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Sonho de Natal

Manhã de Natal! Três beijos e um sonho. Faz dezesseis anos que você partiu em sua viagem sem volta. Neste dia o sol se pôs, a lua e as estrelas cintilaram no céu, mas em meu ser uma nuvem espessa transbordou em lágrimas. Não mais uma menina indefesa que nem sequer podia imaginar perdê-la, mas uma jovem mulher, mãe de suas netas.

A certeza da perda eterna na manhã seguinte aportou em meu ser que teimava em não querer acordar para a vida sem você (mãe). Entretanto, no suceder dos dias, anos, a sua lembrança querida foi pouco a pouco se transformando numa doce saudade. Em muitos momentos, sua voz, expressões vêm à minha mente. Momentos em que a dor das feridas cotidianas me dilaceram, sua presença em minha mente me faz recordar suas angústias e alegrias e reconheço o quanto tudo é fugaz.

São muitas as lembranças sobre a vida compartilhada. O caminho trilhado conta uma história. Nesta história sinto-me tão próxima e tão distante de você (mãe), viva ou morta, esses momentos se revezam. Quando viva, em minha pequenez de menina, enrolava-me em seu colo quando o medo me acometia. Que medo? Não sei. Era sempre você o meu porto seguro. Na adolescência, ah! Quanta distância! Entre amigos, festas e passeios sua presença era a censura. Todavia, na vida adulta, reencontro-me e vejo em você não meu porto seguro, mas a certeza do aconchego e do pertencimento. Sim, pertencer; fazer parte, sentir-me amada e valorizada.

Hoje, sinto bem- estar em ser a pessoa que sou. Você, mãe, acompanhou muitos dos meus passos, deu-me asas para voar e poder pousar em minhas escolhas. Escolhas nas quais tive que ser responsável pelas conseqüências, tivessem sido elas positivas ou negativas.

Você partiu e deixou comigo o amor que atravessa os tempos, o amor à vida, à humanidade. Em minha história, mãe, você esteve e estará sempre presente e nesta manhã de Natal recebi mais um inesquecível presente, seus três beijos em meu sonho e o sentimento renovado do pertencimento.

Norma Emiliano

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Briga de casais

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O casamento é aquele ambiente idealizado em nossa infância onde somos amados sem reservas e tudo funciona por conta própria, e, se não funcionar, é culpa do outro”.  Kitty LaPerrière

Constatamos nos atendimentos a casais o desalento dos parceiros por não conseguirem mais se entender. Falam dos conflitos contínuos, da indecisão de se manterem juntos e da impossibilidade da comunicação. Sentem-se perdidos, sofrem, e cada um está convencido de que o outro é a causa do problema.

O início dos relacionamentos é envolvido pelas idealizações de cada um dos membros do casal. Passada a fase do encantamento, surgem as diferenças, que são sentidas como uma traição às expectativas depositadas  na relação através das idealizações. Assim, surgem os primeiros conflitos. Um culpa o outro por sua infelicidade. Surgem as mágoas e a comunicação começa a ser interrompida.

Se pensarmos que o casal é composto de três partes: dois indivíduos e uma relação, cada uma das partes necessita ser observada. No contexto do casal, inconscientemente, cada um ajuda o outro em suas atitudes. As influências são recíprocas.

Ao resolver viver junto, o casal se compromete numa história comum que implica  na tomada de decisões conjuntas, formando-se  uma rede de interdependências complexas. Criar uma história comum significa lidar com diferenças. Cada um tem suas próprias experiências que moldaram seu modo de ser, pensar e agir. Além do que, de acordo com Framo “ os conflitos interiorizados, originados das relações familiares, do passado, são revividos no presente através das relações conjugais.”

A relação de casal é um processo de construção contínua, isto significa mudanças nas atitudes e nas regras para se adequar às diversas necessidades de cada etapa.  Estas, algumas vezes, são difíceis de serem apreendidas e realizadas.  Nos momentos de transição, quando se instala a paralisação, acaba sendo detonada uma crise.

Normalmente, não se recorre à terapia até que os problemas cheguem ao clímax. Entretanto, a crise se percebida e avaliada no momento oportuno, pode possibilitar uma nova vitalidade e a redefinição do contrato do casal.

Norma

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Compartilhando palavras: Delicadeza é tudo, numa relação a dois…

Rubens Alves

Tênis e Frescobol
por Rubem Alves

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“Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os relacionamentos são de dois tipos: há os do tipo ‘tênis’ e há os do tipo ‘frescobol’. Os relacionamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa. Explico: para começar, uma afirmação de Nietzche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: ‘Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: ‘Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até sua velhice?

Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de ‘conversar.’ Scherazade sabia disso. Sabia que os relacionamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, e terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente.

Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: ‘Eu te amo…’.Barthes advertia: ‘Passada a primeira confissão, ‘eu te amo’ não quer dizer mais nada.’

É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: ‘Erótica é a alma’.

O tênis é um jogo feroz.. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola.

Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir sua cortada – palavra muito sugestiva – que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.

O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra, pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é jogar pra sempre… E, o que errou pede desculpas, e o que provocou o erro se sente culpado.

Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos… A bola: são nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho prá lá, sonho prá cá…

Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão… O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde. Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração”.

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