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Perdas – Manuela

 

Hoje, finalizamos esta Série  com a participação da querida amiga portuguesa, Manu, do blog Light.  Ela nos oferta  um belo texto, no qual  a despedida é a maior tônica.

 

 ”O amor vai muito além da pessoa física do ser amado. Ele encontra o seu significado no ser espiritual, no seu interior” Victor Frankl, inFroma Walsh

 

perdas selo

 

A PERDA…Será que alguma vez voltarei a encontrar-te naquela floresta encantada que me constrói os sonhos? Sinto-me triste…sinto a tua ausência…tu entrastes nos mais belos sonhos, nas mais intensas imagens, nos sentimentos mais puros e completos.

As flores que brilhavam na tua presença, a chuva miudinha e leve que nos molhava lentamente e nos deixava melancólicos e os raios brilhantes e suaves que nos acariciavam, penetrando por entre as folhas verdes das árvores, enviados pelo sol para nos iluminarem…

Toda a Natureza, que os nossos sonhos construíram para nós, está triste e pálida. Quero voltar a ver-te…

A última vez que estavas no meu jardim encantado senti-te distante. Estavas a boiar no lago dos nenúfares. Quando sentiste a minha presença moveste-te e apareceste ao meu lado, com o teu sorriso húmido. Sentia a tua pureza a dissolver-se lentamente e a entrar na minha alma sob a forma de paz.

Há imagens fixas na minha mente, um céu azul com nuvens brancas que se movem languidamente num rodopio sensual, o mar azul por baixo, imenso e assustadoramente infinito. O sol a brilhar como uma bola de fogo pronta a incendiar a minha alma.

Disseste adeus à medida que desaparecias, deixando um rasto de luz que parecia não ter fim…

Uma lágrima de dor percorreu-me a face lentamente e vários sentimentos me percorreram por dentro. Os teus lábios murmuraram: “Adeus.”

Começou a chover suavemente. As folhas das árvores ficaram acastanhadas e cobriram a relva verde.

À medida que nos meus olhos a chuva se misturava com as lágrimas disse baixinho: “Adeus”… Tu foste-te embora e eu fiquei no meu pequeno mundo sem ti, mas tão dentro da minha alma…Estarás sempre no meu Universo de sonho…

A vida é complexa, mas bela, porque nos dá os instrumentos para superarmos tudo, quando pensamos que nem sempre somos capazes. Mas temos que ter a coragem de preservar… E de repente não se olha para trás ou para os lados, para o passado ou para o futuro, apenas se  mergulha para o coração da onda, para aquele centro que parece   perfeito e onde entretanto o caos reina. A própria vida é uma essência desse caos. Qualquer coisa que nos envolve, nos aperta, às vezes nos dá vontade de gritar, outras de sorrir e sempre vontade de chorar, seja de alegria ou de tristeza…

Agora é tempo de chorar, digerir e ganhar forças para o caminho que se segue. Não é fácil, mas nada o é. Vão ser precisos, muitos momentos, mas sempre presente que a vida se faz caminhando.

Esta música, que ficou marcada para  mim, na morte recente de uma pessoa de família.

Manuela Freitas

 

 

“A vida se faz caminhando” ,  de encontros e despedidas.

Na perda por morte dos entes amados o luto é  um processo que tem características individualizadas. A despedida da convivência física ocorre através de varias modalidades de rituais conscientes ou inconscientes.

Tivemos treze semanas de encontros intensos de um compartilhar espontâneo dos que aqui compareceram.  Fizemos um círculo onde as diversas nuançes das perdas foram sinalizadas. Relembramos, nos identificamos, acolhemos, lamentamos, resignificamos e hoje nos  despedimos desta temática. Assim fica aqui a proposta de um Ritual de despedida.

Escolha de tudo que ficou desta série o que você deseja abandonar e jogue na fogueira.

 

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Escolha o que ficou de bom e guarde no baú de recordações.

Enfim obrigada querida amiga Manu que fechou com chave de ouro esta Série.

Obrigada a todos que acompanharam  e/ou  participaram como relatores ( Chica, Maria Emilia, Yasmine, Betânia, Ana Karla, Rosélia, Glorinha, Nina, Socorro,Toninho, Denise, Manu)  e/ou  como comentador, contribuindo com o engrandecimento e sucesso desta  jornada.

Sinto-me plena de satisfação pela confiança que me vem sendo depositada e pelos resultados  enriquecedores de aprendizados  e troca de  sentimentos.

Bjs, Norma

 

 

 

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Perdas – Denise

 

Na décima segunda semana desta Série, a amiga Denise do blog Tecendo Idéias compartilha seu relato nos possibilitando ampliar e ao mesmo tempo filigranar nosso olhar.

 

“A vida é uma grande roda, e ela não pára antes de chegar ao seu destino.” Frankl, V.

 

PERDAS

 

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Perdemos pessoas, e esta é a mais expressiva perda que sofremos – deixa marcas, vazios, abismos, e uma dor irremediável. Pela morte somos forçados a aceitar a ausência de quem amamos, considerando que a maioria de nós não saiba lidar bem com esta partida. Quando as pessoas se vão de nossas vidas, ou nós saímos das suas, vivemos o período de luto pela perda de tudo que a pessoa representa, ou representou. Ela pode ser, ou ter sido, nosso sonho mais perfeito, pode representar o significado mais absoluto da expressão felicidade. Talvez sejamos nós seu mundo mais bonito, e que, por inúmeras razões, perdeu esse valor, deixando de fazer sentido – tanto que nos deixam partir. Nos dois casos, a perda é dolorosa, e atinge as defesas que possuímos, nos cobram um preço alto e custamos a nos recompor.

No entanto, as perdas são mais presentes na nossa vida do que percebemos, enquanto vivemos o cotidiano. Perdemo-nos dos nossos sonhos, no caminho, de nós mesmos.

Perdemos a fé, a viagem, o horário. Perdemos a paciência em momentos cruciais. E perdemos a direção, o propósito, o encanto. Perdemos a ousadia nas circunstâncias em que a capacidade de ousar pode fazer a fundamental diferença.

Perdemos o lugar na fila, papéis importantes, o interesse. Oportunidades são perdidas, assim como o avião, as ideias, o bom humor. Perdemos a hora, a consulta, o amigo. Perdemos a noção, a vergonha, a postura.  Perdemos o jogo, o emprego, a competição. A beleza, o espaço, a segurança. Perdemos a razão, a malícia, a vaidade. O sorteio, a festa. Perdemos a certeza. Caem os dentes, o lucro, a delicadeza. Perdemos a visão, o voto, a sanidade, a educação. Perdemos a inocência, a fala, o bonde. Perdemos a alegria, o ânimo, a constância, a determinação. Perdemos peso, bens materiais, a auto-estima.

Perdemos a melodia, o momento, o equilíbrio, a fome, o sono. Perdemos a capacidade de nos surpreender, e aos outros. Perdemos a habilidade em tratar de nossas questões e resolver os conflitos. Perdemos o suspiro de prazer, ganhamos a angústia para cuidar. Perdemos o colo, ganhamos o mundo. Perdemos o gol feito, a voz, o medo. Perdemos a esperança, o desconto que não pedimos. Perdemos as lembranças, a agilidade, a memória. Perdemos o respeito, o senso crítico, a amabilidade. Perdemos boa parte do dia dedicando atenção desnecessária a assuntos desimportantes. Perdemos a lucidez, a timidez, o desejo, a juventude. A graça, o sentido, a espontaneidade.

Perdemos chances únicas, valores antigos e tempo. Perdemos tempo entristecendo por tão pouco, considerando opiniões e pessoas que não somam, incentivando quem não quer nenhum tipo de ajuda – e deixa isso claro.  Perdemos tempo acorrentados a um passado feliz, ignorando o futuro gestado num descuidando presente. E quanto tempo perdemos em lamentações, justificativas, porquês, medos, anseios, procuras vãs de coisas de pequena importância e valia! Talvez devêssemos gastar mais desse tempo repensando-nos, (re)avaliando sentimentos, comportamentos, buscando e encontrando  soluções, novas formas de combater as dificuldades, resolver algumas questões, conhecer um pouco mais desse ser que construímos, e que perde sim, para ganhar experiência, força, recursos e evoluir.

Perdemos a saúde, por fim a vida. Mas, antes, corremos o risco de perder a paz, enquanto pranteamos as perdas grandes, desprezando as pequenas desistências diárias que fazemos em direção à morte… de tudo que já foi importante, da essência de tudo que nos faz sorrir e olhar a vida com os olhos curiosos de uma criança, daquilo que arrepia os sentidos, faz pulsar o coração, a vida valer a pena!

Denise Araujo

 

No compasso da  vida atravessamos etapas  naturais que são transpostas através de mudanças que significam abandonar para crescer.

No passo a passo da vida, deparamo-nos com etapas acidentais que com muita frequência nos tiram “o chão”. Entre quedas e recomeços seguimos em frente.

Viver é como mergulhar no  vai  e vem  das ondas dos acontecimentos, navegar entre alegrias e tristezas. Viver  é ter perdas imensuráveis e ganhos de grande valia.  Nossa impotência diante da morte nos sinaliza a importância do aqui e agora. Nos relatos das onze semanas  temos penetrado nas várias nuançes das perdas, acolhido as dores e compartilhado a oportunidade de interagir.

Quem sabe, como diz o poeta  “o segredo da imortalidade é viver uma vida que vale a pena ser lembrada.”

Obrigada Denise pela sua participação que sumariza as diversas perdas aqui compartilhadas  no decorrer das diversas semanas.

Norma

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Perdas – Toninho

 

 Após uma breve interrupção, retornamos a Série Perdas com o relato  do querido amigo e poeta Toninho do blog  Canto do Toninho.

 

A mente e os sentidos interagem expressando sua arte magnífica na tela do tempo” Tarthang Tulku

Sentimento de Perdas e o tempo.

 

cristo redentor

  

Por muitas vezes tentei entender o fim das relações amorosas. E assim alimentava a certeza que a causa estava no processo desgastante do tempo. Uma corrente cria e afirmava ser uma crise dos Sete Anos. Onde as pessoas estariam expostas, sendo preciso muita sorte e cumplicidade aliada à cooperação, para sobreviverem a esta fase da vida amorosa.

Mas como poderia ser o tempo o grande vilão e responsável?
Como? Se sempre nos pregaram como máxima, que é o próprio tempo que nos amadurecem nos tornando mais experientes?

É este mesmo tempo, que nos faz aprender e a repensar.

Sempre cri na expressão de dar tempo ao tempo para amenizar minhas mazelas e ou minhas aflições. O mesmo sempre atendeu minhas suplicas nos momentos de angústia concedendo-me as realizações dos desejos.

Foi com ele, o tempo, que aprendi a aceitar o sofrimento pelas mortes, as perdas que me cercavam num verdadeiro processo vendaval de eliminação das pessoas que mais amava e queria juntas de mim, em meus momentos de alegrias e tristezas. Elas eram retiradas como frutas amadurecidas de uma arvore frutífera e assim pensando passei a entender, que frutos maduros também apodrecem quando não colhidos. Também aprendi a assimilar a morte como um fruto que não mais pode ficar na minha arvore e a dor da perda tornou-se aceitável embora maltratasse pela nossa mania de achar que podemos ter para sempre ao nosso lado as melhores frutas sobre as quais já não temos mais propriedade.

Mas a pior perda mesmo em forma de morte é ter que enfrentar a estúpida e inaceitável inversão da partida, assim como dessas mães que enterram seus filhos em plena juventude, no ápice de seus sonhos dourados contrariando nossa lógica de nunca imaginar esta inversão. Assisti esta dor ao ver meus pais colocando sob a terra uma filha de cinco anos vitima de acidente domestico com fogo e mais tarde um filho de 33 anos vitima de infecção hospitalar. É muito triste e doído ver aquele olhar sobre o caixão como a querer a substituição com a própria vida, é a imagem mais triste que ficou gravada em minha mente para definir uma perda na ótica da morte. Então perda é esta dor que não tem como estancar simplesmente entregando no colo do tempo, para que ele magicamente num sopro possa aliviar esta terrível saudade que carregamos para o resto de nossas vidas, como um fardo pesado.

“Do lado esquerdo carrego meus mortos.
Por isso caminho um pouco de banda.” 
(Carlos Drummond de Andrade)

Toninho

 

A perda é inevitável ao ser vivente,  e  o processo de luto é único a cada indivíduo  por ser  um processo interior cujo  tempo é variável.  Dos amores perdidos, aos pais, aos filhos, à juventude, à inocência, aos jovens. Neste nosso caminhar temos dado palavras ao sofrimento,  pois como nos diz um poeta ” a dor da perda não fala, ela murmura dentro do coração dolorido e o faz partir-se.

Obrigada querido amigo Toninho por compartilhar seus pesares e a todos que estão nesta partilha.

Norma Emiliano

 

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Perdas – Socorro

 Nona semana desta Série que segue  no percurso das vivencias compartilhadas.  Nesse encontro o relato é da amiga Socorro do blog seguindominhaspegas.

 

 A morte de crianças e jovens adultos é a frustração de expectativas geracionais.

 

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        Perdas deixam sempre um vazio, uma lacuna em nossas vidas, uma sensação de fracasso, de abandono. E há perdas que são extremamente mais dolorosas que outras, que nos fogem à compreensão, que não se aplicam ao curso natural.

       As piores perdas são as de vida, de pessoas que nos são queridas, mas há também outras significativas, e que nos marcam profundamente, que no momento não convém discorrer sobre elas, são assuntos para outras ocasiões.

        A perda da minha avó materna me marcou muito, foi quase como perder minha própria mãe, pois, ela era um pouco mãe também, e tínhamos um relacionamento estreito, de muito amor, carinho e dedicação, o que significa dizer que até hoje tenho lembranças nítidas dela, e muita saudade.

        No entanto, há uma perda, que se fez mais dolorosa que as outras, e que ainda hoje, apesar de tantos anos, não consigo encarar com naturalidade. Trata-se da morte de um adolescente, de doze anos, filho de uma grande amiga, e que eu considerava sobrinho (do coração).

         Acompanhei sua vida desde a gestação: vi seus primeiros passos, primeiras travessuras, ouvi o balbuciar das primeiras palavras, ri com as brincadeiras… 

          Era um pouco mais velho que meu filho, aproximadamente sete anos, e muitas vezes brincou com meu então bebê, pois, como nossas casas ficavam próximas, todo final de tarde ele aparecia por lá, para brincar “de empurrar o carrinho” do meu filho. 

          O vi crescendo, e tornou-se um adolescente lindo. Era alegre, curioso, e tinha uma meiguice incomum àquela idade. Foi escoteiro, bom aluno, e já andava a se interessar pelas meninas.

           Infelizmente foi acometido por um câncer, um linfoma, que o retirou do nosso meio abruptamente, em apenas dois meses.

           Senti muito. Muito mesmo. Nunca consegui entender. Perguntava-me: por quê? Por que não lhe foi dado a chance de fazer o tratamento e chegar à cura? Era tão jovem, tinha tanto para viver, tanto para aprender…  Penso muito nele. Sinto saudades. Seu sorriso continua vivo na minha memória. Fecho os olhos e o vejo brincando, ou descendo as escadas da sua casa, pulando de dois em dois degraus, como costumava fazer, e acabo sempre concluindo que sua morte foi ilógica.

            Recentemente, outra morte me chocou, tanto por ser de pessoa da família, muito jovem ainda, gente do bem, quanto pela covardia e insensatez que aconteceu.

            Custa-me ainda compreender a morte como um processo natural da vida, pois, morte e vida são muito antagônicas.

             Aceito com mais naturalidade a morte de pessoas idosas, que tiveram a oportunidade de viver, de aprender, de procriar, de saborear, de amar, de descobrir, de transmitir conhecimentos, valores, enfim, mas, quando se trata de pessoas jovens, volto ao meu dilema: Por quê? Qual o sentido? E acho a morte extremamente injusta.

              Mas, por outro lado, penso que se existe na face da Terra alguma coisa justa, é a morte, pois que não escolhe raça, cor, idade, performance, beleza, riqueza, nada. No fundo, tudo é vaidade debaixo do sol, como bem diz o livro do Eclesiástico.

 

Socorro

 

A morte de entes queridos deixam suas marcas transformadas em saudade. No entanto, as mortes prematuras, “fora de hora” em termos cronológicos são mais difíceis de serem aceitas do que as mortes “a tempo”. Esta perda é sentida como uma tragédia.

A falta de justificativas para a perda acarreta um luto prolongado produzindo um sofrimento imenso misturando dor e culpa.

 Em algumas situações, pode paralisar os demais membros familiares em relação aos seus projetos de vida.

 A perda pode se transformar na mais dolorosa de uma família quando há a reversão da ordem natural, principalmente quando se trata de uma criança ou jovem adulto.

Obrigada querida amiga por nos permitir compartilhar de mais uma faceta da perda por morte que atinge a humanidade.

Norma Emiliano

 

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Perdas – Nina

 

Mais um encontro, mais um enfoque sobre Perdas.  A amiga Nina, do blog  entremãeefilha, nos traz  seu relato.

 

Traição de relações vitais, abandono pelas pessoas encarregadas de seus cuidados e aniquilação da segurança familiar  básica.”  (Summit)

 

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                                                                                                              Desenho de Nina

 

A perda da inocência

 

E são tantas as perdas…

Apesar de muitas, cada uma parece ser única, e mesmo que tenhamos muitas perdas pelo caminho, é como se cada uma fosse a primeira vez, de tanto que dói.  O interessante é notar que cada perda parece vir sempre acompanhada de algum ganho. Mas isso só o tempo nos mostra com clareza

 Mas existem perdas que marcam de tal forma que não parece haver um ganho nunca, passe o tempo que passar, você nunca consegue enxergar um lado bom nisso tudo. Vejo a perda da inocência, como uma dessas grandes perdas.

 Quando alguém rouba aquilo que era pra ser, obrigatoriamente, uma linda época. Quando alguém rouba a lembrança que deveria ser boa.  Cara, roubam as lembranças boa que a pessoa deveria ter! Que sacanagem! Não deveria ter perdão pra esse tipo de ladrão, que rouba a inocência e pureza da infância de alguém. Que no lugar de bons momentos,  deixa na cabecinha da vítima a aflição de  ter sido roubada ainda tão pequena… tão pequena. 

 Essa perda da inocência e dos dias alegres é tão terrivelmente angustiante, e volta e meia aqueles momentos do roubo voltam à tona, e a perda fica no lugar, como um deserto vazio e sem fim.

 Sou mãe de três crianças, amo a infância, amo crianças, amo estar entre elas, sou defensora da infância, sou protetora desse universo, na minha maneira de ser e de agir, eu luto pelo seu bem estar, cuido, amo, dou abrigo… eu vejo a criança e essa época que ela vive, como algo extraordinário, é a única época da nossa vida que podemos ser nós mesmos, sem grandes cobranças, sem grandes culpas. Se há bichos papões, mamãe acende a luz e poe ele pra fora, se há medo, há o super papai para proteger, se há escassez, há a abundância num carinho doce de vó,  se há tristeza num dia, há sempre o outro dia pra pular corda, brincar de boneca, fazer bolinho de areia pra tomar com chazinho  de vento e suquinho de brisa, vai sempre ter o outro dia com sol bonito pra empinar a pipa, pra brincar de rolimã e se estiver chovendo, pode-se sempre chamar o sol, desenhando-o com sorriso largo no chão com giz… tudo é tão bonito!

 Mas então, vem o ladrão, sorrateiro e silencioso, estragar isso. Os brinquedos já não serão a boa lembrança que fica, a boneca já não será lembrada… só fica o medo, a raiva e a culpa. A perda.

 A perda de um tempo que deveria ser bonito, bom e saudável.  E essa perda vai perseguir a pessoa vitimada onde quer que ela esteja e é isso que tanto me deixa chateada. Uma perda que parece não ter fim, uma perda sem ganho algum…

É assim que vejo o abuso sexual infantil. Um roubo maldito que marca pra sempre suas vítimas e traz as piores e mais sujas lembranças de uma época que era pra ser completa, mas que fica pela metade, faltando algo, graças à ação de uma gente louca e doente.

 Gente de alma roubada, eles, os ladrões de almas…

Nina Sena
http://entremaeefilha.blogspot.com
http://cronicasdeumameninafeliz.blogspot.com

 

Abuso de crianças é um fenômeno que existe há séculos. Hoje,  é considerado uma questão social; estatísticas demonstram o aumento de casos a cada ano. Ocorre em todos os grupos sociais e em todo a estrutura de classes. 

 Com frequência o agressor é um membro da família ou alguém em quem a criança  confia. O mais devastador é o incesto.  Estudos  demonstram que este tipo de abuso se repete geracionalmente.

Ele vem cercado pelo complô de  silêncio e negação. Envolve medo, culpa e vergonha. Causa um profundo abandono e traição, porque nega à criança amor e carinho. Interfere na formação de uma personalidade saudável dificultando o desenvolvimento psicológico, a autoestima e  as habilidades relacionais positivas com a família de origem, nuclear e amigos. 

A vítima chega à vida adulta sem os benefícios da infância.  A dor pode ser perpetuada ou aliviada pelo apoio familiar.

 

Obrigada querida Nina por apresentar em seu relato perda tão  devastadora e tão desnecessária.

Norma

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Perdas – Glorinha

Neste encontro semanal refletindo sobre as Perdas, temos o relato da amiga Glorinha do blog Cafecombolo.  Juntos caminharemos por mais  uma  história e penetraremos nos mistérios da vida.
Crianças diante da morte reagem segundo vivências do mundo dos adultos.
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Acho que todos nós já passamos por perdas. Algumas mais traumáticas, outras menos, mas todas, extremamente doloridas.

Eu, comecei perdendo entes queridos e tendo que vivenciar a morte muito cedo: aos nove, perdi minha avó, a única que conheci e morava conosco. Era muito querida, mas eu não tinha ainda a noção exata da perda e de que era para sempre.

Aos 12, morreu meu padrinho, que era apaixonado por mim e eu por ele, morreu de um infarto fulminante. Aos 15, perdi meu pai com uma doença coronária que se arrastava há 3 anos. Mas fui afastada de casa, e, embora ele tenha morrido em casa, minha mãe me mandou para a casa de uns parentes e nem no enterro eu fui.

Com isso, minha relação com a morte era muito estranha, como se, de repente aquelas pessoas tivessem sumido da minha vida como por encanto. Não vivenciei as mortes dessas pessoas queridas, pois não os vi mortos ou dentro do caixão. Minha mãe dizia, para me proteger, claro, que era melhor que eu não fosse ao enterro e me preservava de vê-los mortos para que eu os guardasse na lembrança, ainda vivos. Isso não me deixou interiorizar ou amadurecer a morte em mim.

Só fui pela primeira vez a um enterro já casada e com meus filhos grandes. Tinha pavor de ver alguém morto, ver um caixão ou presenciar a morte. Fiquei imatura para sempre com relação a isso.

Hoje entendo a morte como uma coisa natural, pela qual todos teremos que passar. E, ao me tornar atéia, o medo que eu tinha ao pensar em morrer, deu lugar a uma calma, uma aceitação total, de que isso faz parte da natureza dos seres vivos: viver e morrer. E que não há como escapar dessa inexorabilidade.

Amadureci as vivências das perdas um pouco tarde, mas hoje aceito com um olhar sem medo o destino que todos teremos um dia.
Claro que não gosto de pensar  em morte e nem sou insensível a ela, pelo contrário. Mas penso que passei a aceitá-la como algo de que não há fuga possível.

Criei como que uma casca para minha auto preservação. E creio, que lá no fundo todas essas perdas prematuras me marcaram muito mais do que imagino….

Glorinha Leão

Em nossa sociedade,  morte constitui, ainda, um tabu. É frequente as pessoas evitarem falar sobre a morte e o morrer.

A percepção e compreensão da morte se diferenciam a cada idade e os recursos infantis sofrem influência de vários fatores, entre eles, a percepção e as crenças religiosas de seus pais, bem  como a forma com as informações são repassadas.

Por outro lado, cada criança possui seu próprio ritmo, mas a realidade não deve ser escondida.  Excluir as crianças da experiência de perda gera fantasias e pode bloquear o processo de luto. O primeiro passo para a elaboração do luto é a aceitação que a morte se deu.

Com a passagem do tempo a criança tem mais recursos mentais e emocionais para compreender morte como parte da vida. É fundamental que os educadores ajudem,  oferecendo meios para que as crianças possam construir seus recursos internos para enfrentar as dificuldades da vida  e desenvolver a capacidade para lidar com suas emoções e com as dos outros.

Obrigada querida Glorinha por compartilhar suas dores, inquietações e percepções  sobre a perdas pela morte dos seus entes queridos.

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Esperança

 

 Como perder sem se perder?

 

Sabemos que a passagem dos anos é devastadora. Perdemos  muitas coisas desde entes queridos até o  nosso corpo. Contudo.  a vida segue entre dias e noites. O sol traz a claridade e nos damos conta de que o belo não se perdeu e que há com que nos encantarmos. 

Lya  Luftem seu livro Perdas e Ganhos diz-nos que  para “viver qualquer fase com alegria, viver com elegãncia e vitalidade, é preciso acreditar que vale a pena. Neste sentido, acrescento um poema que faz parte desse livro para ilustrar mais a resposta a pergunta aqui proposta.

Foram-se os amores que tive
ou me tiveram:  Partiram
num cortejo silencioso e iluminado.
A solidão me ensina
a não acreditar na morte
nem demais na vida: cultivo
alegrias num jardim
onde estamos eu, os sonhos idos,
os velhos amores e os seus segredos,
E a esperança – que rebrilha
            como pedrinhas de cor entre as raízes.
              

Canção da mirada secreta
 
Lya Luft

Norma

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Perdas – Rosélia

 

Continuando a Série Perdas,  a querida amiga Rosélia do blog Espiritual-poesia compartilha o seu relato.

 

A morte deixa um legado, quer ele seja de fortalecimento ou de trauma que distorce relacionamentos dos sobreviventes.
Monica  MCglodrick

 

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                                   Imagem enviada por Rosélia                                                

 

Nasci preparada para viver… nunca me preveniram para morrer… para perder…Fui educada para vencer e “derrotar” ( a começar pelos concursos na juventude).

Agora que cresci, compreendo e aceito a morte, claro!!! Quanto à perda, isso aí é outra história…

A minha primeira experiência de PERDA foi aos dezesseis anos… uma criança ainda… foi da minha vó materna… Lembro-me de que minha mãe me disse : “por mais uns poucos meses e ela lhe via formada” (em professora)… Eu chorava muito e ninguém me compreendia, tive até uma tia que se enraiveceu… me “puxou as orelhas”… disse que eu já era bem grandinha… coisas do gênero… Comportamentos, aparentemente insensíveis, das duas…

A vovó Celina gostava muito  de mim e eu sentia o seu amor. Na Missa de  sétimo dia, fomos todos de preto (os da minha casa)… e a mesma tia (nora da vó) contestou: “Não se usa mais preto total no luto” (há mais de 40 anos atrás)…

Comecei a perceber a controvérsia de uma perda… e a reação diante da morte…
Hoje faço bem a distinção das duas… Nem toda morte gera perda… cada um reage distintamente…

Eu sou muito emotiva por temperamento e, ao mesmo tempo, como Ministra da Esperança ( a pessoa que pode dirigir as Exéquias na ausência de um sacerdote) tenho uma tendência a incutir esperança nos corações…
Controvérsia???
Não, é a Mão de Deus operando em mim…

Fui perdendo priminha com 3 meses de vida (filha de primo), sobrinha com 2 meses… lamentável… Perdi primo… tios… minha reação foi se “comportando” dentro de mim… diante das mortes e das PERDAS…
O sentido da morte foi sendo assimilado pelo meu ser…

Aí chegou a “prova dos nove” de todo o aprendizado em termos de morte e perda juntos. Meu pai foi se desfalecendo aos poucos… e eu estava lá com ele… lado a lado… tendo reações com a sua perda em etapas (teve Mal de Alzeimer)… durante os seus úitimos meses tive dois desmaios… bem fisicamente estava, com uma dieta até saudável… não comprendia porque seres humanos podiam desmoronarem-se ao ver a chegada da partida desse mundo para outro e da somatização minha quanto à perda em si mesma…

Ele morreu em meus braços… eu vi o sangue descendo pelo seu rosto e os olhos se fechando… me despedi dele em prantos e dizendo-lhe o que não podia calar: “Obrigado por tudo, meu pai, vai com Deus!!!”

Algo ficou diferente em mim, desde aquele dia… Me vejo em lágrimas, sufocada muitas vezes… sem chão… sem ninguém. Fiquei órfã e me sinto desprovida do maior amor que  tive na terra…Às vezes choro… não sou de ferro… sem mais nem menos… até mesmo na rua… caminhando… de saudade… de dor… de lembrança… A DOR DA PERDA…

Vocês irão pensar: será que minha vida foi fácil e uma morte lhe arrasa tanto???
Não, claro que não!!!
Tive perda durante a vida toda… sentimento triste esse… confundido com amor próprio… com orgulho ferido…
Perder marido???
Dói sim, claro!!!
Mas foi um misto de sentimentos descritos acima… nunca uma perda tão lastimável quanto a do meu pai e começado o processo de preparação na de minha avó materna… Foi como um ciclo, hoje faço essa leitura…
Foi, sem sombra de dúvida, a minha maior PERDA a do meu pai amado…

Não se perde algo pequeno com tanto sentimento quanto a perda de alguém grande demais… que representa muito e um pouco mais…
Pude identificar que nem toda morte implica em perda… mas uma PERDA é algo incomparável… até indefínível…
Deixa uma marca enorme em nosso coração… uma cicatriz irreparável…
Só Deus sabe!!!
E Ele é que me ajuda a administrar melhor as minhas perdas diárias… as menores ou não…

E a perda de mim???
Essa eu convivo bem… mesmo com vestígios de tristeza… de amargura… isso é corrigivel e trabalhável… é processo… lento e gradual… ascese… Espiritualidade…estou empenhada nisso… e com a ajuda imprescindível da Graça, eu chego lá…

Mas a PERDA irreparável, ela faz parte do nosso crescimento também… mas é inafiançável…

Rosélia

Não há como negar as perdas.  Elas fazem parte da possibilidade do crescimento do ser humano, sendo essas  classificadas como perdas necessárias. Temos acompanhado nesta Série  o que  os participantes, relatores ou comentaristas, consideram suas maiores perdas.

As experiências são inesgotáveis e a forma de cada um lidar  com suas perdas, seus sofrimentos  é muito pessoal.  O  repensar e compartilhar nos possibilita lançarmos mão do baú de nossas recordações.

As memórias são bens preciosos e como Ipicteto (Séc I DC), em A Arte do viver nos diz ” Você é uma peça essencial do quebra cabeça da humanidade”. Assim, vamos criando um mosaico que  assinala nosso pertencimento a este momento da história.  Ganhamos a VIDA e  perdemos para crescer;  perdemos por ser a morte  parte da vida.

“Você   mesmo é a continuação corporificada daqueles que não viveram no seu tempo e outros serão (e são) sua imortalidade na terra…” Jorge Luiz Borges em  O Legado das Perdas.

Obrigada querida Rosélia por abrir sua alma colocando em seu relatos os sentimentos e atitudes em relação as suas perdas.

Norma Emiliano

 

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