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As doenças encontram na cultura a forma de se expressar

 

 Na mesa farta, a família encontra-se reunida. A freqüência diária desta reunião ocorre à noite e é constante a ansiedade gerada por Paula, que mexe e remexe o prato enquanto todos já terminaram. Nas consultas ao clínico, os pais são orientados em relação ao estado de desnutrição da adolescente. A partir daí, várias análises foram realizadas por profissionais de diversas áreas (psiquiatria, nutrição, endocrinologia e terapia familiar).

È freqüente a associação dos transtornos alimentares à modernidade, tendo em vista à moda, realçada principalmente pela mídia, que traz a magreza como padrão de beleza. Contudo, doenças do comportamento alimentar refletem a confluência entre os fatores psicológicos, biológicos e sócio-culturais e seu tratamento integra vários níveis de análises (padrões alimentares, problemas interpessoais, familiares e psicopatologia). Faz- se necessária, portanto, uma abordagem global e integradora.

Na história de família de cada um dos membros que constitui o casal há fios que pouco a pouco foram tecidos e trazem o alimento como fonte de amor e as refeições como representação da união familiar.  Paula, a primeira filha, já em bebê, apresentou rejeição à lactose acarretando ansiedade aos pais por não conseguirem alimentá-la normalmente.

O funcionamento psicológico de uma pessoa está ligado à estrutura à qual pertence. As interações e trocas inconscientes entre os membros podem determinar perturbação psíquica em um dos membros, assim como a forma que essa tomará e como ela se desenvolverá. Nesse sentido, o terreno da patologia, como diz Minuchin (1982), é a família.

Alimentá – la passou a ser um objetivo a ser perseguido. Os outros filhos, cada um com suas características, passaram a competir com a atenção dos pais, dificultando assim a comunicação entre a irmandade. Nos momentos de maior estresse, Paula recusava-se a se alimentar e todas as atenções se voltavam para ela.

O funcionamento familiar é um elemento central na determinação, manutenção e/ou desenvolvimento dos Transtornos Alimentares. Eventos ocorridos na família (briga do casal, morte ou nascimento, etc.) podem anteceder aos Transtornos Alimentares.

Paula aliançava-se com a mãe em detrimento do pai, que era considerado pela esposa excessivamente autoritário e controlador. Ele vigiava cada alimento que Paula comia e pai e filha constantemente se atritavam.

 A história familiar da infância e da puberdade precisa ser levantada com o doente e seus familiares, permitindo a reconstrução de memória dos familiares que comporta preocupações, atitudes face ao padrão alimentar, mitos, lealdades e a auto-imagem corporal ao longo do desenvolvimento.

No decorrer da Terapia Familiar, os conflitos do casal e suas diferenças vieram à tona e o casal pôde fazer acordos e negociações que privilegiaram a relação conjugal totalmente esquecida. Uniram-se para realizar mudanças de atitudes em relação ao padrão familiar (família bem alimentada e unida), conseguindo sair da “massa indiferenciada” e ver a individualidade de cada filho.  Paula pode seguir enfrente, cuidando de si própria, ampliando a rede de amizade e terminando seu curso.

Na abordagem familiar procura-se a reconstrução de memórias, a contenção da crise familiar, clarificação e reorganização das fronteiras dos diversos subsistemas (paterno, conjugal, irmandade), definição dos papéis de cada um dos membros preparando os membros para mudanças.

Os sintomas das doenças vistos como metáforas abrem portas para o autoconhecimento e proporciona oportunidades para o crescimento individual e familiar.

 

Bibliografia

 - Organização Mundial de Saúde. Classificação de transtornos mentais e de comportamento da Cid-10. Descrições clínicas e diretrizes diagnósticas. Porto Alegre: Artes Médicas; 1993. p. 351.  

 - MINUCHIN, S. Famílias: Funcionamento e Tratamento. Trad. J.A. Cunha. Porto Alegre, Ed. Artes Médicas, 1982.

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