Perdas – Rosélia

 

Continuando a Série Perdas,  a querida amiga Rosélia do blog Espiritual-poesia compartilha o seu relato.

 

A morte deixa um legado, quer ele seja de fortalecimento ou de trauma que distorce relacionamentos dos sobreviventes.
Monica  MCglodrick

 

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                                   Imagem enviada por Rosélia                                                

 

Nasci preparada para viver… nunca me preveniram para morrer… para perder…Fui educada para vencer e “derrotar” ( a começar pelos concursos na juventude).

Agora que cresci, compreendo e aceito a morte, claro!!! Quanto à perda, isso aí é outra história…

A minha primeira experiência de PERDA foi aos dezesseis anos… uma criança ainda… foi da minha vó materna… Lembro-me de que minha mãe me disse : “por mais uns poucos meses e ela lhe via formada” (em professora)… Eu chorava muito e ninguém me compreendia, tive até uma tia que se enraiveceu… me “puxou as orelhas”… disse que eu já era bem grandinha… coisas do gênero… Comportamentos, aparentemente insensíveis, das duas…

A vovó Celina gostava muito  de mim e eu sentia o seu amor. Na Missa de  sétimo dia, fomos todos de preto (os da minha casa)… e a mesma tia (nora da vó) contestou: “Não se usa mais preto total no luto” (há mais de 40 anos atrás)…

Comecei a perceber a controvérsia de uma perda… e a reação diante da morte…
Hoje faço bem a distinção das duas… Nem toda morte gera perda… cada um reage distintamente…

Eu sou muito emotiva por temperamento e, ao mesmo tempo, como Ministra da Esperança ( a pessoa que pode dirigir as Exéquias na ausência de um sacerdote) tenho uma tendência a incutir esperança nos corações…
Controvérsia???
Não, é a Mão de Deus operando em mim…

Fui perdendo priminha com 3 meses de vida (filha de primo), sobrinha com 2 meses… lamentável… Perdi primo… tios… minha reação foi se “comportando” dentro de mim… diante das mortes e das PERDAS…
O sentido da morte foi sendo assimilado pelo meu ser…

Aí chegou a “prova dos nove” de todo o aprendizado em termos de morte e perda juntos. Meu pai foi se desfalecendo aos poucos… e eu estava lá com ele… lado a lado… tendo reações com a sua perda em etapas (teve Mal de Alzeimer)… durante os seus úitimos meses tive dois desmaios… bem fisicamente estava, com uma dieta até saudável… não comprendia porque seres humanos podiam desmoronarem-se ao ver a chegada da partida desse mundo para outro e da somatização minha quanto à perda em si mesma…

Ele morreu em meus braços… eu vi o sangue descendo pelo seu rosto e os olhos se fechando… me despedi dele em prantos e dizendo-lhe o que não podia calar: “Obrigado por tudo, meu pai, vai com Deus!!!”

Algo ficou diferente em mim, desde aquele dia… Me vejo em lágrimas, sufocada muitas vezes… sem chão… sem ninguém. Fiquei órfã e me sinto desprovida do maior amor que  tive na terra…Às vezes choro… não sou de ferro… sem mais nem menos… até mesmo na rua… caminhando… de saudade… de dor… de lembrança… A DOR DA PERDA…

Vocês irão pensar: será que minha vida foi fácil e uma morte lhe arrasa tanto???
Não, claro que não!!!
Tive perda durante a vida toda… sentimento triste esse… confundido com amor próprio… com orgulho ferido…
Perder marido???
Dói sim, claro!!!
Mas foi um misto de sentimentos descritos acima… nunca uma perda tão lastimável quanto a do meu pai e começado o processo de preparação na de minha avó materna… Foi como um ciclo, hoje faço essa leitura…
Foi, sem sombra de dúvida, a minha maior PERDA a do meu pai amado…

Não se perde algo pequeno com tanto sentimento quanto a perda de alguém grande demais… que representa muito e um pouco mais…
Pude identificar que nem toda morte implica em perda… mas uma PERDA é algo incomparável… até indefínível…
Deixa uma marca enorme em nosso coração… uma cicatriz irreparável…
Só Deus sabe!!!
E Ele é que me ajuda a administrar melhor as minhas perdas diárias… as menores ou não…

E a perda de mim???
Essa eu convivo bem… mesmo com vestígios de tristeza… de amargura… isso é corrigivel e trabalhável… é processo… lento e gradual… ascese… Espiritualidade…estou empenhada nisso… e com a ajuda imprescindível da Graça, eu chego lá…

Mas a PERDA irreparável, ela faz parte do nosso crescimento também… mas é inafiançável…

Rosélia

Não há como negar as perdas.  Elas fazem parte da possibilidade do crescimento do ser humano, sendo essas  classificadas como perdas necessárias. Temos acompanhado nesta Série  o que  os participantes, relatores ou comentaristas, consideram suas maiores perdas.

As experiências são inesgotáveis e a forma de cada um lidar  com suas perdas, seus sofrimentos  é muito pessoal.  O  repensar e compartilhar nos possibilita lançarmos mão do baú de nossas recordações.

As memórias são bens preciosos e como Ipicteto (Séc I DC), em A Arte do viver nos diz ” Você é uma peça essencial do quebra cabeça da humanidade”. Assim, vamos criando um mosaico que  assinala nosso pertencimento a este momento da história.  Ganhamos a VIDA e  perdemos para crescer;  perdemos por ser a morte  parte da vida.

“Você   mesmo é a continuação corporificada daqueles que não viveram no seu tempo e outros serão (e são) sua imortalidade na terra…” Jorge Luiz Borges em  O Legado das Perdas.

Obrigada querida Rosélia por abrir sua alma colocando em seu relatos os sentimentos e atitudes em relação as suas perdas.

Norma Emiliano

 

Comments

  • chica
    Responder

    Lindo depoimento, comovente da querida Rosélia que abriu o coração e escancarou suas perdas pela vida afora…

    Mais uma bela participação, interessante por aqui!

    beijos,.às duas,chica

  • Élys
    Responder

    Um depoimento da amiga querida, Rosélia que nos comove, mas tudo na vida é necessário ao nosso crescimento.
    O meu carinho à Rosélia e a você Norma.

  • Denise
    Responder

    Um depoimento tocante, emocionado, cheio de comprometimento com teu convite para participar desta série.
    Grandes lições acontecem e, muitas vezes, escapa a aceitação integral da vivência mutilante de nossos maiores anseios – perpetuar a vida dos nossos amados é um deles, impossível na matéria e pra sempre na alma, como Rosélia mostra tão bem…mas ainda assim, grande aprendizado, processado aos poucos, naturalmente absorvido, nem sempre atendendo ao período de luto salientado na literatura (penso que o coração tem outra medida), mas de alguma maneira acomoda nossas emoções pra seguirmos viagem.
    Meu pai foi acometido pela mesma doença do seu pai Rosélia, e esse desmoronamento a que se refere, feriu-me pela verdade absoluta…é uma perda antecipada e lenta, dolorida, quase intolerável, embora ele ainda esteja no princípio do processo. A figura paterna tem uma força impressionante, vê-la destituída da energia que foi referência de uma vida, é olhar para algo que não existe mais e está ali. A força agora troca de mãos, e somos nós quem a usa para suportar o momento.
    Um enorme abraço às duas, adorei esta participação!

  • Maria emilia Xavier
    Responder

    Gostei muito da diferença que a Rosélia fêz da “perda” e da “morte”. Nós temos a “mania” de associar a “perda” com “morte”, talvez pelo desconhecido e a definição irrevogável da morte.Rosélia, na departamentalização que fêz dessas duas situações – malvadas e doloridas ao extremo – ela situou muito bem os sentimento da perda por “morte”, que envolve muitos outros sentimentos que só “perda”. Magnífica postagem. Parabéns Rosélia, pela lucidez e a humildade de reconhecer a mão de Deus em seu caminho, Graças e Bençãos Ele continuará a prover na sua vida, tenho certeza. Norma, sem palavras para sua iniciativa, só muitos PARABÉNS e um OBRIGADÃO por nos oportunizar este espaço de crescimento.

  • Toninhobira
    Responder

    Um vasto e inteligente depoimento sobre a perda com uma definição interessante onde a perda é tudo aquilo que não se repara.Parabens e paz a Rosélia para suportar suas inquietações ao tempo que lhe parabenizo Norma pela série e comentario muito bem ilustrado com estes pensadores.
    Repito que este espaço é fruto de uma linda generosidade de sua parte, que faço questão de vir sempre e deixar minha opinião e sentimento,porque sempre saio aprendendo algo.
    Meu terno abraço de admiração.
    Bju de luz nos seus dias.

  • Socorro Melo
    Responder

    Oi, Norma!

    Essa série é muito rica, pois, nos proporciona conhecer os sentimentos e emoções de outras pessoas, que passaram por situações semelhantes as nossas, conhecemos um pouco das reações, e aprendemos com essa partilha.
    O relato da Rosélia é emocionante. E gostei dessa enfatização que ela faz, de que nem toda morte é uma perda… mas, que toda perda, é singular.

    Beijos e bênçãos (para as duas)
    Socorro Melo

  • C.
    Responder

    Maravilhoso esse texto, fui envolvida do começo ao fim. Entendi melhor a dor da perda o lendo. Parabéns Rosélia, e que sua saudade seja amenizada com as lembranças boas do seu pai.

  • Ana Karla – Misturação Misturão
    Responder

    Oi Norma!
    Vim conferir o relato da querida Rosélia.
    Acabei me emocionando com a história comovente dela.
    Acho que quando nessa perda, fico mais sensível.
    Xeros

  • Nilce
    Responder

    No depoimento da Rosélia ficou claro a diferença entre perder o que se tem e perder para a morte.
    Para ela isso é bem distinto. Gostei muito dessa diferença que ela colocou. A morte é uma perda que machuca, mas não deixa mágoa.
    Lindo depoimento Rosélia.

    Bjs no coração das duas.

    Nilce

  • Yasmine Lemos
    Responder

    Emocionada lendo. Tudo pra mim começou com a perda, contraditório,perder para começar .Meu pai e sua ida me destruiu emocionalmente e me refez. O relato de Rosélia é puro e de um profundo conhecimento da dor.Até na sua base religiosa e obediente aos costumes da família.
    Sempre escrevo aqui nas quartas: é dificil este tema ,mas há um exorcismo sempre que pautado .
    beijo em Norma,excelente profissional e pessoa humana sabendo usar bem seu blog e em Rosélia pelo despreendimento em compartilhar suas memórias mais fortes.

  • Rute
    Responder

    O que não nos mata, FORTIFICA.
    A Rô é um exemplo de força, amor e dedicação, a uma causa maior que a materialidade do ser humano.
    Querida Rô, vc desperta a espiritualidade em cada um de nós.
    Muita luz,
    beijinhos,
    Rute

  • Glorinha Leão
    Responder

    Exorcismo, catarse, transparência, exposição…tudo isso junto nos depoimentos que lemos aqui. Desprendimento, talvez, necessidade de dividir também…pois ao dividirmos e partilharmos nossa dor com o outro, deixar que outros olhos nos vejam por dentro, fica mais leve carregar o fardo…Viver é difícil, tenho dito sempre isso. É adorável, mas é dolorido e muito, muito difícil…Parabéns à Roselinha por dividir conosco suas dores, por sua coragem em resgatar dentro de si dores difíceis de serem recolhidas e relembradas. Parabéns Norma, essa série está muito boa! beijos às duas,

  • Giovanna
    Responder

    Lindo e comovente o relato de Rosélia. A gente vai mesmo amadurecendo e enfrentando com serenidade as perdas e até se fortalecendo com elas. Norma, vc está lindinha na foto do perfil. Bjs para as duas (Norma e Rosélia)

  • Nina
    Responder

    Meu Deus, que texto tao forte e delicado ao mesmo tempo. Senti toda a tua dor Rosélia, até porque já perdi vó e pai. Minha avó era e é até hj, o grande amor de minha vida e até hj choro qd lembro dela e olha que ela já se foi há 28 anos!!
    E meu pai, oohh Rosélia, que barra, ele morreu depois de eu estar com ele em seu leito, em coma, e depois de eu ter agradecido por todas as boas lembrancas que tinha dele na minha infancia, caiu uma lágrima do seu resto em coma e eu ri como crianca abracada ao seu corpo imóvel 🙁 passadas algumas hora depois, ele se foi.

    Entao como vc pode ver, temos histórias levemente parecidas de perdas.

    Quero mt ter tua sabedoria pra lidar com elas.
    Um bj pra ti e pra Norma linda, que com esse espaco pra gente, nos faz abrir os coracoes dessa maneira tao bonita e leve.

  • Gina
    Responder

    Impossível não se emocionar lendo o relato da Rosélia, ainda mais tratando-se do nosso pai. Ela viveu o momento da partida com ele. Ficam as marcas na alma.
    Bjs.

  • Adri
    Responder

    Depoimento emocionante o da Rosélia, mais do que sofrer perdas, pensar no assunto para desenvolver uma narrativa e uma reflexão sobre um assunto tão íntimo, tão difícil, é uma coragem e tanto. Beijos!

  • Adri
    Responder

    Agradeço a visita, Norma! Aliás, gostei demais do seu blog, já favoritei para passar sempre por aqui. Sabe que recentemente estava procurando uma terapeuta de família para ajudar um casal de amigos (sou madrinha de casamento deles) que estava com dificuldades, e suei para encontrar uma boa referência. Agora já fico com a sua 🙂 Beijos.

  • Norma Emiliano
    Responder

    Nesta caminhada de seis semana temos encontrado pontos de identificações de vivências, de dores e de forças que nos impulsionam a seguir adiante. Vamos trocando e aprendendo, partilhando os entendimentos e sentimentos, favorecendo o exorcismo do mal estar gerados pelas perdas.
    Isto está sendo possível pelo interesse de todos que têm participado desta roda. Assim sendo, agradeço a vocês e, hoje, especialmente a Rosélia que nos confiou sua trajetória de vida em relação as suas perdas.

    Aguardo-os no dia 25/05 com o relato da amiga Glorinha.
    bjs
    Norma

  • Cris
    Responder

    Lindo, sensível e comovente, sem duvida uma lição para pessoas que sofrem sem motivos. bjs e parabéns as duas

  • Roselia
    Responder

    Queridas e queridos,

    Foi muito emocionante participar da sua série, Norma… Chorei muito novamente… com o meu próprio relato também… escrevi-o naquela semana da tragédia de Realengo…
    Cada comentário belíssimo e de fundo d’alma… que riqueza a de vcs todos!!!
    Me senti como se estivesse escrito memso o que vcs, com seus coraçõe generosos, conseguiram enxergar…
    Vc criou, com essa sua possibilidade, um maravilhoso refletir sobre Tema tão profundo e o interligo à fé, amiga…
    Sem ela, não teria resistido!!!
    Parabéns!!!

    Estou cansadíssima pela noite anterior que passei viajando… e ainda mais com as emoções dese dia…

    Boa noite e fiquem bem!!!

    Obrigada pelo carinho dos amigos constantemente durante minha ausência na net… Vou postar o que vivi neste período devagarzinho…

    Bjs

    Roselia

    P.S. Obrigada pela linda possibilidade de participação, minha doce e amiga Norma…

  • Beth Q.
    Responder

    Muito comovente e de grande sensibilidade tudo que a Rosélia contou.
    A cada dia vejo que todos somos iguais neste mundo, nossas dores e perdas mexem muito com a gente e estamos suscetíveis a isso a qualquer momento.
    bjs cariocas

  • Manuela Freitas
    Responder

    Muito interessante esta sua iniciativa, de cada um escrever sobre essa temática tão presente na nossa vida que é a perda e apesar de termos durante a vida perdas muito diversificadas é sempre a morte a perda maior, porque essa de facto é radical.
    Tenho gostado dos relatos e o da Rosélia está de facto muito bom.
    Beijos,
    Manu

Sua visita e comentários são muito significativos. Volte sempre.

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