Tempo da delizadeza

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Navegando  em diversos  blogs, observei que já existe uma preocupação neste contexto  com  padrões de boa conduta  em função de uma convivência  respeitosa e sadia.

Sabemos que o real e virtual fazem parte de um mesmo padrão de comportamento, ou seja, ninguém se esconde por trás de uma tela,  bem como ninguém é fora de casa o que não é em sua intimidade  familiar. Assim sendo, escolhi o texto abaixo  que nos fala de amor  e que pode ser transportado para tudo que  fazemos, inclusive  em nosso espaço virtual, pois “preciso não dormir, preciso não morrer, porque há muito amor ainda não realizado”…

“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu”, diz o texto sagrado. O amor também tem os seus tempos e ele muda como mudam as estações.
Nos países frios, a primavera é o tempo da pressa. Os bulbos, que por meses haviam hibernado sob o gelo, repentinamente despertam do seu sono, rompem da noite para o dia a camada de neve que os cobria e exibem, sem o menor pudor, os seus órgãos sexuais coloridos e perfumados, suas flores. ”Que lindas…”, dizemos. Ignoramos que aquela é uma beleza apressada. A primavera é curta. Outro inverno virá. É preciso espalhar o sêmen com urgência, para garantir a continuidade da vida. Por isso se exibem assim, em sua nudez colorida e perfumada, para atrair os parceiros do amor.
Se as plantas pensassem, teriam os mesmos pensamentos que têm os jovens quando neles desperta o sexo, em todo o seu furor de realizar-se É só isto que importa: o coito. Passado o êxtase. Vai-se o interesse, fuma-se um cigarro, vira-se para o lado…
O verão é o tempo em que a fúria reprodutiva já se esgotou. Tempo maduro, tempo do trabalho dos filhos, das rotinas domésticas. Os mesmos olhos que se excitavam ao contemplar o corpo nu da pessoa amada já não se excitam. Já não sorriem nem têm palavras poéticas a dizer sobre ele. Há uma rotina sexual a ser cumprida. Vai-se o encantamento, os olhos e as mãos se cansam da mesmice e começam a procurar outros corpos e vem a saudade da juventude que já passou. Cumprido o ato, vem o silêncio.
O outono é a estação de uma nova descoberta. Não há urgência. Nenhuma obrigação. A natureza está tranqüila. Na adolescência qualquer mulher servia, porque o sexo era comandado pelas pressões vulcânicas dos hormônios e pelos genitais. Agora o que excita é o rosto da pessoa amada. O sexo deixa de ser movido pela bioquímica que circula no sangue e passa a ser movido pela beleza. O amor se torna uma experiência estética. E o que os amantes outonais mais desejam não são os fogos de artifício do orgasmo, mas aquela voz que diz: “Como é bom que você exista…”
O outono é o tempo da tranqüilidade. É bom estar juntos, de mãos dadas, sem fazer nada. É bom acariciar o cabelo da amada… Esta é a grande queixa das mulheres – que para os homens a intimidade é sempre preparatória de uma transa. Talvez porque se sintam obrigados a provar que ainda são homens. O que as mulheres desejam não é o prazer, é felicidade. O outono é o tempo do amor feliz.
O Chico escreveu sobre esse tempo e lhe deu o nome de “tempo da delicadeza”, na canção “Todo o sentimento”.“Preciso não dormir até se consumar o tempo da gente…”
Sim, preciso não dormir, preciso não morrer, porque há muito amor ainda não realizado. “Vem-lhe então a memória do amor que, por descuido, não se realizou, e vai em busca da sua recuperação: Pretendo descobrir no último momento um tempo que refaz o que desfez…”
Esse verso me comove de maneira especial. Pensando no meu desajeito, na minha desatenção, vou lembrando das coisas que derrubei, das palavras que não ouvi, das flores que pisei. E dá uma vontade de fazer o tempo voltar para poder refazer o que foi desfeito, para recolher todo o sentimento e colocá-lo no corpo outra vez…
Aí ele vai mansamente dizendo as palavras que o amor deve saber dizer, palavras que só existem no “tempo da delicadeza”. “Prometo te querer até o amor cair doente, doente…” Por isso, por causa desse tempo misterioso, é preciso amar cuidadosamente com o olhar, com os ouvidos, com a mão que tateia para não ferir… enquanto há tempo.

Rubem Alves (08.02.08)

Como você se percebe neste tempo da delicadeza?

Comments

  • Veloso
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    Lindo post sobre essa fase tão especial de nossa vida que muito relutam em aceitar!

  • Beth Q.
    Responder

    Norma, querida!
    Sou fã incondicional deste homem de 97 anos e que se pudesse tinha todos os livros!
    Vivo dizendo isso pra Glorinha, porque acho que ela ainda não leu nada deste maravilhoso escritor.
    Mas, taí, outra maravilha dele e que ‘delicadeza’ de texto!
    Bem, eu, sinceramente, sempre procurei a delicadeza na minha vida, mesmo errando algumas vezes, sendo um pouco rude, mas retomo porque não gosto disso, prefiro que me chamem ou me sintam meio boba às vezes, mas sempre a delicadeza.
    bjs cariocas

  • Regina Laura
    Responder

    Norma, estou aqui para agradecer duplamente.
    Suas palavras gentis que me deram tanto conforto na alma.
    E esse post, tão especial, falando do tempo da gente.
    O tempo da delicadeza.
    O tempo que andamos esquecendo pela vida, até nos lembrarmos novamente.
    Um tempo de paz.
    Obrigada por compartilhar mais essa pérola de Rubem Alves.
    Obrigada pelo carinho
    Beijo grande
    PS. Inadvertidamente comentei no post errado. Agora sim está certo. 😉

  • Nilce
    Responder

    Oi Norma
    Este é o segundo texto de Rubem Alves que leio hoje.
    Ele é demais.
    Precisamos cuidar muito desse tempo de delicadeza como canta Chico. O próprio nome diz: delicadeza. Sem cuidados, morre num instante e tentar replantá-lo pode não vingar.

    Bjs no coração!

    Nilce

  • josé cláudio – Cacá
    Responder

    Eu percebo que estou em busca de uma estação dessas (mas primeiramente é preciso que haja um amor que valha a pena). Quem sabe um amor outonal, com toda essa necessidade de cumprir-se o tempo da gente? Esse texto é de uma beleza estonteante, Norma. Meu abraço. paz e bem.

  • manuel marques
    Responder

    A delicadeza é a flor da humanidade …

    Abraço.

  • Tati
    Responder

    Ah, Norma… rsrsrs Eu não tenho esta filosofia toda não, só papo furado. Ele me faz cada pergunta… Fala sério! Eu fico orgulhosa, mas não acompanho… rsrsrs Beijos.

  • Tati
    Responder

    Norma, eu amo o Rubem Alves e este texto está incrível. Adoro o jogo de palavras. E terminar exibindo esta música, maravilhosa, que não tem como não se emocionar ao ouvir… Eu também gostaria de retornar ao tempo que refaz o que desfez, muitas vezes pensei nisso!
    Maravilhoso ler este texto aqui! Beijos.

  • chica
    Responder

    Lindo texto de Rubens Alves e acredito piamente que temos que semear cada vez mais o amor por onde passarmos.

    Falar isso parece simples e fácil. Mas somos humanos e normais e há dias nos quais temos que nos esforçar pra mandar amor a quem nos incomoda e atinge. Mas é só esse o caminho…
    Ótima reflexão e deixo um beijo,chica

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