Falar em envelhecimento, como se fosse algo à parte de cada um, é viver na alienação. A dignidade humana e a qualidade de vida fazem parte do processo evolutivo e educativo. Viver com dignidade é ter a condição de ser humano respeitado. Em sua música “È preciso saber viver”, Roberto Carlos resume tudo isto muito bem.
Enfim, presente, passado e futuro são os elos da vida. Portanto, não percamos de vista a dignidade de SER humano.
Dia Internacional de Enfrentamento da violência contra a pessoa idosa
Esta data foi implantada pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pela Rede Internacional de Prevenção à Violência à Pessoa Idosa. O objetivo é estabelecer uma nova cultura de não naturalização da violência, estimulando a construção de estratégias coletivas de prevenção e enfrentamento contra a violação de direitos.
“Já não sei em que data estamos. Lá em casa não há calendários e na minha memória as datas estão todas misturadas. Me recordo daquelas folhinhas grandes, uns primores, ilustradas com imagens dos santos que colocávamos no lado da penteadeira. Já não há nada disso. Todas as coisas antigas foram desaparecendo. E sem que ninguém desse conta, eu me fui apagando também…
Primeiro me trocaram de quarto, pois a família cresceu. Depois me passaram para outro menor ainda com a companhia de minhas bisnetas. Agora ocupo um desvão, que está no pátio de trás. Prometeram trocar o vidro quebrado da janela, porém se esqueceram, e todas as noites por ali circula um ar gelado que aumenta minhas dores reumáticas. Mas tudo bem…
Desde há muito tempo tinha intenção de escrever, porém passava semanas procurando um lápis. E quando o encontrava, eu mesma voltava a esquecer onde o tinha posto. Na minha idade as coisas se perdem facilmente: claro, não é uma enfermidade delas, das coisas, porque estou segura de tê-las, porém sempre desaparecem.
Noutra tarde dei-me conta que minha voz também tinha desaparecido. Quando eu falo com meus netos ou com meus filhos não me respondem. Todos falam sem me olhar, como se eu não estivesse com eles, escutando atenta o que dizem. As vezes intervenho na conversação, segura de que o que vou lhes dizer não ocorrera a nenhum deles, e de que lhes vai ser de grande utilidade.
Porém não me ouvem, não me olham, não me respondem. Então cheia de tristeza me retiro para meu quarto e vou beber minha xícara de café. E faço assim, de propósito, para que compreendam que estou aborrecida, para que se dêem conta que me entristecem, venham me buscar e me peçam perdão. Porém, ninguém vem.
Quando meu genro ficou doente, pensei ter a oportunidade de ser-lhe útil. Levei-lhe um chá especial que eu mesma preparei. Coloquei-o na mesinha e me sentei a esperar que o tomasse, só que ele estava vendo televisão e nem um só movimento me indicou que se dera conta da minha presença. O chá pouco a pouco foi esfriando e junto com ele, meu coração.
Então, noutro dia disse-lhes que quando eu morresse todos iriam se arrepender. Meu neto menor disse:“Ainda estás viva vovó? “. Eles acharam tanta graça,que não pararam de rir. Três dias estive chorando no meu quarto, até que numa manhã entrou um dos rapazes para retirar umas rodas velhas e sequer um bom dia me deu.
Foi aí que me convenci de que sou invisível. Parei no meio da sala para ver, se me tornando um estorvo me olhavam. Porém minha filha seguiu varrendo sem me tocar, os meninos correram em minha volta, de um lado para o outro, sem tropeçar em mim.
Um dia, os meninos se agitaram e vieram me dizer que no dia seguinte todos nós iríamos passar um dia no campo. Fiquei muito contente. Fazia tanto tempo que não saía e mais ainda ia ao campo!
No sábado fui a primeira a me levantar. Quis arrumar as coisas com calma. Nós os velhos tardamos muito em fazer qualquer coisa. Assim, adiantei meu tempo para não atrasá-los. Rápido entravam e saíam da casa correndo e levavam as bolsas e brinquedos para o carro.
Eu já estava pronta e muito alegre. Permaneci no saguão a esperá-los. Quando me dei conta, eles já tinham partido e o auto desapareceu envolto em algazarra. Compreendi que eu não estava convidada. Talvez porque não coubesse no carro… Quem sabe?
Ou quem sabe, porque meus passos tão lentos impediriam que todos os demais caminhassem a seu gosto pelo bosque. Senti claro como meu coração se encolheu e a minha face ficou tremendo como quando a gente tem que engolir a vontade de chorar.
Eu até entendo. Eles vivem o mundo deles. Riem, gritam, sonham, choram, se abraçam, se beijam. E eu, já nem sinto mais o gosto de um beijo. Antes beijava os pequeninos, era um prazer enorme tê-los em meus braços,como se fossem meus.
Sentia sua pele tenrinha e sua respiração doce bem perto de mim. A vida nova me produzia um alento e até me dava vontade de cantar canções que nunca acreditara me lembrar. Porém um dia minha neta Laura, que acabava de ter um bebê disse que não era bom que os anciãos beijassem aos bebês, por questões de saúde.
Desde então já não me aproximo deles, não quero lhes passar algo mal por minhas imprudências. Tenho tanto medo de contagiá-los ! Eu os bendigo a todos, todos os dias e lhes perdôo, porque…”
“Que culpa têm eles de que eu me tenha tornado i n v i s í v e l ?”
Texto Original – El dia que me volvi invisible, de Silvia Castillejon Peral
Adaptado e produzido pela Helsan Produções
O texto acima retrata o cotidino cruel de uma pessoa idosa que pouco a pouco foi se sentindo à margem da família e da sociedade.
Em algumas culturas a velhice é vista com respeito e veneração. No entanto, na sociedade urbana moderna, com seu ritmo acelerado, marginaliza aqueles que não o acompanha. Por outro lado, o saber científico desconsidera a experiência de vida e a tradição em favor de outras formas de se determinar a verdade.
A cada ano, o número de pessoas idosas aumenta com um prognóstico de que em 2050 esse número aumentará em aproximadamente de 600 milhões a quase 2 bilhões.
Você considera que é preciso revalorizar o papel dos idosos na nossa sociedade? O que você espera da sua velhice?
NEWoceanflower2008 — 1 de dezembro de 2008 — musica: ERNESTO CORTAZAR – Corazon Solitario
Olá.
Sou Norma Emiliano,Terapeuta de Família. Faço atendimentos clínicos há 17 anos.Tenho paixão pelo que faço. Minhas experiências profissionais constituem a base das minhas reflexões sobre as mudanças ocorridas na sociedade e suas repercussões nos indivíduos, nas relações interpessoais e, principalmente, no interior das famílias.
Neste blog, convido o internauta a ler, refletir e a trocar idéias sobre vários assuntos apresentados em poesia, música, experiências e textos que dizem respeito à família.