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O Prenúncio da morte

 

Somos finitos. Vivemos como se infinito fôssemos

 

Ao longo da existência, uma imagem negra, assustadora povoa a mente do ser humano. No mais profundo do ser, existem a certeza absoluta e a tenebrosa realidade da morte.

 Nascemos e despertamos para a vida. Aos poucos vamos nos dando conta que apenas somos parte da vida; que somos apenas um dos seus diversos representantes.  Independentemente, de estarmos aqui, ela segue seu rumo.

O tema da morte é árido, principalmente para nós ocidentais. O homem por sua natureza racional é o único ser do universo que tem consciência da morte. Todavia, a forma de confrontá-la foi se alterando ao longo do tempo e no espaço da história humana; foram sendo, inclusive, abandonadas as práticas familiares e rituais que ajudavam as pessoas no processo de adaptação à morte. Froma Walsh e Mônica McGoldrick em seu livro Morte na Família, Sobrevivendo às Perdas, observam que “o medo da morte é o nosso terror mais profundo”.  Pensamos a vida e a morte separadamente, quando de fato uma está inserida na outra, pois a vida desperta a morte.

Na atualidade, o materialismo tem favorecido a postura de ignorá-la. Sabemos da importância das lembranças, das influências das nossas experiências e crenças familiares. Mas assistimos hoje, comumente, pais tentarem afastar os filhos dessa realidade, temendo traumas.  A relutância cultural sobre lidar com a morte é confirmada no próprio uso da linguagem como, por exemplo, “foi desta para melhor”.

Procuramos “assisti-la de camarote, como se não fizéssemos parte do desfile. Sofremos com a perda dos entes queridos. Mergulhamos na tristeza. Mas não conseguimos nos imaginar fora deste tão” presente cotidiano “, da corporificação, sem entrarmos no mérito da fé, da vida após morte ou reencarnação”.

A dificuldade de suportar a idéia da morte é tão forte que alguns familiares de doentes terminais vivem o luto com o doente em vida. Entretanto, o indivíduo com doenças crônicas físicas, que podem resultar em morte, experiencia várias perdas, mas, freqüentemente, começa a apreciar aspectos da vida ignorados anteriormente. Por outro lado, pessoas que se recuperam de enfermidades graves dão testemunhos da renovação que realizaram em suas vidas.  Elas demonstram como só se deram conta da sua finitude ao e depararem com o prenúncio da morte. De acordo com Kleinman “se existe uma única dimensão as doenças que nos pode ensinar algo precioso para nossas próprias vidas, esta deve estar relacionada ao modo de confrontar e responder ao fato de que todos, sem exceção, morremos”.  

Muitos fatores contribuem para a visão negativa da finitude, entretanto alguns autores trazem uma visão mais positiva ao enfatizarem a participação do indivíduo na construção da história da humanidade. Assim, ele tem um limite temporal, mas a história continua.  De outra forma a visão oriental concentra-se no momento presente trazendo um método sadio de viver a finitude.  Parafraseando Karel “perdemos muitas jóias de vida porque deixamos de ver seu brilho pelo simples fato de convencer-nos que não vale porque um dia não brilharão mais”.

Norma

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Indignações poéticas

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“Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada”

Trecho do poema de Eduardo Alves da Costa

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“Nós vos pedimos com insistência:
Nunca digam – Isso é natural!
Diante dos acontecimentos de cada dia
Numa época em que reina a confusão,
Em que corre o sangue,
Em que o arbitrário tem força de lei,
Em que a humanidade se desumaniza…
Não digam nunca: isso é natural!
A fim de que nada passe por ser imutável
.”

Bertold Brecht

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Acorda, gente.

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“Se alguém tem um conflito profundo, o importante é tentar participar dos dois polos do conflito, e assim lentamente poderá vir à tona um novo símbolo que os reunirá, ou estará acima ou abaixo dos dois polos.” . Jung

O sentido da vida é a própria vida. Contudo, o ser humano em sua trajetória pessoal e coletiva dá sentido a sua existência. Através do cotidiano constroem- se pontes que dão acesso às diversas áreas do conhecimento. Algumas pessoas constroem seu saber através das experiências vivenciadas, o que comumente chama- se “escola da vida”. Assim sendo, nada em relação ao acúmulo do conhecimento sobre a humanidade deve ser desprezado.

O desenvolvimento científico e tecnológico avança, descortinando antigos mistérios. Por outro lado, as relações humanas, o comportamento dos indivíduos na sociedade atual assustam, dando um caráter de insegurança a esta sociedade. A sobrevivência da espécie humana, da forma como a conhecemos, é questionada.

As transformações climáticas, a ecoesfera, as violências do indivíduo dão mostras do caminhar da humanidade. Indicam os valores, o fio condutor desta trajetória. Vive- se uma dramática deterioração das condições gerais de vida. Retomar o tempo, do bonde à  tranqüilidade das calçadas com crianças brincando, com homens e mulheres sentados em roda a conversar. Rever o armazém, o boteco, as lojinhas de tecido, tudo reflete um tempo. Tempo costurado na tranqüilidade de poder esperar.

No supersônico, mais um recorte. Pessoas apressadas, muitas falas, muitas ofertas, muitas demandas agonizantes da fome. No vende e compra, os ditames destas últimas décadas que globalizam e isolam. As transformações marcam as vidas, fragmentam os indivíduos e o mundo urge de humanidade.

A percepção da desenfreada destruição não tem detido o lado ambicioso e egocêntrico do ser humano que vive em paradoxo. O ter e o ser não mais se afinam. O desejo do desejo não tem chegada. Nesta busca inflada pela mídia,a vida escorrega por entre dedos.” Vão se os dedos e ficam- se os anéis”. As vidas se perdem no vácuo da existência. Muitos lamentam as perdas, mas o tempo anuvia as dores. Entretanto, cada vez mais, o cotidiano grita para o despertar da consciência do excesso, que pode levar à destruição de muitas espécies entre elas, a do homem.

Norma

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