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Eros e psique- Fernando Pessoa

 

Bom dia,  caro leitor

Final de semana, pausa merecida, mas para este nosso encontro vem Fernando Pessoa  com sua poesia,  ilustrando  a travessia do conhecimento do si próprio, pois  o que procuramos está dentro de nós.

 

  Eros e Psique
deldebbio | 1 de maio de 2009

 
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

Fernando Pessoa

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Uma análise do filme “Tempos Modernos” Por Alexandre Pimentel

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A Prática do Serviço Social na Revolução Industrial

A obra Tempos Modernos (1) de Charles Chaplin (1889-1977) é um mito contemporâneo. Um mito se caracteriza por conter informações cuja interpretação dependerá da profundidade e da dedicação do observador. Analisar esse filme na perspectiva do serviço social é tarefa árdua mas gratificante. Embora estejamos começando o curso, parece-me que a alfabetização para a leitura mítica é indispensável para que, no futuro, como assistentes sociais genuínos, possamos, de forma madura, ler e interpretar a sociedade moderna. Acredito que esta leitura correta – que deve iniciar nos primeiros dias de aula -  seja a mola mestra  que nos possibilitará a auxiliar no processo que visa libertar o cidadão das práticas opressivas que o escravizam e mantém na cadeia do estresse social.

Tempos Modernos, apresentado ao mundo em 1936 pela genialidade de Chaplin, critica o conceito de modernidade industrial calcado na produção e especialização que torturavam a classe operária. É uma peça cinematográfica que apesar de ainda utilizar o cinema mudo quando há dez anos os filmes já praticavam linguagem falada, além da crítica social na formatação simbólica, introduz o cinema como arte que transcende o mero teatro.

O filme de Carlitos retrata um momento industrial de impressionante volume produtivo. As enormes engenhocas automotivas e os complexos maquinários, aparecem como monstros que devoram o personagem. Perturbado pela novidade do trabalho repetitivo, oprimido por não exercer uma atividade criativa, pressionado pelas longas horas compensadas pelos baixíssimos salários do período histórico e por uma proposta de automação que visava provavelmente reduzir o tempo de refeições, ampliando ainda mais a escravidão planejada, Chaplin mergulha num comportamento patológico que o leva a atitudes bizarras.

Parece que esta representação simbólica, com o inequívoco título de tempos modernos, preconiza a loucura, a violência e o caos ecossocial que, de forma sistêmica, hoje chega ao auge. Penso que jamais na história humana experimentamos um momento tão delicado, tanto do ponto de vista humano, quanto econômico, social e filosófico, exatamente (em meu ver) o que o gênio Carlitos tentava alertar.

Temos hoje no mundo complexos industriais mais sofisticadas e metodologias de trabalho operário melhor planejadas. Da mesma forma que as guerras do passado eram feitas com espadas e escudos que hoje foram substituídos por arcenais nucleares, muda somente a aparência do moderno explorador que aprimorou-se em manter dominados seus quadros de trabalhadores e em viciar o consumidor em “necessidades” induzidas.

Apesar de não ser o objetivo central deste trabalho, que visa comentar e situar a prática do serviço social no contexto da revolução industrial sob a ótica do filme Tempos Modernos de Charles Chaplin, não posso deixar de comentar que as indústrias da alimentação, do remédio e outras paralelas como a do tabaco, constituem uma das mais avançadas tecnologias de manter o cidadão “dependoente” e tresloucado no consumo supérfluo.

Retomando, então, o foco de nosso tema, notamos que o serviço social no contexto de Tempos Modernos, meados da revolução industrial, tinha ainda forte influência da filosofia positivista de Augusto Comte (1789-1857) e da visão de Stuar Mill (1848) sintonizadas com uma moral judaico cristã deturpada pelo reducionismo epistêmico, onde a ajuda era considerada obra de caridade baseada numa falsa noção de filantropia (2).

Na verdade ainda não tínhamos neste momento a figura técnica do assistente social conforme hoje conhecemos. O que acontecia e Chaplin se esforçava em denunciar era um movimento de manutenção da miséria, encomendado pelos grandes empresários, onde o assistente social era sarcástica ferramenta de condicionamento de massas. Hoje esse profissional ainda luta para banir o assistencialismo cuja atividade não beneficia comunidades senão presta favores com objetivos escusos.
Talvez seja salutar refletir que a prática industrial, bem como a comercialização não constituem males intrínsecos. O problema dessas práticas está na abordagem não ecológica e não humanitária dos processos, onde o lucro e a mais valia decorrente justificam impactos sociais de grande espectro, contaminando os recursos naturais  e deteriorando a qualidade de vida dos seres vivos.

A pequena fábrica destinada a atender a demanda de comunidades bem próximas, utilizando recursos regionais e tecnologias limpas, além de modelos cooperativos de divisão dos lucros e economia solidária, pode fazer parte das grandes soluções que o futuro necessita. Futuro em que, acredito, o papel do assistente social será condição sinequenon e este profissional despontará, além da atenção básica e do atendimento imediato, como uma das principais armas de denúncia, garantia de direitos e fecunda formação de opinião.
Finalmente, acredito que as nuances da história demonstram que o modelo marxista hoje adotado pela corporação de serviço social no Brasil constitua um movimento passageiro, dada  á constatação de que a qualidade de vida dos cidadãos dos países onde esse sistema social domina, não é melhor do que a dos países de proposta capitalista-neoliberal.
Conforme podemos constatar nos estudos do cientista político Arnaldo Sisson Filho, apresentados no site humanitarismo 21 (3), quanto à felicidade e bem-estar das populações, não há uma supremacia real das propostas marxistas, socialistas, comunistas contemporâneas sobre a visão capitalista, neoliberal.

Percebo que muito poderia ser dito e que uma apresentação como esta apenas introduz a reflexão sobre o serviço social, seu passado sinistro, seu presente reflexivo e seu futuro de resgate cidadão.

Alexandre Pimentel

fonte: http://materiaisacademicos.blogspot.com/

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O cuidado (fábula-mito)

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Certo dia, ao atravessar um rio, Cuidado viu um pedaço de barro. Logo teve uma idéia inspirada. Tomou um pouco de barro e começou a dar-lhe forma. Enquanto contemplava o que havia feito, apareceu Júpiter. Cuidado pediu-lhe que soprasse espírito nele. O que Júpiter fez de bom grado. Quando, porém, Cuidado quis dar um nome à criatura que havia moldado, Júpiter o proibiu. Exigiu que fosse imposto o seu nome. Enquanto Júpiter e Cuidado discutiam, surgiu, de repente, a Terra. Quis também ela conferir o seu nome à criatura, pois fora feita de barro, material do corpo da Terra. Originou-se então uma discussão generalizada. De comum acordo pediram a Saturno que funcionasse como árbitro. Este tomou a seguinte decisão que pareceu justa: Você, Júpiter, deu-lhe o espírito; receberá, pois, de volta este espírito por ocasião da morte dessa criatura. Você, Terra, deu-lhe o corpo; receberá, portanto, também de volta o seu corpo por ocasião da morte da criatura. Mas como você, Cuidado, foi quem, por primeiro, moldou a criatura, ficará sob seus cuidados enquanto ela viver. E uma vez que entre vocês há acalorada discussão acerca do nome, decido eu: essa criatura será chamada Homem, isto é, feita de húmus, que significa terra fértil”.

Boff, L.   livro “Saber Cuidar” (1999)


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