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Romantismo


No finito da vida


“Eu quero apenas estar no seu pensamento
Por um momento pensar que você pensa em mim”

A semente foi lançada numa tarde em que os olhares se encontram. Residiam na mesma rua e, muitas vezes, se cruzavam. Como não perceber aqueles olhos grandes e negros a  fitá-la!

Certa noite, numa brincadeira de rua, ele se aproxima e se junta ao grupo. Pêra, uva, maçã, ou seja, aperto de mãos, abraço, beijo no rosto. Todos numa roda, escolhe-se o mestre e o outro escolhido para começar, foi ele. Seus olhos são tapados e o mestre aponta para as pessoas até a resposta ser positiva. Na quinta rodada, ele diz sim, e para a surpresa de ambos se unem num forte abraço (uva).

Após este episódio, quando não o via, os dias não tinham significado. No seu ser romântico, sonhava até mesmo acordada  com o seu “príncipe”.

O tempo passou e os caminhos se desencontraram, mas ela tinha em seu íntimo que sua fantasia havia sido compartilhada e que ele não a esqueceria. Soube que ele se casara, tivera filhos, como ela.

Numa de suas visitas à casa materna, no mesmo bairro em que nascera e vivera até se casar, o telefone tocou e do outro lado da linha, ouviu uma voz masculina que lhe dizia que gostaria de revê-la.  Por que, não? Pensou.

Ansiosa o aguardou e o reencontrou. Conversaram sobre suas vidas e se despediram, com a doce sensação de um afeto, que tinha sido plantado e os mantém unidos na distância.

Ontem, dia de Natal, ainda após 25 anos daquele encontro, recebeu sua ligação anual e  o carinho que não tem preço.

Fantasia! Romance!  Não sabe, mas certamente será um afeto eterno enquanto viverem.

Norma Emiliano

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Afetos natalinos

Os momentos de confraternização de Natal me nutrem de afetos.

O mês de dezembro começa com os encontros com  os meus diversos grupos de amigos. São momentos significativos que reforçam os laços de pertencimentos.

Colagem do Picnik

A família reunida ora em agradecimentos, ceia e troca presentes. O espírito de esperança renovado nos fortaleçe para enfrentar as idas e vindas que a vida promove.

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Que fique para todos nós os sentimentos revividos por esta  celebração.

Fraternidade

Acolhimento

Comunhão

Esperança

Bjs

Norma

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Notícias

Queridas (os) amigas(os) e leitores, na próxima segunda, 28/11 iniciaremos  a série Cada dia uma história. Assim, teremos, mais uma vez, a participação de outros blogs abrilhantando este espaço

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Já agendei a participação, por ordem de envio dos relatos:

Rosélia -  Espiritua-Idade

Beth - Mae Gaia

Luzia -  Amorembrulhado

Chica - Chicaescreveporai

Caca-  Uaimundo

Toninho- Mineirinho

Maria Emilia -  Deolhosfechados

Socorro- Seguindominhaspegadas

Valéria- Doqueeugosto.blogspot.com

Denise- Tecendo Idéias

Aguardo o envio dos demais que manifestaram desejo de participar.

Todos somos parte da história da Magia da Vida e da Família, seja de que modalidade for,  é o nosso arcabouço.

Acompanhe, participe desta série, as trocas nos fortaleçem.

Estarei ausente durante o dia retorno à noite, mas os comentários serão vistos. Ainda dá tempo para enviar sua participação.

Norma

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No dar e receber

Ontem a lua cheia mostrava todo seu esplendor;  aqui os amigos fizeram a ciranda do afeto em prol dos amigos ausentes. Neste dar e receber,  surge o poetar  de quem mesmo não sendo poeta se inspira e arrisca a compartilhar.

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Imagem google

Ode in natura

A acolhida aproxima o sol
Sol que aqueçe
Brilha ante meus olhos.

Sinto  o olhar atento,
Ouço a voz cadente
Recebo um forte abraço

Vida no entrelaço
No dar e receber
É o luar dos meus dias.

No céu bela e formosa, oh! lua
Acenda a chama amorosa
Que faz brilhar a minha vida.

Norma Emiliano

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“Adoção”

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Google Imagem

Não sou poeta mas sinto


“Neste lar feito tela,
que um dia ousámos pintar,
meio gente, meio flor,
doce princesa das cores.
brotaste ávida de amor,
de um quadro então sem cor.

Que lindo ser frágil,
que só quer ser mimado,
a tela virou obra,
de um pintor afamado,
de um jardim, sem flores,
nasceu um quadro pintado.

Outra flor se juntou,
nesta tela pintada a dois,
em nossas mãos já crescem,
duas vidas cruzadas,
que o destino decidiu unir,
neste jardim de amor”.

PauloS

Bom final de semana

Norma

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Meu melhor momento – Denise / Luma

Estamos chegando a reta final, contando, com  a participação das amigas queridas, Denise, do blog Tecendo Ideias e Luma, do blog luzdeluma. Um belo encontro de afetos contidos na memória transposto à vida.

No tocar a alma do outro se faz o grande encontro da vida


Meu melhor momento-denise

Meu melhor momento?  Pensando sobre isso, considerei uma hipótese razoável  – comum a quem acredita em possibilidades e não cerra nenhuma porta – a de que ele pode estar por acontecer, posso ainda não tê-lo vivido. Entretanto, suponho que a proposta seja compartilhar de um momento inesquecível, que marcou minha existência. Tarefa difícil eleger “o melhor”, destacar um, dentre os tantos que vivi…

O melhor não necessariamente é o mais importante ou grandioso, certo? Parto dessa premissa para encontrá-lo, pois ainda não sei qual vou escolher.

A memória seletiva está se manifestando, desfilando cenas que remontam minha história desde há muitos anos, como se a me recordar dos inúmeros motivos a agradecer, por ter experimentado emoções tão incríveis.  Foram estes momentos, seguramente, que deram sentido e vida, à vida.

Em contato com estas memórias, percebo que reluto pela escolha isolada, sobrepondo a um fato, outro mais significativo, não conseguindo determinar um, apenas.

Vou desconsiderar os momentos especialíssimos, e tudo que os envolve, como o primeiro beijo, o casamento, o nascimento dos filhos, do neto, a colação de grau. São incomparáveis, impossível optar por um.

Como uma imagem insiste em voltar, enquanto o corpo reage ao reeditar o momento, concluo que foi o próprio momento quem propôs evidência, talvez confirmando o que está muito presente na minha vida nos tempos recentes: a simplicidade do sentir, do vivenciar a vida.

O melhor momento foi aquele em que a cabeça tocou um ombro amigo, amoroso, acolhedor – e ficou assim, no compasso de uma mesma respiração. Olhos fechados, apenas sentindo o apoio, a calmaria que reinava naquele hiato de tempo roubado da vida cotidiana, tão acelerada que anda esquecida do valor sublime de um gesto (tão simples!) de carinho. O breve aconchego compartilhado naquele instante preencheu, ainda que transitoriamente, as fendas deixadas pelas desconstruções da vida.

Um momento de amparo, próprio dos que têm intimidade, que agasalhou minha alma; o melhor que poderia ter – neste agora.

Denise

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“Minha mais cara lembrança”


“Para domesticar alguém, basta partilhar um sofá e um jornal de fim de semana”. Assim dizia pablito e agora chegando o dia dos pais, penso… Nas árvores do meu Pai…

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Cada vez que vejo cortada uma árvore, penso no meu Pai. O meu Pai plantava árvores nas horas vagas. Mamãe conta essas histórias porque quando ele morreu, eu tinha 5 anos. Era assim: Pensava nas árvores que iria plantar enquanto ia plantando outras que também queria plantar. Mamãe até desconfiava dessa sua parte do cérebro sempre ocupada e preocupada com as suas árvores. Estudava a composição de solos, quantidades de água… comprava algumas novas, outras desenraizadas de outros locais; como algumas, que nunca deram frutos, pois eram “experimento”. Viajava e trazia uma árvore, com a devida autorização: “sabe que aquela ali tem mais de mil anos?”. Não é extraordinário pensar que lá na fazenda um dia terá uma árvore de mais de mil anos? Isso, se algum infeliz não arrancá-la antes. Penso nessa eternidade das árvores, esse mistério da longevidade, esse silêncio do passar dos séculos, a guarda do encanto e da beleza do verde, a imponência e sobriedade, estão lá! E quando ando por entre elas, respiro fundo, penso partilhar o mesmo ar com meu pai. Quando vejo uma árvore cortada ou uma mata queimada, penso que poderiam ser as árvores do meu pai. Penso, como alguém que as pode amar dessa forma, com a mesma alegria que o meu Pai, em toda a vida, passou à família. [Pausa: E todos os anos, todos os anos, todos os anos, o homem desmata. Cortam mais e mais ardem no fogo] Papai pensava nas árvores, mas se matava. No final da noite saía despejando os cinzeiros na lixeira e depois me levava para para a varanda, num estalo de calor estagnado e parado da noite e eu morrendo de medo das rãs voadoras. Nessa hora, sentávamos na varanda para a última cigarrilha e pegávamos pedrinhas para atirar nas rãs… Pinga as lembranças. Ele não esta mais aqui, nem os cigarros e nem as rãs. … E hoje, o vento assobia e dança e assola as janelas do meu quarto andar, o mar que avisto da janela não tem a preguiça de um abraço depois de um domingo de pescarias. Só sinto a doçura que chega com o piar dos pardais.
Luma
Lindas imagens de  afetos e intimidades  traçadas no percurso da vida que nos enterneçe  e nos  envolve. Grata queridas amigas por terem coroado nossa ciranda com  sentimentos profundos e gestos simples de AMOR À VIDA.

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Navego

 

Pensando neste meu espaço e na dinâmica que foi criada entre mim e os meus leitores/amigos,  encontrei nas  palavras  de José Saramago aquilo que tenho  buscado  quando abordo qualquer temática  ou faço alguma proposta. Assim, através deste excelente escritor enfatizo que   “o  leitor deve colocar a sua música, interpretar a partitura do texto de um modo muscular, de acordo com a sua respiração e o seu próprio ritmo. “La Vanguardia, Barcelona, Buenos Aires, 10 de Dezembro de 2008

Considero de grande significado  a unicidade que cada um coloca em seus comentário, uma vez que essa constitui a  representação  das subjetividades.

As diferenças pessoais são , na maioria das vezes, a causas dos conflitos interpessoais, mas é o desafio que a vida nos coloca para sairmos do nosso próprio referencial e conhecermos outras formas de pensar, ser e agir.

Vocês, leitores e amigos, emprestam-me diariamente suas lentes, permitem-me uma viagem  constante por mares nunca antes nagáveis. Por isto agradeço a sua presença e a sua disponibilidade de troca. Os afetos me possibilitam criar elos que vão cruzando mares.

Como prova de reconhecimento e agradecimento ofereço a vocês uma bela melódia, pois para que possamos nos encontrar “navegar é  preciso”.

 

 

Os Argonautas
Caetano Veloso

O Barco!
Meu coração não aguenta
Tanta tormenta, alegria
Meu coração não contenta
O dia, o marco, meu coração
O porto, não!…

Navegar é preciso
Viver não é preciso…

O Barco!
Noite no teu, tão bonito
Sorriso solto perdido
Horizonte, madrugada
O riso, o arco da madrugada
O porto, nada!…

Navegar é preciso
Viver não é preciso

Barco!
O automóvel brilhante
O trilho solto, o barulho
Do meu dente em tua veia
O sangue, o charco, barulho lento
O porto, silêncio!…

Navegar é preciso
Viver não é preciso…

 

Norma

 

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Perdas – Betânia

 

Em continuação a esta Série, temos  o relato da amiga Betânia  que é pernambucana e  mora atualmente  em Natal (RN).  Ela não é blogueira, mas  acompanha meu espaço e nos presenteia com seu relato. Betânia é  mãe de um filho de 12 anos, Doutoranda em ciências sociais e Professora do Depto de Gestão Ambiental/Curso de Gestão Ambiental.

 Seu e-mail   betaniatorres@gmail.com ( autorizado).

 

“ É a imagem na mente  que nos une aos tesouros perdidos, mas é a perda que dá forma à imagem.” Colette in Judith Viorst

 

 PERDA: quando a relação espaço-tempo reaviva a presença/ausência do outro

 

Magrite

Imagem enviada por ela. 

 

 Havia pensado em começar assim: A gente sempre sofre diversas perdas nas nossas vidas. O tom do texto iria ficar bastante amplo e eu poderia não dar conta do que efetivamente me prontifiquei a relatar  sobre a perda que resolvi desenvolver neste texto (pensei em escrever: gostaria de falar, mas quem gosta de falar sobre perdas?). Mas, o tema me chamou e achei que deveria prestar atenção a esse chamado. O que a perda teria a me dizer e que reflexões esse debate iria tirar do meu baú de memórias. A perda que me veio à memória e sobre a qual sentir vontade de narrar foi à morte do meu pai.

Vou começar pelo começo. Papai nasceu em 18 de agosto de 1911, numa cidade do interior de Pernambuco. Filho mais velho de uma família de dois homens e sete mulheres. Nunca foi a escola. Aprendeu a ler e escrever e a contar com a minha avó. Um aprendizado e tanto, de fazer inveja a muita escola de hoje. Muito cedo, com a morte do meu avô, assumiu a responsabilidade de cuidar da sua família, sendo o filho mais velho.

Também construiu sua própria família. Teve dois casamentos. Viúvo do primeiro e com uma filha de 5 anos, desejava novamente se casar. Foi quando conheceu minha mãe, que na época tinha 15 anos. Entre conhecer, namorar e casar não precisou de muito tempo não, apenas seis meses. O casamento durou 49 anos.

Falando no dia do casamento, foi o dia mais feliz da vida da mamãe, teve almoço na cidade e forró no engenho onde iria morar com papai, que era um pequeno comerciante de engenho de açúcar, denominado na época de “barraqueiro”. O meu avô materno contratou os melhores forrozeiros da redondeza e a festa durou a noite inteira, segundo relatos da minha mãe, hoje com 87 anos.

Desse encontro, tiveram 14 filhos vivos, perderam dois filhos, um com 8 meses; e, o outro aos 12 anos decorrente de apendicite aguda. Senão seríamos uma família de 17 filhos e filhas.

Na trajetória de vida de papai, a responsabilidade, o ascetismo, o rigor com relação aos princípios e valores foi muito rígido. Nenhuma falha dos filhos era ponderada, a punição era imediata. Contrastando com esse rigor, o afeto, o incentivo, as festas. A nossa casa, era uma casa onde sempre aos domingos, aniversários, natal e ano novo, ficava repleta de familiares e dos poucos amigos mais chegados.

Ele não era uma pessoa de vícios, fumava e bebia sem exageros. Ainda assim, cortou esses hábitos para não dar mal exemplo aos filhos. Era também uma pessoa esguia e elegante, sem ser vaidosa ou arrogante, um tanto tenso.

Sempre atento aos seus objetivos de ver os filhos na escola e com gosto pelos estudos e pela leitura, comprava jornais todos os domingos e também adquiria livros e enciclopédias para o acervo da nossa pequena estante que ficava na sala de jantar.

A música também fazia parte da nossa vida. O gosto musical de papai era de qualidade. Gostava de chorinhos, música instrumental e regional. Então, tínhamos uma radiola e um pequeno acervo de vinis, como contribuição cultural para a nossa família.

Em meio ao rigor aos princípios e valores que ele tinha estabelecido e a preocupação com a sociedade, havia também o pai que montava balanço na árvore, que caminhava na mata, que plantava e colhia frutos e verduras para nossa família. E que bem cedinho nos períodos de férias fazia a gente tomar leite direto da vaca.

Com tantos filhos, vieram os netos e netas. O coração duro desse senhor logo amoleceu, dedicava-se amorosamente aos netos, com uma desconhecida paciência.

Papai teve uma vida dura, de muito trabalho e de muitos filhos para educar. Durante certo tempo, nossa família morou na área rural, mas a sua preocupação em contribuir para os estudos dos filhos, fez com que construísse uma casa na cidade, cujo arquiteto foi ele mesmo.

Quando nasci, já estavam todos na cidade, menos papai que continuava trabalhando com o comércio de barracão de engenho e vinha para casa quinzenalmente. Quando ele apontava no começo da rua, tínhamos que correr depressa pra casa, porque ele não podia chegar sem que seus filhos e filhas estivessem todos dentro de casa. Então, na sua ausência tínhamos a rua, na sua presença tínhamos a casa, a igreja, a conversa na mesa, o lanche das três da tarde. Nem sempre eu gostava, era inquieta e gostava de brincar na rua. Na sua ausência também, tínhamos os olhos atentos dos irmãos mais velhos.

Contudo, quando ele estava na cidade, sempre contava comigo para fazer as compras que deveria levar para o barracão e me mandava à rua com uma lista de itens para comprar. Eu adorava, pois sempre ganhava dinheiro e também um pouco de liberdade, além dos elogios pelo meu desempenho e habilidade.

“Fazer faculdade”, “estudar”, eram palavras que saiam constantemente da boca do meu pai em direção aos seus filhos. Trabalhou com afinco para dar conta de roupa, casa, comida e escola para os filhos. Evidentemente que teve na sua caminhada a companhia da minha mãe, que fazia sua parte no ambiente doméstico, cuidando da reprodução social da nossa família. Minha mãe, com um jeito silencioso e meigo, era seu braço forte na vida.

Depois, de um longo período morando no interior de Pernambuco, agora com quase todos os filhos casados, restavam quatro filhas solteiras; também, já havia um movimento no sentido da capital. Ele se empenhou para mais essa mudança. Vendemos a nossa casa e fomos morar no Recife-PE. Nesta época, eu já tinha 15 anos. E sendo adolescente, vivia em conflitos e tensões com papai e mamãe. Ele sempre me vigiando, atento.

Na capital, a nossa liberdade foi ampliada, papai vivia no trecho Recife-Água Preta (engenho), com períodos mais longos de visita, até se aposentar. Ganhei as ruas do Recife. A cada vinda de papai havia sempre um conflito, ele sempre desconfiado das filhas virgens, qualquer correspondência que chegava pelos correios ele queria abrir mesmo que fosse endereçada no nome das filhas. Isso era mais confusão. Tiveram muitas.

Chegando ao momento difícil. Quando papai morreu no dia 23 de setembro de 1989, ele tinha 78 anos e eu 25 anos de idade. Hoje, quando me recordo,  sinto que foi uma perda esquisita para mim. Havia alguns dias que ele estava doentinho, com febre, diarréias, foi ao médico, ficou uns dias na casa de minha irmã, mas resolveu voltar para nosso apartamento, fincou o pé e aí já se pode imaginar.

Nesse período, eu vivia muito ausente de casa e dos encontros familiares, estava sempre com minha turma, descobrindo coisas e situações novas. Mas sempre telefonava para mamãe para avisá-la dos meus passos e saber como estavam as coisas na nossa família.

Então, dia 22 de setembro de 1989, telefonei e mamãe me pediu para ir dormir em casa, pois papai não estava muito bem. Fui. Chegando em casa, depois da faculdade, por volta das 23:30 horas, fui falar com papai e saber como ele se sentia e ele não estava bem e me falou: “seu pai não está nada bem minha filha, acho que não vivo mais não”. Estava bastante febril, com um semblante de tristeza. Na verdade, tirar um sorriso de papai não era muito fácil, sempre muito sério e preocupado. Pedi a benção, dei um beijo  e fui dormir um tanto preocupada.

Antes que o dia amanhecesse completamente, mamãe acorda a gente (eu e minhas três irmãs) chorando dizendo que papai estava desmaiado na cama. Na verdade, ele tentou levantar-se e caiu deitado na cama. Eu e Sônia, uma das minhas irmãs, fomos buscar ajuda para levá-lo ao hospital. Um vizinho, atencioso, nos ajudou e junto com os filhos dele carregou papai até o carro. Papai era um homem alto e forte, só homens quem poderia carregá-lo. No carro, eu, minha irmã e papai no nosso colo, quentinho ainda, mas completamente desfalecido, na frente mamãe com o nosso vizinho. Chegando ao hospital, nada havia de ser feito, papai havia tido um infarto fulminante e estava morto.

Fomos eu e minha irmã providenciar o enterro e o velório, o que foi feito e alguém fez o registro em forma de um cartão para lembrá-lo. Quando tudo estava organizado, liguei para o meu namorado e narrei o acontecido, ele se ofereceu para ficar junto comigo por algumas horas antes do enterro e fomos a um restaurante próximo conversar sobre o acontecido. Mas eu não chorava, sentia a perda, sabia quem eu estava perdendo, mas não chorava. E achava isso muito esquisito, como não chorar com a morte do meu pai? Doía, mas as lágrimas não saíram naqueles dias. Findas as formalidades, voltamos todos para casa, na maior tristeza, com o peso forte da ausência, agora irremediável.

Os dias seguintes para mim foram dias de memória. Fazia meus trajetos pela cidade e a minha memória só acenava que agora ele não estava mais entre nós, que eu não iria mais vê-lo e esse pensamento me dava um nó na garganta. Eu era a filha caçula de 15 filhos. Quando  pequena nem podia cortar meus cabelos loiros, sem a autorização dele. Claro que desobedeci, o que gerou um conflito entre pai e filha, depois sanado. Mas  eu sempre me portava com rebeldia diante dos dogmas paterno. Ainda assim, ele era meu fã e vivia na torcida. Cada conquista minha, estava ele ali, registrando, guardando, apoiando, me empurrando pra frente. E agora, sem o meu torcedor mais forte, como iria me arranjar?

No ano que papai morreu, 1989, eu iria concluir o curso de licenciatura em ciências sociais numa faculdade particular. Quando passei no vestibular e meu nome saiu no jornal, claro que ele recortou e guardou para si a matéria, que agora está comigo. Ele já havia dito desde sempre que me daria o anel de formatura, mas eu mesma não queria o anel e falei que queria um aparelho de som para ouvir música. Meses antes de morrer, me presenteou com o que eu queria. Era tão forte a vontade dele para que um filho entrasse na faculdade que ecoou dentro de mim, a mais trabalhosa das filhas e a única a ter o título de universitária. Ele nem viu esse momento, porque morreu meses antes, mas a presença dele na minha caminhada é muito viva e a ausência sentida.

Betânia Torres.

A capacidade da mente humana de absorver a perda é gradual. O chogue inicial a imobiliza,  favorecendo que o tempo nos ajude a compreender a sua extensão.

Viorst  observa com muita propriedade que procuramos nossos mortos e que esta procura  pode se manifestar de várias formas como por exemplo visitar lugares, nos sonhos, entre outras. Enfim, seguir adiante apesar das perdas é desenvolver estratégias para  enfrentá-las. Para alguns  pode ser  uma  forma  de estimulo para o desenvolvimento pessoal.

Querida Betânia grata por abrir seu coração retomando partes de sua história tão significativas. Caminhe na certeza de que a torcida não se foi,  pois se concretiza dentro do seu própria SER.

Norma

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