Archive for category Conto

Sonhos de mulher

 

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A MOÇA  TEÇELÃ

 

Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.

Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.
 

Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.

Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos  do algodão  mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.

Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.

Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.

Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranqüila.

Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou em como seria bom ter um marido ao lado.

Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponto dos sapatos, quando bateram à porta.

Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando em sua vida.

Aquela noite, deitada no ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.

E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque tinha descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.

— Uma casa melhor é necessária — disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.

Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente.

— Para que ter casa, se podemos ter palácio? — perguntou. Sem querer resposta imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata.

Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.

Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.

— É para que ninguém saiba do tapete — ele disse. E antes de trancar a porta à chave, advertiu: — Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!

Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou em como seria bom estar sozinha de novo.

Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.

Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins.  Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.
A noite acabava quando o marido estranhando a cama dura, acordou, e, espantado, olhou em volta.  Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.

Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.

Texto extraído do livro “Doze Reis e a Moça no Labirinto do Vento”, Global Editora , Rio de Janeiro, 2000

Marina Colasanti é escritora e jornalista ítalo-brasileira.

 

Este conto narra o dia a dia de uma jovem que tece tudo aquilo que necessita. Por meio do trabalho, das cores das linhas,  dá colorido a sua vida.  Ao sentir-se só,  deseja uma companhia e  tece um marido da sua imaginação.  No entanto,sua alegria de ter uma companhia dura pouco, pois  seus sonhos de felicidade não são os mesmo do marido que lhe pede sempre que teça mais e mais de acordo com seus interesses. Com isto ela começa a sentir-se triste e saudosa de sua antiga vida. Assim, resolve destecer tudo que havia tecido, inclusive o marido,  para retomar sua felicidade de tecer seus sonhos de mulher.

Neste conto,  Marina Colassanti enfoca a mulher que busca a  sua completude na companhia masculina, auxilia- nos a refletir sobre o relacionamento da mulher consigo mesma.

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Primeiro amor

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“Eu possa dizer do meu amor (que tive): Que não seja imortal posto que é chama. Mas que seja infinito enquanto dure.” Vinicius de Moraes.

 

No manuseio do álbum encontra fotos de um tempo longínquo e mágico. Lembranças de momentos únicos, momentos inesquecíveis de intensa sensibilidade e emoção. Rosto perdido no tempo, retido por muito nos sonhos. Lembranças inesquecíveis! Recordação do primeiro amor.

No umbral da janela, o encontro rápido e intenso. Um beijo fugaz que incendeia o corpo e ilumina a alma. Seres que despontam para a emoção do amor. Duas almas e dois corpos que anseiam se aproximar.

Vê-lo passar diariamente era ter o dia pleno. Moreno, olhos grandes e negros, sorriso largo. Vibrava ao vê-lo de longe. Passava para lá, passava para cá. Corria atrás da pipa e da bola e ela a espreitá-lo. Seu olhar vez por outra procurava os seus. O coração batia forte e a alegria batia no peito. Tudo era motivo para poder vê-lo, da simples caminhada ao dia das enchentes. Recorda as chuvas torrenciais e as águas que tomavam conta da rua. Da janela ficava a espiar e a esperar. Ao cessar as chuvas, a certeza da sua vinda. Seu coração descompassava e a alegria percorria todo o seu corpo. Ele estava ali e olhava para sua janela.

De brincadeira em brincadeira (pêra-uva ou maçã, pique – esconde, etc.), de conversas pelos portões da vizinhança, pouco a pouco se chegavam. Olhos nos olhos, mãos nas mãos, beijos rápidos. À noite, numa fugida do seu pai, com a proteção da amiga, corria ao seu encontro. Vez por outra, aos domingos, o escurinho do cinema. Filme, qual filme não importava. Ela chegava e sentada o aguardava e passavam as horas de rostinhos colados e beijinhos para lá de gostosos.

Nos bailinhos das festinhas dos amigos, dançavam ao som dos boleros.  O rosto afogueado e mente repleta de sonhos. Tudo e nada eram grandes motivos para um roçar de lábios e olhares embevecidos.

Vida vivida a cada dia envolvida de amor e fantasias. Belo romance permeado de cores e sons da juventude. O tempo passou, os rostos desapareceram, os sonhos se transformaram. Ficaram as fotos e as recordações do primeiro amor.

Norma Emiliano

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Desafio

 

 

Buda e a Flor de Lotus

 

 Buda reuniu seus discípulos, e mostrou uma flor de lótus – símbolo da pureza, porque cresce imaculada em águas pantanosas.
- Quero que me digam algo sobre isto que tenho nas mãos – perguntou Buda.
O primeiro fez um verdadeiro tratado sobre a importância das flores.
O segundo compôs uma linda poesia sobre suas pétalas.
O terceiro inventou uma parábola usando a flor como exemplo.
Chegou a vez de Mahakashyao. Este aproximou-se de Buda, cheirou a flor, e acariciou seu rosto com uma das pétalas.
- É uma flor de lótus – disse Mahakashyao. Simples e bela.
- Você foi o único que viu o que eu tinha nas mãos – disse Buda.

Fonte: aqui

 

O amanhecer de cada dia lhe apresenta o seu menu de atividades,  como você relaciona esta afirmação  ao Conto budista acima.

Bjs, Norma

 

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Amor no ar – Cris França

Hoje temos a participação de duas queridas amigas que nos presenteiam  com contos. Em função disto considerei que seria mais interessante fazer dois posts. Neste quem nos encanta é a amiga Cris França do blog  cantodecontarcontos.

 

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O amor em pequenos potes

Caso 1

João amava Maria, casaram-se e tiveram dois filhos.
Os anos passaram, com seus pesos e compromissos e vida não era tão florida como no início, na maioria das vezes não é mesmo.
João conheceu Ana, amou-a, como havia amado Maria um belo dia.
Separaram-se.
Maria ficou com seus dois filhos, sentiu perdida e teve medo do amor pro resto da vida, e para proteger-se escolheu nunca mais amar.
João acreditando no amor mais uma vez casou-se com Ana, disposto a tudo para fazê-la feliz.
Ana sentia-se sozinha e o grande amor de João passou a sufocá-la.
Ana conheceu Pedro, e o amor veio tomar-lhe a razão.
Ana fugiu de João para ser feliz com Pedro, levou consigo tudo o que pode carregar a cama, a TV e o fogão.
João caiu em desgraça, e jurou nunca mais amar e vingar-se de Ana.
Dois meses depois Pedro conheceu Alice… planeja se mudar com ela pra uma casa alugada e sem móveis e ter dois filhos, sonha com uma vida como era a de João e Maria no começo.

Caso 2

Miro conheceu Beatriz numa praça, mulher de pouca beleza e de muito valor.
Miro desposou-a pelas qualidades que tinha. Ela largou o emprego depois do segundo filho, e depois viram mais as duas meninas.
Miro trabalha o dia todos e Bia cuidava das crianças. Foram felizes como todos durante o prelúdio.
Bia passou a sufocar Miro de ciúmes, e o amor virou doença.
Bia não cuidava das crianças como devia, passava mais tempo investigando Miro, que cuidando de seus deveres.
Miro irritou-se e começou cada vez mais a sair de casa.
Em seus caminhos conheceu Arlete, mulher de riso fácil e de zíper mais fácil ainda.
Encantou pelo sexo. Amou-a
Bia deprimiu-se, nem dos filhos cuidava mais.
Miro era responsável da forma que podia e nunca deixou Bia, mas foi infeliz porque sonhava em como era poder ter vivido com Arlete.
Arlete foi infeliz, pois amou Miro e tudo o que Bia tinha ela desejava, e nunca pode ter filhos, casa e Miro por perto.
Bia enlouqueceu, tentando resgatar o amor que se perdeu e nunca mais voltou.
Morrendo amando Miro.

Ambos os casos acima são verdadeiros, e os nomes foram trocados para proteger os protagonistas de tais historias.

O amor sem sombra de duvida é algo muito grande.

Talvez por isso seja tão difícil lidar com o amor.

Os poetas definem a profundidade do amor como ninguém, sendo impossível traduzir o amor em um só texto.

O amor é infinito, o amor é um fogo que arde, o amor é tudo, dizem alguns.

Mas devo confessar aqui que tenho por anos sendo testemunhas de gente que perdeu o controle de si em nome do amor.

O que me fez querer escrever este texto.

Talvez o amor seja mesmo imenso e infinito, uma grande força que existe dentro de cada um de nós, e assim para poder se administrada, precise ser dividida, como são todas as grandes coisas do mundo.
Cinco oceanos, Sete continentes, várias raças, várias línguas, 12 meses no ano, 7 dias na semana, tudo que é grande fica mais bem distribuído e muito mais organizado pela divisão.

Talvez o criador tenha tentado mostrar isso a nós.

Deu-nos várias formas de amor. Vários potinhos, para que nele pudéssemos colocar algo que é tão grande dentro de nós.

Deu-nos um pote do amor-próprio.
Deu-nos um pote de amizade, uma das mais belas e desinteressadas formas de amor.
Deu-nos um pote onde colocamos nossos pais, ou aqueles que nos criam nesse mundo, um amor agradecimento.
Deu-nos um pote para colocar o amor aos filhos.
Deu-nos um pote para colocar a nossa fé, que é um amor diferente de todos os outros, seja a fé em que for ela é um tipo de amor, amor pela vida, pelo sol, por um ser divino, mas é amor.
Deu-nos um pote para colocar o amor que sentimos pelas coisas que fazemos como pessoas, seja por profissão ou vocação.
E deu-nos um, e só um pote para poder amar outra pessoa.

Então fico aqui me perguntando por quê?

Porque a gente quer colocar todo o nosso amor num potinho só?

Todos os nossos ovos numa única cesta?

Toda a nossa vida em função de uma pessoa?

Ora alguém que como diz o poeta, deve cuidar do próprio jardim, deveria colocar ali uma placa bem grande escrita “NÃO PISE NA GRAMA”.

Uma vez uma pessoa que conheci me ensinou uma coisa que nunca mais esqueci e sobre a qual até já falei aqui, mas vale relembrar.

Você sofre por amor?

Ora meu bem, olhe os outros potinhos… se te faz sofrer, não pode ser amor….

O amor é algo que te faz bem e não mau…

Cris França

 Obrigada minha querida Cris  por estar aqui somando sensibilidades em palavras dedicadas a exaltação ao AMOR e a todos que diariamente têm contribuido neste crescer no AMOR.

Norma

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Amor no ar – Neca

 

 Hoje temos a participação de duas queridas amigas que nos presenteiam  com contos. Em função disto,  considerei que seria mais interessante fazer dois posts. Um na parte da manhã e o outro à noite (19:30).  

Neste quem aquece os nossos corações é a amiga Neca da blog  aidemimquesouromantica.

Venha também participar.  Nos comentários  acrescente  suas  palavras amorosas e se quiser pode oferecer   à alguem muito querido por  você.

 

VenusAmorPietroTenerani                 WEB

 

Eu me chamo Amor. Pequenino, mole, rosáceo e alado, tenho mil anos de idade e sou casto como uma libélula.

Já começou o crepúsculo e a noite logo cairá. Quando ela chegar, a música cessará e terei que partir para que o dono de tudo o que aqui se vê entre neste quarto para tomar posse desta mulher. Ela, a essa altura, graças à minha vontade e bons ofícios, estará pronta para recebê-lo e atendê-lo. Ou seja, com fogo de vulcão, sensualidade de ofídio e presunções de gata angorá.

Eu não estou aqui me divertindo, e sim trabalhando, se bem que, é verdade, qualquer trabalho feito com eficácia e convicção se transforma em prazer. Minha tarefa consiste em despertar a alegria corporal daquela mulher, avivando as cinzas de cada um dos cinco sentidos até inflamá-la, e em povoar sua cabecinha com fantasias
eróticas. Ele, o homem que ela ama, gosta que eu a entregue assim: ardente e ávida, com todas as prevenções morais e religiosas suspensas e sua mente e seu corpo sobrecarregados de apetites. É uma tarefa grata, mas não fácil; requer paciência, astúcia e destreza na arte de sintonizar a fúria do instinto com a sutileza do espírito e as ternuras do coração.

A música, rondando o pensamento dela, cria a atmosfera propícia. Geralmente se pensa que ela dessexualiza e até desencarna o humilde mortal a quem suas ondas banham. Crasso engano; na verdade, a música, com sua languidez obsessiva e seus suaves miados, o que faz é isolar o espírito de maneira que possa mergulhar em algo exclusivo e diferente.

A música aquieta e retrai aquela mulher; uma branda imobilidade próxima ao êxtase a embarga, e ela entrefecha os olhos para se concentrar mais na melodia que, à medida que a invade, afasta de seu espírito as preocupações e atritos da jornada e o esvazia de tudo o que não seja audição e sensação pura. Assim é o começo. A música toca num crescente enervante que sigilosamente a transporta à procissões que de repente se transformam em Carnaval pagão e dali, sem transição,ao coro gregoriano de uma abadia e, por fim, a um promíscuo baile à fantasia numa mansão dos subúrbios. O vinho corre aos borbotões e há movimentos suspeitos na pracinha do jardim. Uma linda mulher sentada semi-despida no colo de um homem, que de repente tira a máscara. E quem era? Aquele que fez morada no seu coração.

A propósito, ela só está vendo estas imagens porque eu as descrevo em seu ouvido, com uma vozinha malvada, ao compasso da música. Minha sabedoria lhe traduz em formas, cores, figuras e ações incitantes às notas musicais. É o que estou fazendo agora, avançando como um espigão sobre o seu ombro: sussurrando-lhe fábulas pecaminosas. Ficções que a distraem e a fazem sorrir, ficções que a assustam e inflamam.

Nem ela nem eu temos esses problemas de consciência e de moral. Eu, porque sou um deusinho pagão, e ainda por cima inexistente, pura e simplesmente uma imaginação dos humanos, e ela porque é uma mulher que se submete a estas sessões preparatórias por amor ao seu homem. Trata-se, pois, de uma mulher dócil à vontade do que se entende por amor, de maneira que, se há pecado nesses ágapes sensuais, é de se supor que só irá enegrecer a alma de quem, para seu deleite pessoal, os concebe e os comanda.

Apesar disso ela continua sendo real, concreta, viva como uma rosa sem arrancar do galho. Não é uma linda mulher? Sim, lindíssima.

Principalmente, neste instante, quando seus instintos começaram a despertar, acordados pela sábia alquimia das notas musicais e as ardentes depravações que eu destilo em seu ouvido. Minha mão esquerda sente, ali sobre o seu peito, como sua pele foi se tensionando e aquecendo. Seu sangue começa a ferver. Este é o momento em que ela atinge a plenitude, ou aquilo que os filósofos chamam de absoluto, e os alquimistas, transubstância.

A palavra que melhor cifra seu corpo é: túrgido. Açulada por minhas luxuriosas ficções, tudo nela se faz curva e proeminência, sinuosa elevação. Esta é a consistência que o bom degustador deveria preferir em sua companheira na hora do amor: uma tenra abundância que parece a ponto de se derramar mas que se mantém firme, solta, elástica como uma fruta madura.

Agora que já está incendiada por dentro, sua cabecinha fosforescendo de imagens lúbricas, eu escalarei suas costas e me esparramarei na acetinada geografia do seu corpo, fazendo-lhe cócegas nas zonas propícias com as minhas asas, e pularei como um cachorrinho feliz no morno travesseiro do seu ventre. Esses meus atrevimentos a fazem rir e deslumbram seu corpo até deixá-lo em brasa. Minha memória já está ouvindo o riso que virá. Quando ela ri, seus mamilos endurecem e se erguem, e os músculos de sua barriga vibram sob a tersa pele com odor de baunilha. Nesse momento meu empinado nariz pode sentir o aroma de seus sucos secretos. O perfume dessa supuração de amor enlouquece aquele homem que – ela me contou -, de joelhos, como quem reza, absorve-o e se impregna com ele até se embriagar de felicidade.

“Enquanto você cheirar assim, serei seu escravo”, diz ela que ele lhe diz, com a língua solta dos ébrios de amor. Logo a porta se abrirá e escutarei o suave sussuro das pisadas do homem que ela ama. Logo o veremos aparecer na borda deste leito para verificar se fui capaz de cumprir minha missão. Ouvindo o riso dela, vendo-a, respirando-a, entenderá que alguma coisa aconteceu nesse sentido.

A música cessará e eu saltarei pela janela e me afastarei batendo asas rumo à noite fragrante do campo. No quarto ficarão os dois e o rumor do seu terno embate.

(Trata-se da minha versão para Vênus Com Amor e Música, trecho de Elogio da Madrasta, escrito por Mario Vargas Llosa. E por se tratar de uma versão, o texto foi amplamente modificado).

Neca

  

 

Obrigada querida Neca por ter aceito o convite e   nos contagiar do amor/paixão  nesta semana de tanto enlevamento.

Obrigada a todos que por aqui passam e se integram a este grande Baile poético.

Norma

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Um conto

 

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“Era uma vez uma pequena(o) princesa(príncipe) que morava no interior de uma rosa. A rosa estava num país onde nunca chovia. Lá de dentro, ela(e) ouvia os ruídos que havia na vida. E assustava-se com o que ouvia, imaginando um punhado de coisas terríveis! Eram vozes de crianças, de pessoas passando por perto, de máquinas trabalhando e de animais.

Uma noite, ao dormir, teve um belíssimo sonho, no qual pessoas amigas e animais dóceis e elementos da Natureza surgiam para conversar com ela(ele) e lhe contar segredos muito importantes para a sua felicidade. No sonho, ela(ele) ouviu atento a tudo o que lhe foi apresentado e, mesmo sem compreender tudo aquilo, sabia que ali estavam informações preciosas, que iriam mudar para melhor a sua vida.

Na manhã seguinte, ao despertar, percebeu que havia caído uma leve chuvinha durante a noite e que a rosa estava começando a se abrir. Assustada(o), ela(ele) nem queria pensar em ver o que havia lá fora. Mas, aconteceu o contrário: todos ficaram muito admirados com a rosa aberta e vieram dar-lhe as boas-vindas – as crianças pararam de brincar, as pessoas arregalaram os olhos, surpresas, o som das máquinas cessou e os animais aproximaram-se. Percebendo-se tão querida, a(o) princesa(príncipe) também ficou muito admirada(o) e começou a conhecer e conversar com todos.

Naquele noite, quando a rosa fechou-se para que ela(ele) pudesse dormir, todos os sons externos já eram conhecidos e não causavam mais susto. A partir daquele dia, os sonhos da princesa(príncipe) trouxeram profundas revelações muito importantes para a sua felicidade. E a cada vez que a rosa se abria, a vida lá fora estava pronta para receber o sorriso da(o) princesa(príncipe) e a sua confiança na vida e no futuro.” Fonte

 

Para você, qual a mensagem que fica deste conto?

Norma

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Sentimento maior

 

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Recebi de uma pessoa querida um conto  e considerei muito próprio para encerrar a semana no desejo de que o AMOR seja o sentimento maior que direcione nossas vidas

 

A flor que amava o mar

 

Havia uma flor à beira de um rio que se apaixonou pelo mar. Talvez por ouvir o sussurro das águas do rio, que corriam ansiosas para desembocarem na sua imensidão, passou a amar profundamente aquele ser conhecido apenas pelo ouvir falar do vento e dos pássaros. Apaixonou-se por alguém que nunca viu, mas nunca viu; de longe ouvia o canto ritmado das ondas e se imaginava naqueles braços, numa dança contínua da qual só os que têm em si muito amor sabem o ir e vir. Sonhava com o dia em que pudesse estar envolvida por aquele tão admirado e imenso ser. E sentiria suas pétalas acarinhadas por alguém que, certamente, lhe saberia a alma de flor delicada.

Tanto sonhou e pediu, que um pássaro, sensibilizado, mesmo avisando-lhe do risco que corria, atendeu seu pedido de cortar-lhe a haste. Seguindo o rio e deixando-se levar pela correnteza, iria ao encontro de seu querido e a ele juntar-se-ia para sempre.

Caindo no rio, sentiu de imediato seu corpo gelar naquelas águas rudes e fortes que a arrastavam rapidamente. A princípio, gostou daquela velocidade com que ia ao seu destino. Depois sentiu a primeira mordida de um peixe que lhe amputou parte de uma pétala; começou, então, seu caminho de sofrimento. Troncos no meio do caminho insistiam em lhe obstruir a passagem e, cega, sendo levada pela força da água, batia contra pedras que iam lhe dilacerando e tirando sua beleza de flor. Enormes cachoeiras traziam quedas violentas. Medo vencido por uma determinação de quem sabe o que quer. Mesmo quase desmaiada e toda machucada, levava consigo o alento de ir encontrar com seu amor. Todas as dores do mundo não se comparavam à felicidade de realizar o seu sonho. Tudo vale a pena quando se ama.

Até que, muitos dias depois, totalmente deformada e quase inconsciente, viu chegado o momento com o qual sonhou. As águas do rio encontravam-se com o mar com tanto ímpeto que, no encontro, foi arremessada para cima. Naquele exato instante, olhou para o céu e agradeceu a Deus por haver chegado a quem tanto amou. E seus pedaços boiaram inertes sobre aquelas águas que, minutos depois, sequer lembrariam daquela pequenina criatura – um dia tão linda – Flor.

Poucos, além dos pássaros e do vento, souberam da flor, mas ela realizou seu sonho. Conheceu o mar! Na vida, não podemos reclamar dos caminhos que escolhemos. Qualquer caminho é uma opção nossa. Até morrer de amor. Pensando nisso, entre duas lágrimas com gosto de sal e o esboço de um sorriso irônico, de repente, me dei conta de uma coisa:
- Eu conheci o mar !

Texto: Paulo Moreira

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Bom final de semana

Norma

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O compartilhar

A felicidade solitária é dolorosa

Quando Zaratustra tinha 30 anos de idade deixou a sua casa e o lago de sua casa e subiu para as montanhas. Ali ele gozou do seu espírito e da sua solidão, e por dez anos não se cansou. Mas, por fim, uma mudança veio ao seu coração e, numa manhã, levantou-se de madrugada, colocou-se diante do sol, e assim lhe falou: Tu, grande estrela, que seria de tua felicidade se não houvesse aqueles para quem brilhas? Por dez anos tu vieste à minha caverna: tu te terias cansado de tua luz e de tua jornada, se eu, minha águia e minha serpente não estivéssemos à tua espera. Mas a cada manhã te esperávamos e tomávamos de ti o teu transbordamento, e te bendizíamos por isso.
Eis que estou cansado na minha sabedoria, como unia abelha que ajuntou muito mel; tenho necessidade de mãos estendidas que a recebam. Mas, para isso, eu tenho de descer às profundezas, como tu o fazes na noite e mergulhas no mar… Como tu, eu também devo descer…
Abençoa, pois, a taça que deseja esvaziar-se de novo.
Fonte

Considero que é na trocas pessoais que  expandimos o nosso SER.

Como você se coloca diante desta afirmação?

Norma

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