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BCFV / Morte

Esta é a minha participação na BCFV, em sua última etapa, a morte com a coordenação da amigas, Rute, Gina e Rosélia.

A morte é o fim, ou apenas o início da vida?


Indagação sobre o significado da morte em relação à existência  perpassa civilizações e é sempre atual. Nenhuma resposta satisfaz. É difícil para o homem suportar a angústia provocada pela consciência da morte, falar sobre ela ou mesmo refletir.  Alguns procuram encará-la, como o compositor Raul Seixas que compôs o Canto para minha morte. Leia, selecionei alguns trechos   que trazem muitas das suas questões  e que penso são comuns a muitos de nós, seres humanos.

(…) “Com que rosto ela virá?

Será que ela vai deixar eu acabar o que eu tenho que fazer?

Ou será que ela vai me pegar no meio do copo de uísque?

Na música que eu deixei para compor amanhã?

Será que ela vai esperar eu apagar o cigarro no cinzeiro?

Virá antes de eu encontrar a mulher, a mulher que me foi destinada,
E que está em algum lugar me esperando
Embora eu ainda não a conheça?

Qual será a forma da minha morte?” …

No entanto, há pensadores como Kovács (1992)  que diz:  ”o medo da morte tem um lado vital [...], é a expressão do instinto da autoconservação, uma forma de proteção à vida de superar os instintos destrutivos“.

O  filósofo Michel  Serres (2003), afirma que “tornamo-nos os homens que somos porque, indubitavelmente, aprendemos que iríamos morrer, mesmo que jamais soubéssemos como”. E com este pensamento indaga : ” Sem a certeza da morte será que teríamos algum dia pintado as cavernas, descoberto o fogo, modulado os ornamentos da linguagem, dançado para os deuses, observado as estrelas, demonstrado os teoremas da geometria, amado nossoscompanheiros, educado as crianças, enfim, vivido em sociedade?”

Portanto,  podemos assim concluir que a morte constrói a vida.

No entanto, o despertar da consciência da ausência  cotidiana,  quando se perde um ente muito querido e próximo, é dificil de ser superado.

Norma

Referência bibliográfica

Kovács MJ. Morte e desenvolvimento humano. 4a ed. São Paulo: Casa do psicólogo; 1992.

SERRES, Michel. Hominescências: o começo de uma outra humanidade. Trad. Edgard de Assis Carvalho, Mariza Perassi Bosco. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.

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Corações perdidos

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Google Imagem

“A dor é suportável quando conseguimos acreditar que ela terá um fim e não quando fingimos que ela não existe”. Allá Bozarth-Campbell

A morte de um filho, principalmente jovem, bem como a da mãe quando se é criança, provoca sentimentos ambivalentes, nos quais a culpa, a raiva, o desalento constroem muros, isolando as pessoas até de si mesmo.

O filme Corações Perdidos cruza as vidas de um casal (Lois e Doug), que perdera sua filha adolescente,  e de  uma jovem órfã (Allison)  que perdera a mãe desde os cinco anos.

O silêncio impera entre o casal que não fala da morte e de nada que os incomode; na casa, o quarto da filha mantém-se intacto sinalizando a negação da morte.  Allison vaga solitária pela vida sem amor a si própria, trabalhando como strip, sujeitando-se à prostituição.

Na trama, Lois, após a morte da filha, fica deprimida, não consegue sair de casa e sua relação com Doug é distante e conturbada. Ele vive uma relação extraconjugal, e a morte abrupta da amante o deixa sem direção.  Porém, quando viaja à negócios, seu encontro com Allison lhe desperta os cuidados paternos e ele abandona a esposa.

Lois tenta superar seu pânico e vai ao encontro do marido e acaba também se envolvendo com as questões de Alison. No desenrolar do roteiro, Allison fará com que o casal lembre-se do real motivo que os uniu e sua relação com eles transforma suas vidas.

O luto é inevitável; superar a dor da perda é um processo cujo tempo é subjetivo, pois cada pessoa tem um “tempo emocional”. No filme os personagens encontram-se aprisionados à negação, “dormência emocional”.  O cruzamento das histórias  (casal e jovem prostituta)  dispara o movimento para cura através da quebra do silêncio, da recuperação da autoestima e da mudança de hábitos.

Norma

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Perdas – Glorinha

Neste encontro semanal refletindo sobre as Perdas, temos o relato da amiga Glorinha do blog Cafecombolo.  Juntos caminharemos por mais  uma  história e penetraremos nos mistérios da vida.
Crianças diante da morte reagem segundo vivências do mundo dos adultos.
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Acho que todos nós já passamos por perdas. Algumas mais traumáticas, outras menos, mas todas, extremamente doloridas.

Eu, comecei perdendo entes queridos e tendo que vivenciar a morte muito cedo: aos nove, perdi minha avó, a única que conheci e morava conosco. Era muito querida, mas eu não tinha ainda a noção exata da perda e de que era para sempre.

Aos 12, morreu meu padrinho, que era apaixonado por mim e eu por ele, morreu de um infarto fulminante. Aos 15, perdi meu pai com uma doença coronária que se arrastava há 3 anos. Mas fui afastada de casa, e, embora ele tenha morrido em casa, minha mãe me mandou para a casa de uns parentes e nem no enterro eu fui.

Com isso, minha relação com a morte era muito estranha, como se, de repente aquelas pessoas tivessem sumido da minha vida como por encanto. Não vivenciei as mortes dessas pessoas queridas, pois não os vi mortos ou dentro do caixão. Minha mãe dizia, para me proteger, claro, que era melhor que eu não fosse ao enterro e me preservava de vê-los mortos para que eu os guardasse na lembrança, ainda vivos. Isso não me deixou interiorizar ou amadurecer a morte em mim.

Só fui pela primeira vez a um enterro já casada e com meus filhos grandes. Tinha pavor de ver alguém morto, ver um caixão ou presenciar a morte. Fiquei imatura para sempre com relação a isso.

Hoje entendo a morte como uma coisa natural, pela qual todos teremos que passar. E, ao me tornar atéia, o medo que eu tinha ao pensar em morrer, deu lugar a uma calma, uma aceitação total, de que isso faz parte da natureza dos seres vivos: viver e morrer. E que não há como escapar dessa inexorabilidade.

Amadureci as vivências das perdas um pouco tarde, mas hoje aceito com um olhar sem medo o destino que todos teremos um dia.
Claro que não gosto de pensar  em morte e nem sou insensível a ela, pelo contrário. Mas penso que passei a aceitá-la como algo de que não há fuga possível.

Criei como que uma casca para minha auto preservação. E creio, que lá no fundo todas essas perdas prematuras me marcaram muito mais do que imagino….

Glorinha Leão

Em nossa sociedade,  morte constitui, ainda, um tabu. É frequente as pessoas evitarem falar sobre a morte e o morrer.

A percepção e compreensão da morte se diferenciam a cada idade e os recursos infantis sofrem influência de vários fatores, entre eles, a percepção e as crenças religiosas de seus pais, bem  como a forma com as informações são repassadas.

Por outro lado, cada criança possui seu próprio ritmo, mas a realidade não deve ser escondida.  Excluir as crianças da experiência de perda gera fantasias e pode bloquear o processo de luto. O primeiro passo para a elaboração do luto é a aceitação que a morte se deu.

Com a passagem do tempo a criança tem mais recursos mentais e emocionais para compreender morte como parte da vida. É fundamental que os educadores ajudem,  oferecendo meios para que as crianças possam construir seus recursos internos para enfrentar as dificuldades da vida  e desenvolver a capacidade para lidar com suas emoções e com as dos outros.

Obrigada querida Glorinha por compartilhar suas dores, inquietações e percepções  sobre a perdas pela morte dos seus entes queridos.

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Perdas – Betânia

 

Em continuação a esta Série, temos  o relato da amiga Betânia  que é pernambucana e  mora atualmente  em Natal (RN).  Ela não é blogueira, mas  acompanha meu espaço e nos presenteia com seu relato. Betânia é  mãe de um filho de 12 anos, Doutoranda em ciências sociais e Professora do Depto de Gestão Ambiental/Curso de Gestão Ambiental.

 Seu e-mail   betaniatorres@gmail.com ( autorizado).

 

“ É a imagem na mente  que nos une aos tesouros perdidos, mas é a perda que dá forma à imagem.” Colette in Judith Viorst

 

 PERDA: quando a relação espaço-tempo reaviva a presença/ausência do outro

 

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Imagem enviada por ela. 

 

 Havia pensado em começar assim: A gente sempre sofre diversas perdas nas nossas vidas. O tom do texto iria ficar bastante amplo e eu poderia não dar conta do que efetivamente me prontifiquei a relatar  sobre a perda que resolvi desenvolver neste texto (pensei em escrever: gostaria de falar, mas quem gosta de falar sobre perdas?). Mas, o tema me chamou e achei que deveria prestar atenção a esse chamado. O que a perda teria a me dizer e que reflexões esse debate iria tirar do meu baú de memórias. A perda que me veio à memória e sobre a qual sentir vontade de narrar foi à morte do meu pai.

Vou começar pelo começo. Papai nasceu em 18 de agosto de 1911, numa cidade do interior de Pernambuco. Filho mais velho de uma família de dois homens e sete mulheres. Nunca foi a escola. Aprendeu a ler e escrever e a contar com a minha avó. Um aprendizado e tanto, de fazer inveja a muita escola de hoje. Muito cedo, com a morte do meu avô, assumiu a responsabilidade de cuidar da sua família, sendo o filho mais velho.

Também construiu sua própria família. Teve dois casamentos. Viúvo do primeiro e com uma filha de 5 anos, desejava novamente se casar. Foi quando conheceu minha mãe, que na época tinha 15 anos. Entre conhecer, namorar e casar não precisou de muito tempo não, apenas seis meses. O casamento durou 49 anos.

Falando no dia do casamento, foi o dia mais feliz da vida da mamãe, teve almoço na cidade e forró no engenho onde iria morar com papai, que era um pequeno comerciante de engenho de açúcar, denominado na época de “barraqueiro”. O meu avô materno contratou os melhores forrozeiros da redondeza e a festa durou a noite inteira, segundo relatos da minha mãe, hoje com 87 anos.

Desse encontro, tiveram 14 filhos vivos, perderam dois filhos, um com 8 meses; e, o outro aos 12 anos decorrente de apendicite aguda. Senão seríamos uma família de 17 filhos e filhas.

Na trajetória de vida de papai, a responsabilidade, o ascetismo, o rigor com relação aos princípios e valores foi muito rígido. Nenhuma falha dos filhos era ponderada, a punição era imediata. Contrastando com esse rigor, o afeto, o incentivo, as festas. A nossa casa, era uma casa onde sempre aos domingos, aniversários, natal e ano novo, ficava repleta de familiares e dos poucos amigos mais chegados.

Ele não era uma pessoa de vícios, fumava e bebia sem exageros. Ainda assim, cortou esses hábitos para não dar mal exemplo aos filhos. Era também uma pessoa esguia e elegante, sem ser vaidosa ou arrogante, um tanto tenso.

Sempre atento aos seus objetivos de ver os filhos na escola e com gosto pelos estudos e pela leitura, comprava jornais todos os domingos e também adquiria livros e enciclopédias para o acervo da nossa pequena estante que ficava na sala de jantar.

A música também fazia parte da nossa vida. O gosto musical de papai era de qualidade. Gostava de chorinhos, música instrumental e regional. Então, tínhamos uma radiola e um pequeno acervo de vinis, como contribuição cultural para a nossa família.

Em meio ao rigor aos princípios e valores que ele tinha estabelecido e a preocupação com a sociedade, havia também o pai que montava balanço na árvore, que caminhava na mata, que plantava e colhia frutos e verduras para nossa família. E que bem cedinho nos períodos de férias fazia a gente tomar leite direto da vaca.

Com tantos filhos, vieram os netos e netas. O coração duro desse senhor logo amoleceu, dedicava-se amorosamente aos netos, com uma desconhecida paciência.

Papai teve uma vida dura, de muito trabalho e de muitos filhos para educar. Durante certo tempo, nossa família morou na área rural, mas a sua preocupação em contribuir para os estudos dos filhos, fez com que construísse uma casa na cidade, cujo arquiteto foi ele mesmo.

Quando nasci, já estavam todos na cidade, menos papai que continuava trabalhando com o comércio de barracão de engenho e vinha para casa quinzenalmente. Quando ele apontava no começo da rua, tínhamos que correr depressa pra casa, porque ele não podia chegar sem que seus filhos e filhas estivessem todos dentro de casa. Então, na sua ausência tínhamos a rua, na sua presença tínhamos a casa, a igreja, a conversa na mesa, o lanche das três da tarde. Nem sempre eu gostava, era inquieta e gostava de brincar na rua. Na sua ausência também, tínhamos os olhos atentos dos irmãos mais velhos.

Contudo, quando ele estava na cidade, sempre contava comigo para fazer as compras que deveria levar para o barracão e me mandava à rua com uma lista de itens para comprar. Eu adorava, pois sempre ganhava dinheiro e também um pouco de liberdade, além dos elogios pelo meu desempenho e habilidade.

“Fazer faculdade”, “estudar”, eram palavras que saiam constantemente da boca do meu pai em direção aos seus filhos. Trabalhou com afinco para dar conta de roupa, casa, comida e escola para os filhos. Evidentemente que teve na sua caminhada a companhia da minha mãe, que fazia sua parte no ambiente doméstico, cuidando da reprodução social da nossa família. Minha mãe, com um jeito silencioso e meigo, era seu braço forte na vida.

Depois, de um longo período morando no interior de Pernambuco, agora com quase todos os filhos casados, restavam quatro filhas solteiras; também, já havia um movimento no sentido da capital. Ele se empenhou para mais essa mudança. Vendemos a nossa casa e fomos morar no Recife-PE. Nesta época, eu já tinha 15 anos. E sendo adolescente, vivia em conflitos e tensões com papai e mamãe. Ele sempre me vigiando, atento.

Na capital, a nossa liberdade foi ampliada, papai vivia no trecho Recife-Água Preta (engenho), com períodos mais longos de visita, até se aposentar. Ganhei as ruas do Recife. A cada vinda de papai havia sempre um conflito, ele sempre desconfiado das filhas virgens, qualquer correspondência que chegava pelos correios ele queria abrir mesmo que fosse endereçada no nome das filhas. Isso era mais confusão. Tiveram muitas.

Chegando ao momento difícil. Quando papai morreu no dia 23 de setembro de 1989, ele tinha 78 anos e eu 25 anos de idade. Hoje, quando me recordo,  sinto que foi uma perda esquisita para mim. Havia alguns dias que ele estava doentinho, com febre, diarréias, foi ao médico, ficou uns dias na casa de minha irmã, mas resolveu voltar para nosso apartamento, fincou o pé e aí já se pode imaginar.

Nesse período, eu vivia muito ausente de casa e dos encontros familiares, estava sempre com minha turma, descobrindo coisas e situações novas. Mas sempre telefonava para mamãe para avisá-la dos meus passos e saber como estavam as coisas na nossa família.

Então, dia 22 de setembro de 1989, telefonei e mamãe me pediu para ir dormir em casa, pois papai não estava muito bem. Fui. Chegando em casa, depois da faculdade, por volta das 23:30 horas, fui falar com papai e saber como ele se sentia e ele não estava bem e me falou: “seu pai não está nada bem minha filha, acho que não vivo mais não”. Estava bastante febril, com um semblante de tristeza. Na verdade, tirar um sorriso de papai não era muito fácil, sempre muito sério e preocupado. Pedi a benção, dei um beijo  e fui dormir um tanto preocupada.

Antes que o dia amanhecesse completamente, mamãe acorda a gente (eu e minhas três irmãs) chorando dizendo que papai estava desmaiado na cama. Na verdade, ele tentou levantar-se e caiu deitado na cama. Eu e Sônia, uma das minhas irmãs, fomos buscar ajuda para levá-lo ao hospital. Um vizinho, atencioso, nos ajudou e junto com os filhos dele carregou papai até o carro. Papai era um homem alto e forte, só homens quem poderia carregá-lo. No carro, eu, minha irmã e papai no nosso colo, quentinho ainda, mas completamente desfalecido, na frente mamãe com o nosso vizinho. Chegando ao hospital, nada havia de ser feito, papai havia tido um infarto fulminante e estava morto.

Fomos eu e minha irmã providenciar o enterro e o velório, o que foi feito e alguém fez o registro em forma de um cartão para lembrá-lo. Quando tudo estava organizado, liguei para o meu namorado e narrei o acontecido, ele se ofereceu para ficar junto comigo por algumas horas antes do enterro e fomos a um restaurante próximo conversar sobre o acontecido. Mas eu não chorava, sentia a perda, sabia quem eu estava perdendo, mas não chorava. E achava isso muito esquisito, como não chorar com a morte do meu pai? Doía, mas as lágrimas não saíram naqueles dias. Findas as formalidades, voltamos todos para casa, na maior tristeza, com o peso forte da ausência, agora irremediável.

Os dias seguintes para mim foram dias de memória. Fazia meus trajetos pela cidade e a minha memória só acenava que agora ele não estava mais entre nós, que eu não iria mais vê-lo e esse pensamento me dava um nó na garganta. Eu era a filha caçula de 15 filhos. Quando  pequena nem podia cortar meus cabelos loiros, sem a autorização dele. Claro que desobedeci, o que gerou um conflito entre pai e filha, depois sanado. Mas  eu sempre me portava com rebeldia diante dos dogmas paterno. Ainda assim, ele era meu fã e vivia na torcida. Cada conquista minha, estava ele ali, registrando, guardando, apoiando, me empurrando pra frente. E agora, sem o meu torcedor mais forte, como iria me arranjar?

No ano que papai morreu, 1989, eu iria concluir o curso de licenciatura em ciências sociais numa faculdade particular. Quando passei no vestibular e meu nome saiu no jornal, claro que ele recortou e guardou para si a matéria, que agora está comigo. Ele já havia dito desde sempre que me daria o anel de formatura, mas eu mesma não queria o anel e falei que queria um aparelho de som para ouvir música. Meses antes de morrer, me presenteou com o que eu queria. Era tão forte a vontade dele para que um filho entrasse na faculdade que ecoou dentro de mim, a mais trabalhosa das filhas e a única a ter o título de universitária. Ele nem viu esse momento, porque morreu meses antes, mas a presença dele na minha caminhada é muito viva e a ausência sentida.

Betânia Torres.

A capacidade da mente humana de absorver a perda é gradual. O chogue inicial a imobiliza,  favorecendo que o tempo nos ajude a compreender a sua extensão.

Viorst  observa com muita propriedade que procuramos nossos mortos e que esta procura  pode se manifestar de várias formas como por exemplo visitar lugares, nos sonhos, entre outras. Enfim, seguir adiante apesar das perdas é desenvolver estratégias para  enfrentá-las. Para alguns  pode ser  uma  forma  de estimulo para o desenvolvimento pessoal.

Querida Betânia grata por abrir seu coração retomando partes de sua história tão significativas. Caminhe na certeza de que a torcida não se foi,  pois se concretiza dentro do seu própria SER.

Norma

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Morrer é Preciso

 

A partir das  palavras de Fernando Pessoa no texto Morrer é preciso,   compartilhe quando para você  a morte foi extremamente necessária para que alcançasse uma mudança fundamental em sua vida?

 

“Nós estamos acostumados a ligar a palavra morte apenas à ausência de vida e isso é um erro. Existem outros tipos de morte. E precisamos morrer todos os dias. A morte nada mais é do que uma passagem, uma transformação.

Não existe planta sem a morte da semente, não existe embrião sem a morte do óvulo e do esperma, não existe borboleta sem a morte da lagarta, isso é óbvio, a morte nada mais é que o ponto de partida para o início de algo novo, a fronteira entre o passado e o futuro.

Se você quer ser um bom universitário, mate dentro de você o secundarista aéreo que acha que ainda tem muito tempo pela frente. Quer ser um bom profissional? Então mate dentro de você o universitário descomprometido que acha que a vida se resume a estudar só o suficiente para fazer as provas. Quer ter um bom relacionamento? Então mate dentro de você o jovem inseguro, ciumento, crítico, exigente, imaturo, egoísta ou o solteiro solto que pensa que pode fazer planos sozinho, sem ter que dividir espaços, projetos e tempo com mais ninguém. Quer ter boas amizades? Então mate dentro de si a pessoa insatisfeita e descompromissada, que só pensa em si mesmo. Mate a vontade de tentar manipular as pessoas de acordo com a sua conveniência. Respeite seus amigos, colegas de trabalho e vizinhos, enfim todo processo de evolução exige que matemos o nosso “eu” passado, inferior.

E qual o risco de não agirmos assim? O risco está em tentarmos ser duas pessoas ao mesmo tempo, perdendo o nosso foco, comprometendo nossa produtividade, e, por fim prejudicando nosso sucesso. Muitas pessoas não evoluem porque ficam se agarrando ao que eram, não se projetam para o que serão ou desejam ser. Elas querem a nova etapa, sem abrir mão da forma como pensavam ou como agiam.

Acabam se transformando em projetos inacabados, híbridos, adultos infantilizados. Podemos até agir, às vezes, como meninos, de tal forma que mantemos as virtudes de criança, que também são necessárias a nós adultos, como: brincadeiras, sorriso fácil, vitalidade, criatividade, tolerância, etc.

Mas, se quisermos ser adultos, devemos necessariamente matar atitudes infantis, para passarmos a agir como adultos.

Quer ser alguém (líder, profissional, pai ou mãe, cidadão ou cidadã, amigo ou amiga) melhor e evoluído? Então, o que você precisa matar em si, ainda hoje, é o “egoísmo” é o “egocentrismo”, para que nasça o sr que você tanto deseja ser. Pense nisso e morra. Mas, não esqueça de nascer melhor ainda. O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem, por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”

Fernando Pessoa.

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O Prenúncio da morte

 

Somos finitos. Vivemos como se infinito fôssemos

 

Ao longo da existência, uma imagem negra, assustadora povoa a mente do ser humano. No mais profundo do ser, existem a certeza absoluta e a tenebrosa realidade da morte.

 Nascemos e despertamos para a vida. Aos poucos vamos nos dando conta que apenas somos parte da vida; que somos apenas um dos seus diversos representantes.  Independentemente, de estarmos aqui, ela segue seu rumo.

O tema da morte é árido, principalmente para nós ocidentais. O homem por sua natureza racional é o único ser do universo que tem consciência da morte. Todavia, a forma de confrontá-la foi se alterando ao longo do tempo e no espaço da história humana; foram sendo, inclusive, abandonadas as práticas familiares e rituais que ajudavam as pessoas no processo de adaptação à morte. Froma Walsh e Mônica McGoldrick em seu livro Morte na Família, Sobrevivendo às Perdas, observam que “o medo da morte é o nosso terror mais profundo”.  Pensamos a vida e a morte separadamente, quando de fato uma está inserida na outra, pois a vida desperta a morte.

Na atualidade, o materialismo tem favorecido a postura de ignorá-la. Sabemos da importância das lembranças, das influências das nossas experiências e crenças familiares. Mas assistimos hoje, comumente, pais tentarem afastar os filhos dessa realidade, temendo traumas.  A relutância cultural sobre lidar com a morte é confirmada no próprio uso da linguagem como, por exemplo, “foi desta para melhor”.

Procuramos “assisti-la de camarote, como se não fizéssemos parte do desfile. Sofremos com a perda dos entes queridos. Mergulhamos na tristeza. Mas não conseguimos nos imaginar fora deste tão” presente cotidiano “, da corporificação, sem entrarmos no mérito da fé, da vida após morte ou reencarnação”.

A dificuldade de suportar a idéia da morte é tão forte que alguns familiares de doentes terminais vivem o luto com o doente em vida. Entretanto, o indivíduo com doenças crônicas físicas, que podem resultar em morte, experiencia várias perdas, mas, freqüentemente, começa a apreciar aspectos da vida ignorados anteriormente. Por outro lado, pessoas que se recuperam de enfermidades graves dão testemunhos da renovação que realizaram em suas vidas.  Elas demonstram como só se deram conta da sua finitude ao e depararem com o prenúncio da morte. De acordo com Kleinman “se existe uma única dimensão as doenças que nos pode ensinar algo precioso para nossas próprias vidas, esta deve estar relacionada ao modo de confrontar e responder ao fato de que todos, sem exceção, morremos”.  

Muitos fatores contribuem para a visão negativa da finitude, entretanto alguns autores trazem uma visão mais positiva ao enfatizarem a participação do indivíduo na construção da história da humanidade. Assim, ele tem um limite temporal, mas a história continua.  De outra forma a visão oriental concentra-se no momento presente trazendo um método sadio de viver a finitude.  Parafraseando Karel “perdemos muitas jóias de vida porque deixamos de ver seu brilho pelo simples fato de convencer-nos que não vale porque um dia não brilharão mais”.

Norma

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A certeza da morte “alegra” a vida?

 

Retrospectiva-  IV Encontro Fluminense de Terapia Familiar-  Ecos do  IX Congresso

A certeza da morte “alegra” a vida?

Rosane Esquenazi

 

Segundo o filósofo Nietzche, a morte dá ao ser humano o sentido de finitude, de limite, de impermanência do ser e das coisas. O homem sabendo-se diante desse fim, ganha força “vontade de potência”, que afirma a vida com sua sucessão de mudanças. Isso se opõe a busca de certezas concretas, imutáveis, o que seria “vontade de verdade”. Esta busca a permanência, tenta firmar o certo e o errado, as relações de causa e efeito, sem levar, em consideração, o jogo de forças a que cada situação está submetida. Como consequência, nos afastamos da dor do incerto, trocamos o risco pelo conforto o que contribui para a diminuição da vontade de potência que existe em todo ser humano, ocasionando a troca do pensar sobre o viver. O pensar é triste quando trocado pela vida em si. Estamos permamentemente mergulhados num jogo de forças entre a vontade de potência e a vontade de verdade. Entre a permamência e impermanência. Mudanças e homeostase. O trabalho propõe a discutir a morte como força da vida, aplicado dentro da estrutura de funcionamento familiar.

 

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Relação com o tempo

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Em visita a um centro cultural, ao percorrer as diversas galerias de fotos, ressurge – me o impacto da ínfima presença de cada ser nessa esfera terrena. Vêem-se figuras célebres, históricas, seus trajes, paisagens, costumes, enfim, tempos vividos e finitos. Surge-me uma estranha sensação. Mergulho no tempo e no retorno à superfície percebo a dificuldade de respirar; não sei se pela imensuralidade da vida e seu fluxo ininterrupto ou pela certeza de que muitas mudanças virão e que eu, ser desta época, não as alcançarei.

Em curto espaço de tempo surge um turbilhão. O mundo gira numa velocidade tamanha que nós, seres humanos, sentimo-nos atordoados e com sentimento de perdas constantes. Nada é usufruído com intensidade, pessoas cruzam com tanta ligeireza e impessoalidade nossos caminhos que mal conseguimos tocá-las. Sim! Agora me dou conta de que a estranha sensação provém da consciência de tudo virar pó.

Filhos, netos e bisnetos são desdobramentos geracionais, trazem em si marcas das histórias. Vivo, reflito, escrevo e revejo minha trajetória. Não sei se por orgulho ou por desejo de ser infinita, mas anseio deixar legado à humanidade. No entanto,  já dizia Drumonnd “Na noite do sem fim, breve o tempo esqueceu minha incerta medalha, e a meu nome se ri”.

Qual será a vitalidade de um legado?  Das suas múltiplas apropriações, em se ter porta-vozes que possam reinventá-lo ou de instituições que o preserve?
È difícil para nós, seres pensantes e apegados uns aos outros e sensíveis à beleza da vida, nos imaginar fora dela. A vida pós-morte é um mistério. Acredita-se, fala-se, estuda-se sobre ela, contudo nada é comprovado. A reação à morte, principalmente entre os ocidentais, é de grande sofrimento, mesmo para aqueles que possuem fé religiosa. 

O ser humano não tem sido a melhor espécie desse universo, na medida em que vem destruindo o meio ambiente e se autodestruindo. Mas ainda o melhor legado é a própria vida tão bem ressaltada nas palavras de João Cabral de Melo Neto “vê-la desfiar seu fio, que também se chama vida, ver a fábrica que ela mesma teimosamente se fabrica: vê-la brotar em uma nova vida explodida”.

 

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