Reedição

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“A velhice é a chance última de dar o toque final à estátua que fomos talhando de nós mesmos.” Esta frase é de Leonardo Boff, teólogo brasileiro, citada  ao fazer sua releitura da vida. Em seu entender ser velho consiste  na última etapa da vida. Assim sendo é  a ultima chance  que a vida “nos oferece para  continuar a crescer, chegar a madurar e, por fim, acabar de nascer.”

Ainda segundo este teólogo,  uma das vantagens é não se  precisar usar mais as máscaras que a vida lhe impõe a cada momento, no sentido de que  a vida é como um teatro no qual você é chamado a representar vários papeis (de homem, de frade, de padre, de teólogo, de escritor, palestrante, etc.).  ”Como velho  você tem o direito e o privilégio de ser você mesmo e de livrar-se  das máscaras”.

No entanto, este processo não é tão fácil e alguns perdem a sua identidade  e necessitam buscar  novos sentidos de vida. É um momento de confronto que para Boff ” é a chance de virarmos sábios”. Portanto, para ele o envelhecimento “não é castigo, mas graça sobre graça. Ela nos permite experimentar o que nos diz São Paulo:”Na medida em que definha o homem exterior, se rejuvenece o homem o interior”(2Cor 4,16)”.

Diferentemente de Boff, para muitas pessoas, o envelhecimento é algo que preocupa uma vez que este é um fenômeno não se dá de forma igual;  tem um caráter individual. 

Assim sendo, como então podemos pensar sobre uma velhice bem sucedida?
De acordo com  alguns especialistas, este sucesso  está relacionado à junção de três grandes categorias de condições:
-  a reduzida probabilidade de doenças, em especial das que causam perda de autonomia.
- a manutenção de um elevado nível de funcional nos planos cognitivo e físico.
- a conservação do funcionamento social e bem-estar subjetivo.

O envelhecimento vem acompanhando do momento da aposentadoria que traz sentimentos ambíguos  como: alegria, tristeza, frustração, alívio e perda. É um momento de mudanças.  A adaptação e aceitação dependem da forma como cada um opta por vivenciá-las.

Ilustrando as considerações acima, reescrevo abaixo  uma poesia que faz  interessante associação entre o outono e a vida escrita pelo poeta português Fernado Ramos.

O OUTONO E A VIDA

Outono, estação da melancolia
Dizem alguns
Mas se observar bem…
Celebre cada seu dia
Entrando em contacto com a Natureza
Toque-a, respeite-a e ame-a
Ao faze-lo, estará a fazer o mesmo consigo
Respeite-se, e ame sempre a Natureza
Mesmo no Outono da sua vida
Se o fizer, verá que esses dias
Não serão de tédio
Nem tão pouco melancólicos assim
Nesses dias seja criativo
Sempre ajuda a preparar metas
Alcançáveis dessa estação
Como olhar o mar em dias de chuva
Ouvindo o sussurro das ondas
Ou admirar o silêncio
Lembrando-se de um acorde
Duma partitura famosa
Ou até passear por lugares onde não vai
Nem nas outras estações do ano
Verá, e descobrirá que o Outono
Não estará assim na funda melancolia
Como os amigos nos querem fazer querer

Nesta Estação onde a folha cai
Procure um lugar só para si
E medite saboreando dias menos soalheiros
Medite olhando os jardins, e verá
Que acaba por encontrar a paz interior
Num Outono que também é dono
De dias de sol formoso
Dias que uma vida inteira procurou
Relaxe e descubra a alegria
Em pequenos nadas
Que nunca notou na esplendorosa Primavera
Brinque no Outono, brinque com ele
Porque se pensar bem, deve precisar
Para encarar um tempo frio que se aproxima
E isso certamente o ajudará a ultrapassar barreiras
Que lhe parecem intransponíveis no Inverno
E vá buscar o prazer de se encontrar consigo
Lembrando-se sempre… No Outono
Ou em qualquer outra estação do ano
Nunca deve perder o gozo de se encantar

Nem carregue aos ombros o mau humor
Tristezas, ou o nó bem apertado
Da tal melancolia
Que dizem ser do Outono
Ele, é só mais uma Estação, apaixone-se
Seja feliz nele, e isso só depende de si
Mais do que pensa
E verá que o começo do Outono
É só o prenúncio do final do Verão
Nas suas faces belas
Que aparece para perseguir o ciclo da vida
Da sua vida

                                                                                                                                                    Fernando Ramos

Fontes:

Leonardo Boff

Fernando Ramos

 

Norma Emiliano