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Ressonância

A vida pode ser pensada como se fosse um rio. Quando nos permitimos, quando nos aquietamos,  podemos perceber a mudança no que é permamente e o eterno retorno.

Leia a história abaixo e mergulhe e, se possível, compartilhe aqui o que ela lhe inspira a nos contar.

 

A  Fonte

 

Um jovem sentou-se à margem de um rio e pôs se a observar-lhe os torvelinhos e ondas. Sentindo-o penetrar suavemente em seu espírito, perguntou: “De onde virá este rio? E se foi em busca da fonte.
Segui o rio até encontrar um braço mais longo que o resto. Mas, antes de poder comemorar a descoberta, começou a chover e surgiram regatos por toda a parte. Procurou aqui, ali, até deparar-se com um braço que parecia mais longo que os outros. Já se felicitava quando avistou um pássaro pousado numa árvore, com o bico e a cauda a escorrer água. Estancou, voltou-se e olhou fixamente – o bico da ave estava um pouco acima da cauda. Então, o jóvem apressou-se a voltar para contar a descoberta final.

Já em casa, as pessoas pediam-lhe para repetir a história de sua jornada e descoberta. Toda vez que a contava, eles se espantavam e admiravam a façanha. Com o tempo, a narrativa da aventura deixou-o tão fascinado que nunca mais voltou ao rio.

Um velho que o amava percebeu o perigo e correu em seu auxílio. Com voz clara e afetuosa, disse: “Eu gostaria de saber de onde vem a chuva”.

E o jóvem, em desespero: “Onde acharei uma escada para subir ao céu e contar tantas gotas de chuva? Como acompanharei as núvens?”" Afastou-se e, para esconder sua vergonha, mergulhou no rio e deixou que a corrente o arrastasse.

O velho pensou: ” Aí está uma boa resposta, meu filho. Nade e sinta a corrente, deixe que o rio o leve . Ele quer voltar para casa, fluir para sua fonte.”

 Hunter Beaumont in A Simetria Oculta do Amor de Bert Hellinger

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Demolições e histórias

 

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 Quem não se recorda de sua primeira moradia? São lembranças preciosas de momentos de descobertas, de intensidade de emoções. Móveis, quadros, objetos e cômodos ficam tão registrados no inconsciente que ao se fecharem os olhos, ao se recordarem cenas familiares antigas, é possível sentir cheiros e ouvir ruídos. Enfim, são memórias de um tempo, marcas de uma história. Para Bachelard (1990. p.89) “é impossível escrever a história do inconsciente humano sem escrever uma história da casa”. A memória constitui-se através da relação significativa com parentes, vizinhos, pelos objetos pessoais, livros etc.. É um fenômeno construído socialmente.

Hoje, é impressionante o número de residências, casas antigas colocadas abaixo em nome da modernidade. As marretas e tratores ensurdecem os ouvidos e doem na alma. Os edifícios tomam seus espaços. A importância histórico-arquitetônica não é valorizada e as famílias, sem se darem conta, perdem parte das suas histórias. Por outro lado, não há interesse do poder público em relação à qualidade de vida da comunidade nem à memória histórica, bem como  não há um correlato planejamento urbano (esgoto, alargamento das ruas).
 
Que caminhos trilhados são esses?  A sociedade passivamente acompanha as derrubadas; algumas pessoas utilizam, hoje, para o comércio (do designer ao comércio de objetos e à realização de eventos) belas mansões que no passado pertenciam às famílias tradicionais. Essas moradias poderiam ser restauradas e funcionarem como espaço cultural. È lamentável constatar a perda da memória histórica, da inexistência de registros dos antigos imóveis.

A localização de uma lembrança “necessita o desenrolar fios de meadas diversas, pois ela é um ponto de encontro de vários caminhos, é um ponto complexo de convergência dos muitos planos do nosso passado” (Bosi, 1994, p. 413). Dessa forma, tudo isso me remete às dores observadas em algumas pessoas e famílias, quando por exemplo, após a morte de ancestrais, ocorre  venda da casa pelos filhos. Quanto sofrimento ao abandonar suas recordações! Na realidade as demolições nos reportam ao desgaste de um tempo, à morte daqueles que ardentemente desejamos manter na memória. Na “memória emocional vivemos como se todos que amamos devessem, no fastígio da nossa idade, viver juntos, morar juntos” (Bachelard, 1988, p. 116).

 

Referências

BACHELARD, Gaston. A Poética do devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 1988.
___________________A Terra e os devaneios do repouso: ensaio sobre as imagens da intimidade. São Paulo: Martins Fontes, 1990.

BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Cia. das Letras, 1994.

 Norma

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Um segredo em família

 

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O segredo familiar aprisiona os indivíduos nas historias por não se poder falar sobre elas.  Paralisa o tempo familiar.

 O segredo nas palavras de Bernstein (apud Fernández, 1990, p. 101), “trata-se de informações vinculadas com a história do grupo familiar ou aspectos particulares de um de seus membros que, em geral, são ocultados parcialmente, com a certeza de que não são desconhecidos por outros integrantes”. “Complementando, IMBER-BLACK (1994) afirma que” é um fenômeno sistêmico. Ele está ligado ao relacionamento, molda as díades, forma triângulos, aliança encoberta, divisões, rompimentos, define limites de quem está ‘dentro’ e de quem está ‘fora’. 

 O desconhecimento das origens é considerado por muitos autores como um dos mais maléficos, pois desorientam, principalmente quando o indivíduo está em formação,  uma vez que se insere numa complexidade que envolve o intrapsíquico, o psicossocial e o transgeracional, bem como o passado, o presente e o futuro.

 Sua construção ocorre a partir de situações relacionadas à vergonha e  ao  sofrimento que geram pacto de silêncio.

 No filme Um segredo em família, o diretor Claude Miller recria o drama e os sentimentos de uma família no decorrer da II Guerra Mundial, num recorte trigeracional. A separação dos membros das famílias pela perseguição aos judeus é o pano de fundo para o desenrolar do roteiro.

 O menino, filho do casal desportista, nasce franzino e cresce sem se identificar com o mundo atlético de seus pais. A forma como encontrou de não se sentir como um peixe fora do ninho foi criar para si um irmão imaginário capaz de tudo. Na adolescência, ele percebe que há profundos e tristes motivos que o influenciaram a se sentir tão alijado do padrão dos seus pais. Os motivos que remontam a uma geração de sua origem antes do mundo conhecer os horrores do Nazismo.

 Imber-Black (1994), ressalta que “embora o próprio evento possa ser mantido em segredo, a intensidade dos sentimentos em relação a ele dificilmente se disfarça. (p. 76). Uma das conseqüências é o distanciamento emocional entre os membros pelo receio de não se trair. A percepção de que algo se oculta  transcende a fala e a força que impele à revelação transforma-se em fantasma trazendo, de alguma forma à tona, sintomas metafóricos.

 A revelação do segredo expande as possibilidades de evolução da família levando às mudanças na forma de pensar e agir e interagir.

Norma Emiliano

 

 Referências

 FERNÁNDEZ, A. A inteligência aprisionada. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.

 IMBER-BLACK et al. Os Segredos na família e na terapia familiar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.

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O que alimenta?

 

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As doenças encontram na cultura a forma de se expressar

 

 Na mesa farta, a família encontra-se reunida. A freqüência diária desta reunião ocorre à noite e é constante a ansiedade gerada por Paula, que mexe e remexe o prato enquanto todos já terminaram. Nas consultas ao clínico, os pais são orientados em relação ao estado de desnutrição da adolescente. A partir daí, várias análises foram realizadas por profissionais de diversas áreas (psiquiatria, nutrição, endocrinologia e terapia familiar).

È freqüente a associação dos transtornos alimentares à modernidade, tendo em vista à moda, realçada principalmente pela mídia, que traz a magreza como padrão de beleza. Contudo, doenças do comportamento alimentar refletem a confluência entre os fatores psicológicos, biológicos e sócio-culturais e seu tratamento integra vários níveis de análises (padrões alimentares, problemas interpessoais, familiares e psicopatologia). Faz- se necessária, portanto, uma abordagem global e integradora.

Na história de família de cada um dos membros que constitui o casal há fios que pouco a pouco foram tecidos e trazem o alimento como fonte de amor e as refeições como representação da união familiar.  Paula, a primeira filha, já em bebê, apresentou rejeição à lactose acarretando ansiedade aos pais por não conseguirem alimentá-la normalmente.

O funcionamento psicológico de uma pessoa está ligado à estrutura à qual pertence. As interações e trocas inconscientes entre os membros podem determinar perturbação psíquica em um dos membros, assim como a forma que essa tomará e como ela se desenvolverá. Nesse sentido, o terreno da patologia, como diz Minuchin (1982), é a família.

Alimentá – la passou a ser um objetivo a ser perseguido. Os outros filhos, cada um com suas características, passaram a competir com a atenção dos pais, dificultando assim a comunicação entre a irmandade. Nos momentos de maior estresse, Paula recusava-se a se alimentar e todas as atenções se voltavam para ela.

O funcionamento familiar é um elemento central na determinação, manutenção e/ou desenvolvimento dos Transtornos Alimentares. Eventos ocorridos na família (briga do casal, morte ou nascimento, etc.) podem anteceder aos Transtornos Alimentares.

Paula aliançava-se com a mãe em detrimento do pai, que era considerado pela esposa excessivamente autoritário e controlador. Ele vigiava cada alimento que Paula comia e pai e filha constantemente se atritavam.

 A história familiar da infância e da puberdade precisa ser levantada com o doente e seus familiares, permitindo a reconstrução de memória dos familiares que comporta preocupações, atitudes face ao padrão alimentar, mitos, lealdades e a auto-imagem corporal ao longo do desenvolvimento.

No decorrer da Terapia Familiar, os conflitos do casal e suas diferenças vieram à tona e o casal pôde fazer acordos e negociações que privilegiaram a relação conjugal totalmente esquecida. Uniram-se para realizar mudanças de atitudes em relação ao padrão familiar (família bem alimentada e unida), conseguindo sair da “massa indiferenciada” e ver a individualidade de cada filho.  Paula pode seguir enfrente, cuidando de si própria, ampliando a rede de amizade e terminando seu curso.

Na abordagem familiar procura-se a reconstrução de memórias, a contenção da crise familiar, clarificação e reorganização das fronteiras dos diversos subsistemas (paterno, conjugal, irmandade), definição dos papéis de cada um dos membros preparando os membros para mudanças.

Os sintomas das doenças vistos como metáforas abrem portas para o autoconhecimento e proporciona oportunidades para o crescimento individual e familiar.

 

Bibliografia

 - Organização Mundial de Saúde. Classificação de transtornos mentais e de comportamento da Cid-10. Descrições clínicas e diretrizes diagnósticas. Porto Alegre: Artes Médicas; 1993. p. 351.  

 - MINUCHIN, S. Famílias: Funcionamento e Tratamento. Trad. J.A. Cunha. Porto Alegre, Ed. Artes Médicas, 1982.

Norma Emiliano

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Uma trajetória de amor

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No mês de maio, comemora-se o Dia do Assistente Social. Pensei em escrever sobre a profissão e considerei  que nada seria tão ilustrativo do que a minha própria trajetória.

 Quando escolhi minha profissão, Assistente Social, não tinha a dimensão do que me motivara esta escolha.

Logo que me formei, veio o primeiro desafio, fazer parte de uma dupla para implantar o Serviço Social na Empresa. Jovem e destemida enfrentei as primeiras incertezas e caminhei fortalecida pelas conquistas.

Alguns anos nesta área fizeram-me perceber o quanto as interações eram importantes para o meu crescimento pessoal e profissional. Estive em contato com os mais simples funcionários ao mais alto escalão da empresa. Atuei em vários programas, indo da assistência ao treinamento à promoção. Assim, fui vencendo a timidez, o receio do poder e reforcei recursos pessoais importantes para a minha profissão, como por exemplo: a objetividade, perseverança e a responsabilidade.

Anos depois, em função da minha escolha amorosa, fui para o interior, onde tive uma experiência totalmente diferenciada com uma clientela desprovida de recursos. Neste momento, eu era a única assistente social da instituição e  tendo que atender às necessidades básicas em programas assistenciais, busquei alternativas para atingir o plano promocional.

Através de diversos grupos, mães, mulheres, moradores e religiosos,  associei-me às outras instituições locais ( Emater, Hospital local, secretaria de Saúde Municipal, Escolas, etc) para realizar campanhas educativas, seminários e encontros  que produziram reflexões e tomadas de decisões para melhorias das comunidades e das famílias.  Nas trocas com os clientes e parceiros aprendi muito sobre mim mesma e sobre a vida. Essas experiências reforçaram -me o amor à profissão que se mostrava tão significativa para que eu pudesse alcançar meus objetivos de construir um mundo mais igualitário e humano.

Retornando ao grande centro, continuei minha busca de crescimento pessoal e profissional  e encontrei mais uma grande paixão: terapia familiar.

Com este encontro, somei conhecimentos que expandiram minha visão sobre o ser humano e suas questões, o que foi propício para a nova área de atuação – a da saúde do trabalhador.

Nesta nova experiência, pude tocar mais perto a “alma humana”, compartilhar das dores das doenças, das mazelas da vida e das conquistas do retorno ao trabalho. Através das reflexões e do entendimento da visão ampliada do indivíduo, incluindo aí a repetição do padrão de comportamento adquirido nas famílias, pude ajudar o  trabalhador a ser mais consciente  de como agir em relação a si próprio, à sua saúde, tornando-se mais responsável, produtivo e motivado no seu cotidiano.

Esta prática cotidiana do atendimento à pessoa através do paradigma sistêmico permitiu – me constatar a possibilidade de impulsionar uma cadeia de mudanças, pois  lança- se a semente da corresponsabilidade dos problemas envolvendo os trabalhadores, chefias e familiares.

Nesta trajetória, fica em mim a convicção de escolha guiada pela missão familiar de ser cuidadora.

Cabe ressaltar que esta missão não me veio como uma carga pesada, mas como a possibilidade de eu entender que para cuidar do outro, precisaria ter muito cuidado comigo própria. Enfim, aos 61 anos e 36 anos de profissão, celebro com orgulho minha trajetória profissional e pessoal orientada pela paixão pela vida.

 Norma

Compartilho com você que tem me dado o prazer da sua visita a maravilhosa melodia do video abaixo.

 

nutsocket — 30 de março de 2008 —

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Linhas cruzadas

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Gonçalves Emanuel Pinheiro Fidaldo. olhares.aeiou.pt/linhas_cruzadas_foto2613228.html

 

Depois de tudo, somos um, você e eu, juntos sofremos,  juntos existimos e para sempre recriamos um ao outro.”
 Teilhard de Chardin.

 
Na atualidade é comum que as relações não perdurem. Isto traz, como conseqüência, diversas modalidades de relacionamentos que favorecem um novo entrelaçamento entre as pessoas envolvidas. Sob esta perspectiva, considerando que cada um dos parceiros traz consigo uma bagagem pessoal (interna e externa), tecer os fios não é muito simples.

Normalmente, os novos casais que se formam, após separação ou morte do cônjuge, depararam –se com as diferenças oriundas das suas próprias famílias de origem (pais, avós, etc), com as experiências que tiveram com seus relacionamentos íntimos e com as conseqüências da forma como a separação ou luto ocorreu, ou seja: mais sóbrio ou mais dramático. Assim, o tempo pode ser uma rede de proteção para a nova união, pois pode favorecer a resolução dos conflitos anteriores, o melhor conhecimento do atual parceiro, das diferenças pessoais  e o maior equilíbrio emocional.

 È comum que as pessoas reajam aos novos relacionamentos com o referencial da relação anterior, o que leva às distorções na interpretação das atitudes do novo parceiro, dificultando a interação. Poder estar no aqui e agora requer um bom conhecimento de si próprio para poder agir ( racionalmente)  e não somente reagir  (envolver-se emocionalmente).

É notório que conviver é um dos maiores desafios do ser humano. As novas modalidades de relacionamento tornam ainda mais complexa a convivência, pois o cruzamento dos diversos personagens ( filhos, ex-sogros, enteados, meio-irmãos, etc)  leva à necessidade de uma maior flexibilização da forma de ser de cada um dos envolvidos.

Já encontramos casais que optam por casas separadas e sem o envolvimento das respectivas famílias, mantendo uma fronteira rígida. Contudo, isto não evita que as outras pessoas, que participam da vida de cada um, transcendam os espaços geográficos e influenciem ou acabem se transformando em fantasmas na relação a dois.

 Desta forma, é importante o reconhecimento de que cada experiência é única,  mas que o passado não pode ser apagado. Muitas personagens antigas fazem parte desta nova construção. Portanto, para lidar com tudo isto cada casal vai precisar criar sua própria regra de convivência, o que significa muitas vezes em ter que se resgatar as histórias anteriores e se construir pontes. É um trabalho diário de amor, paciência e tolerância .  
                       
Norma Emiliano

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(Re) encontro

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 Ao avistá-la, fez menção de se esconder.   

 - Não, por que fazer isto? Por que não ter a chance de recordar tão boas lembranças? No entanto, não se aproximou. Ficou à    distância, vendo-a se movimentar na busca do rosto amigo.

 - Pronto! Ela a viu. Aproxima-se.

 - Nossa querida, como é bom depois de tanto tempo revê-la!!

 - Sim, como você está bem.

 - Obrigada, vem, vamos procurar um lugar para nos sentarmos.

Sentam-se e falam dos bons tempos da adolescência. Fica estarrecida, pois após vinte anos de afastamento, sente-se como se  nunca tivessem se separado. Todavia, quando pergunta sobre as realizações dos seus sonhos, uma nuvem de tristeza cobre o seu rosto e percebe que brotam lágrimas dos olhos da amiga.

 - Desejava não ter perguntado, mas já o fizera.

  – Meus planos se realizaram, mas a vida ensinou-me que não podemos idealizar. Tive o que queria e o perdi drasticamente. Hoje, sinto-me entristecida, mas cheia de garra para seguir em frente em busca da minha própria vida. Após a minha formatura, fui viajar. Nesta viagem, encontrei o homem por quem me apaixonei e me casei. Tivemos um filho. Vivi para eles e hoje sei que me esqueci. Passei anos a fio na espera da sua volta, pois ele viajava a trabalho. Eu me dediquei à casa, ao filho e à espera dos momentos da sua chegada. Não exerci minha profissão, afastei-me das amigas. Contudo, há seis meses eu recebi a notícia de um desastre que ele sofrera e a partir disto conheci a minha verdadeira situação.

  - Ele tinha outra mulher e quatro filhos. O seu trabalho como viajante lhe proporcionou a oportunidade de se dividir entre nós. Com isto, meu mundo se foi. Eu não tinha marido, não tinha profissão, nem amigos. Tive que mudar meu rumo. Mas, como você pode ver, aqui estou, enfrentando a vida, muito sofrida com o sonho desfeito, porém com a minha própria vida. Chega! Agora me conta o que tem feito.

 Sorri e disse:

- Vivido.

Conta-lhe o que tem feito; fala do trabalho, da casa própria, das amizades, dos breves namoros, dos sobrinhos. Percebe uma alegria que estava distante, invadir o seu coração. Sente que tem uma vida, uma vida própria. Teve receio de encontrar a amiga, de não mais terem nada em comum, de não terem assunto. Está feliz por ter feito este pacto e tê-lo cumprido.

 As horas passam e se dão conta de que no cruzamento de suas historias nada há para se envergonharem. Brindam o encontro e celebram as suas vidas. Selam um novo pacto: de se reencontrarem após 5 anos.

Norma Emiliano

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A incerteza do amanhã

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A sua queixa é a freqüente insatisfação, o sintoma é a depressão. Não consegue entender seus sentimentos; sente-se paralisado. Muitos são os motivos que impulsionam as atitudes humanas e muitas delas são conscientemente desconhecidas.

O conjunto de comportamentos que vincula as pessoas umas as outras formam importante ligação entre elas e gera o que podemos denominar de apego. Assim, as experiências relacionais infantis vão determinar as futuras representações de si mesmo e dos outros. A visão do homem é restrita, parcial e limitada criando o apego às coisas próximas conhecidas. Contudo, a vida nos é ofertada e nos confrontamos com a sua impermanência.

O apego humano, apesar de ser indispensável ao desenvolvimento da criança, condiciona e limita a vida das pessoas por elas desejarem a constância e permanência de coisas e pessoas. Desta forma, muitas causas de infelicidade, conflitos e tensão estão vinculados ao apego. Os desejos do homem são incessantes e daí surgem as frustrações por não se obtê-los, por não se conseguir o suficiente, por possuir algo que não se quer mais ou por se conseguir e perdê-los.

Em sua história familiar a luta pela sobrevivência foi grande. Eram cinco pessoas, pai, mãe e três filhos. O pai muito acomodado restringia-se a um emprego seguro no qual ganhava pouco. A mãe, muito ativa, de tudo fazia para dar o que comer aos filhos. O pai era muito honesto, responsável, mas muito distante afetivamente. A mãe era o porto seguro. 

Após o casamento dos irmãos, suprimiu etapas de um recente namoro. Em menos de um ano nasceu o primeiro filho.  A partir de então assumiu o compromisso de não deixar faltar nada à família. Isto, ao longo do tempo virou uma obsessão e só pensava no dia de amanhã. Nada o satisfazia, nada valorizava.  Procurava garantir o sustento da família e ser carinhoso com os filhos por não querer repetir com eles a distância que existia entre ele e o pai. Por outro lado, continuava ter a mãe como o porto seguro. Em suas incertezas, a ela sempre recorria.  Passou o tempo.  Não conseguindo viver o aqui e agora e ficou depressivo. A preocupação intensa com o amanhã impede a criatividade cotidiana.

Para que uma corda vibre em nós, é necessário não só que ela seja nossa, mas também que um contexto adequado a faça vibrar”. Elkaim. Ele atribui a sua depressão à insatisfação constante. Todavia, a junção da sua história e a da parceira faz o encaixe para a manutenção do padrão de comportamento que o afasta da sua intimidade pessoal. Não sabe quem é e o que deseja.

A esposa é proveniente de uma família pobre, na qual a mãe é do lar e submissa; o pai é o provedor, extremamente autoritário e agressivo. Ela tem três irmãs, sendo ela a filha do meio. Cedo quis trabalhar e se tornar independente. No casamento, não quis ter a posição submissa da mãe. Na falta de um modelo de parceria, assumiu a família e o controle do lar. Queixa-se da falta do companheiro, mas não percebe que não abriu espaço para que o companheirismo pudesse emergir.

Ambos estão perdidos em cobranças pessoais e inter-relacionais, mantêm-se prisioneiros do passado e não conseguem viver o presente. O medo da repetição da figuras paternas traz como pano de fundo a incerteza do amanhã.

Norma Emiliano

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Minhas Palavras

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Aquilo que guia e arrasta o mundo não são as máquinas, mas as idéias”. Vitor Hugo

Um fato é eu sair de mim para você; outro é eu chegar até você com minhas palavras. As palavras! As palavras, os ventos levam e trazem. Elas fluem pelo universo. Representam o meu desejo de expressão.

A voz interior expressa- se através das palavras faladas ou escritas que irão pousar de acordo com as diversas identificações pessoais. Identificações que passam pelas recordações, dores, alegrias e questionamentos. Não importam quais sejam. Posso trazer lembranças, informações, conforto, afeto e questionamentos. Respostas? Não. As respostas estão onde você se encontra.

Pessoas, cotidiano, eventos, relações despertam-me as palavras. No intuito das mensagens, as letras vão se juntando, formando palavras, frases, na direção do conteúdo. Exteriorizar o pensamento, as idéias, os sentimentos faz parte deste momento. A mente povoada de imagens  que vão se  configurando e  entrelaçando. Vidas  que são contadas, homenagens que são realizadas, informações que são repassadas. No entorno o meu afeto. No vai e vem dos pensamentos e palavras, converso comigo e vou até você com minha mensagem. Não ouço o que me diz, sua conversa é silenciosa. Entretanto, as palavras chegam a você e se transformam a partir de você. Assim, a comunicação se faz presente  e a experiência é valiosa.

A primavera finda. Está quente! O tempo faz com que me recorde de momentos passados e pessoas queridas. Viajo! Assim é a nossa memória. Tudo permanece dentro de nós. Imbuída dos sentimentos dessa viagem, surgem-me algumas palavras: amor, união, intimidade, intensidade. Ligadas a elas, duas cenas surgem e remetem-me aos sentimentos. Uma traz a alegria e a outra, a tristeza. Assim é a vida. Mas, nos pensamentos posso optar e escolho as cenas de alegria. E com elas, neste nosso encontro, quero irradiar energias positivas para você. É meu desejo que o espírito de amor e fraternidade, presentes aqui e agora, retidos nos meus pensamentos, impregnem o seu cotidiano e que ao lê-las, você possa carregar em seus pensamentos emoções positivas, de esperança e de fé num mundo onde o império seja do Amor.

Norma Emiliano

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Encontro Terapêutico

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“… Solta minhas mãos e segue. ( )… Por longe que te vás, sempre estarás comigo”. 
Cora Torres Maia

Eu e você, o nós; o nosso encontro. Momento impar de disponibilidade; de sair de mim e estar com você. Na sua fala, na minha escuta, na empatia, no nosso diálogo estão os nossos caminhos. Entre suas e minhas histórias enveredamos por estradas. Encontramos lugares desconfortáveis, tristes e solitários. Lugares que trazem muitas recordações e saudades; lugares marcados por lágrimas e mágoas. Lugares que são seus que, às vezes, confundem-se com os meus. Nos fios traçados, os diversos personagens entram e saem de cena, mas você e eu estamos aqui. Com você vem toda a bagagem genética e emocional construída ao longo das diversas gerações que lhe  antecederam; o seu Ser, a sua dor, a sua história. Comigo, o meu ser (pessoal e profissional), a minha história; a paixão por estar aqui. No passo a passo, no seu passo, vamos entrelaçando os fatos, os sentimentos, os comportamentos e montamos o quebra cabeça. No traçado da linha da vida, dados significativos que estruturam a sua identidade e direcionam seu destino. No passo a passo, no seu passo, vamos entrelaçando e separando os personagens, os sentimentos, os comportamentos e os acontecimentos. Entre suas idas e vindas, progressos e retrocessos vão se intercalando.

Neste percurso quantas descobertas! Novos olhares; novos sentimentos.  Separamos e juntamos, juntamos e separamos muitas dores. Abrimos feridas, mas no passo a passo, muitas curamos. Algumas, mesmo tratadas, deixam marcas profundas. Essas servirão de sinais de alerta no seu ponto de equilíbrio.

Ao termino desse caminho que construímos, desse nosso encontro, fica a riqueza de cada Ser, a nossa troca, o nosso crescimento, a reconstrução da sua vida e o reflorescer da minha prática.
Seguiremos vivos em nossas memórias.

Norma Emiliano

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