Dando continuida a Série A criança que eu fui, temos o relato do Caca, do blog uaimundo, que conforme sua descrição é ”Escrevedor nas horas vagas, cozinheiro de plantão. Ou o contrário”.
Assim, convido-a (o) a essa viagem.
Aos 11 anos
Tive infância boa, cheia de tudo aquilo que é possível a uma criança chamada normal. Todas as brincadeiras, todos os trotes, tudo, tudo que uma infância do interior permitia à criatividade da petizada. Jogos de futebol, brigas, soltar papagaio e jereba, tocar campainha nas casas do bairro à hora das novelas ou do jornal da TV, bola de gude, bater figurinhas, colecionar álbuns, ler gibis do Zorro, assistir ao Capitão América, as novelas que passavam em horário permitido para os pequenos; nadar no clube – isso após assistir à missa obrigatória e ter de contar à mãe a prédica do capelão – jogar garrafão, bandeirinha, queimada com bola de meia, fazer carrinhos com rodas de borracha e rolamentos velhos que o pai trazia da mineração onde trabalhava e andar com eles na estrada ladeirenta do hospital que a mineradora construía para seus operários e familiares, apostando corrida com a moçada, machucando a bunda quando a roda arrancava e subindo o trecho íngreme puxando pela corda os carrinhos tão pesados quanto a felicidade que a descida proporcionava. Ir nadar no pocinho e no poção, águas acumuladas de chuvas em um canto isolado do bairro que formavam verdadeiras lagoa pequena e lagoa grande, respectivamente, fazer simulação de briga com pau de bosta, criar cobras de meias enchidas com areia para assustar as beatas que voltavam da igreja, futebol de campinho de terra, futebol de rua, de quadra e onde mais houvesse espaço para o trato com a bola e por ai afora.
Isso foi num tempo em que a liberdade era o princípio e o fim de tudo que se puder relacionar à infância, mesmo com toda a repressão moral vigente ainda depois da segunda metade do século passado. O rigor no trato da prole não impedia que a rua fosse o espaço mais privilegiado para aventuras infantis. Tinha medo de fantasmas invisíveis e inexistentes mas não tinha que preocupar com fantasmas que se materializam hoje em carne osso, saindo do submundo de uma sociedade que tem a violência urbana como maior inimigo de uma infância já sem contato mais direto com o mundo natural , o mundo da rua, o mundo do tomar-se conta sozinho ou pelo vizinho e pelas pessoas das relações sociais de uma coletividade, seja cidade, bairro, vila , ou qualquer aglomeração onde vivam famílias em seus seios. A vida era mais fácil, do ponto de vista do ir e vir, tanto para adultos como (e principalmente) para crianças.
Estas lembranças tão vivas não costumam mais atrair os meninos e meninas de hoje para sequer tomar conhecimento, uma vez que distanciaram de tal forma presas em suas realidades de quarto, computador, tv e Shopping, que contá-las soa como obra ficcional. Deixo-as para os adultos contemporâneos meus e deixo para futuros pais que podem, a tempo, repensar que condições humanas, geográficas e sociais querem deixar como legado para sua descendência.
Amigos tive muitos e tantos que até hoje conservo alguns, esses que não sumiram pelo mundo em busca de outros sonhos. Ou que sumiram transitoriamente e se estabeleceram ou estabilizaram em algum lugar de onde, sem importar distância e tempo, mantemos os laços. Pois eles foram fortes demais nos primeiros anos em que estávamos formando o caráter, a personalidade, absorvendo os ensinamentos dos pais e pessoas mais velhas. Desvios? Houve, haverá sempre. Muitos se foram, acometidos por um mal súbito, ou arregimentados subitamente por um mau para outros rumos.
Em breve estarei lançando um livro dessas memórias infantis. Já tem título provisório, será O CAMPINHO, o lugar no bairro onde passei a maior parte de minha infância, um espaço rústico, porém multiuso. Ali, adolescentes, crianças e até adultos se reuniam, seja para brincar, cada um com seu afazer lúdico, seja para encontrar, ser visto (uma vez que era bem central no bairro), ou simplesmente para levar o “fazer nada” para ser coletivizado. Coletivo, aliás, é um substantivo que eu gosto de adjetivá-lo bastante. É no que acredito como forma de fazer a humanidade andar junta, de mãos dadas cumprindo a sua sina de sociabilidade.
Luiz Claudio
“Nossa memória é a deusa que reuniu nossos apontamentos, a partir dos quais geram-se novas descobertas; a partir dos quais poemas, grandes livros e pinturas eternas são inspiradas.”Rollo May
Agradeço ao amigo Caca este compartilhar sobre parte importante de sua história e que também consiste na expressão das relações entre o individual e o coletivo de uma época.
Norma
Tags: comportamento, criança, memórias