horizonte 2

Muito se comenta sobre o  excessivo individualismo reinante em nossos dias. Nas conversas informais confirmam-se as queixas sobre a maneira como as pessoas compartilham os espaços coletivos. Há um descaso pelo outro. É  freqüente  entre pedestres ou motoristas urbanos exemplos gritantes: pedestres andando em dupla ou em trio com carrinhos de crianças ou cachorros fazendo uma muralha nas calçadas, não se incomodando com quem vem a frente ou atrás. Os motoristas fecham cruzamentos, sem se importarem com aqueles que  precisam atravessá-los. Não há o mínimo interesse pelos outros e a solidariedade é substituída pelas competições cada vez mais estimuladas na sociedade.  Há a exigência social do indivíduo responsável (a conquista do emprego ou mesmo de um relacionamento pautada na ação individual), o que deixa as pessoas com seus próprios recursos. Assim, esse modo de “cada um por si” gera em contrapartida sentimento de desamparo.

Por outro lado, o modo individualista de existir sem amarras e à deriva (sem referências) acarreta insegurança ou instabilidade pessoal que somada às constantes frustrações geram dores psíquicas, entre elas o pânico e a depressão.
Na clínica, a angústia revela, algumas vezes, a situação de desamparo pela perda do amor e nesse está incluso o de si próprio e o do outro. Desta forma, abordar sobre o individualismo é caminhar por esferas de sentimentos que permeiam as relações desde a esfera privada à publica e que constroem mal-estar e consequentemente adoecimentos.

As influências são recíprocas (sociedade e indivíduos) e os sintomas nos alertam que o circulo vicioso necessita ser interrompido para darmos chance a novos ares. Nessa retomada urge um olhar cuidadoso sobre o si mesmo numa perspectiva mais humana e menos mercantilizada ( marca de roupa, carro x, etc.).  Assim sendo, quem sabe o amor (rearfirmado e cuidado)   possa ser a mola mestre que nos ajude a trilhar caminhos menos desumanos e que o outro possa ser reconhecido como o si próprio, pois como diz John Powell,  “Na verdade, as coisas que mais me diferenciam e me individualizam em relação aos outros, o que torna a comunicação de minha pessoa um conhecimento único, são meus sentimentos ou emoções».

Norma Emiliano

BAUMAN, Z. (1997). O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

JOHN POWELL, S. J. Por que Tenho Medo…  Editora Crescer, B. Horizonte, 1987. Tradução de Clara Feldman de Miranda

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