Iniciando a semana , compartilho a analogia das tourada com as relações humanas feita pela escritora Clara Feldeman, em seu livro Encontro. Ela assinala que na tourada entre as pessoa , uma delas tem o estranho prazer de cravar bandarilhas no peito da outra. Suas hastes pontiagudas aparecem na forma (sutil ou escancarada) de críticas, ofensas agressões verbais (às vezes físicas), sarcasmo, ironias; desrespeitos, competições, deslealdades. (…) mensagens verbais e não verbais) que perfuram, abrem feridas(…) entre uma estocada e outra, uma carícia (…) como barata que morde e sopra. (…) há também a inversão dos papéis: em que o toureiro se transforma em touro e vice-versa, numa alternância doentia sem fim.
A responsabilidade de escolha é de cada um dos envolvidos. ”Não estamos na arena, famintos e ofuscados pela luz do sol (…) Não existe, para nós, a inevitabilidade da morte o touro, (…) temos a força e a sabedoria para escolhermos o melhor: arrancar as bandarilhas, para , enfim viver.
Os conflitos são inerentes ao processo de evolução dos seres humanos.
A relação em família é complexa, pois cada ser humano é singular em relação a sua história, temperamento, idade, composição genética, etc.. No jogo relacional há alianças e luta pelo poder.
Nos diversos relacionamentos, as diferenças individuais quanto às percepções e necessidades emergem, pois cada pessoa forma a sua própria percepção e tem necessidades num determinado momento. Essas diferenças nas relações inter-pessoais tornam-se as bases dos conflitos.
As diferenças, comumente, não são percebidas como oportunidades de enriquecimento e acabam sendo usadas de modo destrutivo. Assim, a diferença que leva a um conflito de interesse (discordância) é percebida como insulto e/ou
O casal ao interagir com os filhos influencia na construção de suas identidades, bem como transmite-lhes modelos de relacionamento que serão levados para todas as áreas de suas vidas: amizade, profissional, amor, etc.
É vital ao bom ambiente familiar que o casal possua uma forte aliança, saiba lidar com seus conflitos, colabore entre si e satisfaça necessidades mútuas. Por outro lado, é importante também que em suas funções de pais, exista apoio à autoridade de cada um dos cônjuges com relação aos filhos.
Pode-se encontrar em qualquer relacionamento permanente, seja ele conjugal, entre pais e filhos, a família como um todo, ou relacionamento da família com outros sistemas sociais, formas de conflitos submersos, não resolvidos. Esse tipo de conflito pode acarretar distância emocional, disfunção física ou psicológica, ou envolvimento em uma aventura amorosa.
Quando há questões mal resolvidas entre o casal, uma ou mais crianças se envolvem no conflito marital, com a função de distrair os pais do conflito. Essa criança fica muito próxima de um ou ambos os pais, e as fronteiras entre as gerações são rompidas. Há uma excessiva dependência mútua e a autonomia da criança e dos pais torna-se limitada.
A falta de comunicação, somada à dificuldade para resolver problemas em conjunto são fatores negativos na criação dos filhos. As divergências dos pais, veladas ou abertas, em relação à educação dos filhos, os deixam confusos e, com freqüência, as crianças usam de manipulações, jogando os pais um contra o outro.
Os conflitos tornam–se mais fáceis de serem enfrentados quando ambos os parceiros compreendem as questões e suas origens. Para tal é necessário cada um entender e aceitar os seus próprios medos, valores, expectativas e proteções e também as do parceiro. Torna-se necessário ter clareza da ligação entre o presente e o passado. A percepção desta conexão possibilita que não se fique apenas repetindo padrões relacionais antigos, ou seja, dando respostas antigas a situações novas, levando para o casamento e para a nova família uma repetição do relacionamento anterior com os seus próprios pais.
Os relacionamentos adultos transferem, quase sem alterações, as características de disputas de poder entre pais e filhos, que cada um dos parceiros anteriormente tivera. Por exemplo, na luta pelo poder, pode-se observar que a mãe, normalmente é a detentora do controle no dia-a-dia; assim, tanto as meninas quanto os meninos podem resistir a isso. Quando adultas, as mulheres podem assumir esse mesmo papel, enquanto os homens transferem resistência às suas mulheres. Nesta luta pelo poder geram-se conflitos. Uma crise séria pode ser o ponto de partida para interromper esse círculo vicioso. Mas uma estratégia duradoura é poder enfrentar os fantasmas do passado.
O segredo familiar aprisiona os indivíduos nas historias por não se poder falar sobre elas. Paralisa o tempo familiar.
O segredo nas palavras de Bernstein (apud Fernández, 1990, p. 101), “trata-se de informações vinculadas com a história do grupo familiar ou aspectos particulares de um de seus membros que, em geral, são ocultados parcialmente, com a certeza de que não são desconhecidos por outros integrantes”. “Complementando, IMBER-BLACK (1994) afirma que” é um fenômeno sistêmico. Ele está ligado ao relacionamento, molda as díades, forma triângulos, aliança encoberta, divisões, rompimentos, define limites de quem está ‘dentro’ e de quem está ‘fora’.
O desconhecimento das origens é considerado por muitos autores como um dos mais maléficos, pois desorientam, principalmente quando o indivíduo está em formação, uma vez que se insere numa complexidade que envolve o intrapsíquico, o psicossocial e o transgeracional, bem como o passado, o presente e o futuro.
Sua construção ocorre a partir de situações relacionadas à vergonha e ao sofrimento que geram pacto de silêncio.
No filme Um segredo em família, o diretor Claude Miller recria o drama e os sentimentos de uma família no decorrer da II Guerra Mundial, num recorte trigeracional. A separação dos membros das famílias pela perseguição aos judeus é o pano de fundo para o desenrolar do roteiro.
O menino, filho do casal desportista, nasce franzino e cresce sem se identificar com o mundo atlético de seus pais. A forma como encontrou de não se sentir como um peixe fora do ninho foi criar para si um irmão imaginário capaz de tudo. Na adolescência, ele percebe que há profundos e tristes motivos que o influenciaram a se sentir tão alijado do padrão dos seus pais. Os motivos que remontam a uma geração de sua origem antes do mundo conhecer os horrores do Nazismo.
Imber-Black (1994), ressalta que “embora o próprio evento possa ser mantido em segredo, a intensidade dos sentimentos em relação a ele dificilmente se disfarça. (p. 76). Uma das conseqüências é o distanciamento emocional entre os membros pelo receio de não se trair. A percepção de que algo se oculta transcende a fala e a força que impele à revelação transforma-se em fantasma trazendo, de alguma forma à tona, sintomas metafóricos.
A revelação do segredo expande as possibilidades de evolução da família levando às mudanças na forma de pensar e agir e interagir.
Norma Emiliano
Referências
FERNÁNDEZ, A. A inteligência aprisionada. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.
IMBER-BLACK et al. Os Segredos na família e na terapia familiar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.
O verbo inglês “bully”, que significa usar a superioridade física para intimidar alguém, deu origem ao termo “bullying”. Há um pensamento restrito, por parte de algumas pessoas, sobre o bullying ao considera – lo como uma prática de atribuir apelidos pejorativos às pessoas e exclusiva do contexto escolar. Seu conceito é amplo e envolve abuso psicológico, físico e social e ocorre em vários ambientes, causando dor e angústia.
É um problema mundial. Os autores, normalmente, pertencem a famílias desestruturadas e com pouca afetividade entre os membros, com pais que oferecem a violência ( cenas de abuso de autoridade e desrespeito) como modelo. Os alvos são pessoas ou grupos que não possuem recursos, habilidades ou posição para reagir. Há o domínio de sentimento de insegurança, com baixa auto-estima e desesperançadas por não se sentirem adequados.
Há uma crescente preocupação com esta questão social, pelo aumento considerável de atos de violências, principalmente nas escolas. Por outro lado, a competitividade estimulada socialmente é um fator de indução à violência, em suas diversas áreas.
Já temos, no Brasil, no Rio Grande do Sul, uma lei que foi sancionada “que obriga as escolas públicas e privadas a desenvolver ações permamentes de prevenção a atos de intimidação entre estudantes e de identificação rápida de casos de bullying”. (JCNET/2010)
Em minha participação anterior na blogagem coletiva sobre esta temática, ressalto as corresponsabilidades que configuram esta questão.
Afirmar que “Chega de Bullying” é a nossa proposta, hoje, nesta corrente de intenções, mas é obvio que há a necessidade de ações e políticas sociais que combatam suas raízes, ou seja, laços familiares saudáveis, estimulo ao valor dos esforços e diminuição das desigualdades sociais.
Esta é a minha participação na Blogagem Coletiva, Chega de bullying, do Blog Mãe é tudo igual.
As doenças encontram na cultura a forma de se expressar
Na mesa farta, a família encontra-se reunida. A freqüência diária desta reunião ocorre à noite e é constante a ansiedade gerada por Paula, que mexe e remexe o prato enquanto todos já terminaram. Nas consultas ao clínico, os pais são orientados em relação ao estado de desnutrição da adolescente. A partir daí, várias análises foram realizadas por profissionais de diversas áreas (psiquiatria, nutrição, endocrinologia e terapia familiar).
È freqüente a associação dos transtornos alimentares à modernidade, tendo em vista à moda, realçada principalmente pela mídia, que traz a magreza como padrão de beleza. Contudo, doenças do comportamento alimentar refletem a confluência entre os fatores psicológicos, biológicos e sócio-culturais e seu tratamento integra vários níveis de análises (padrões alimentares, problemas interpessoais, familiares e psicopatologia). Faz- se necessária, portanto, uma abordagem global e integradora.
Na história de família de cada um dos membros que constitui o casal há fios que pouco a pouco foram tecidos e trazem o alimento como fonte de amor e as refeições como representação da união familiar. Paula, a primeira filha, já em bebê, apresentou rejeição à lactose acarretando ansiedade aos pais por não conseguirem alimentá-la normalmente.
O funcionamento psicológico de uma pessoa está ligado à estrutura à qual pertence. As interações e trocas inconscientes entre os membros podem determinar perturbação psíquica em um dos membros, assim como a forma que essa tomará e como ela se desenvolverá. Nesse sentido, o terreno da patologia, como diz Minuchin (1982), é a família.
Alimentá – la passou a ser um objetivo a ser perseguido. Os outros filhos, cada um com suas características, passaram a competir com a atenção dos pais, dificultando assim a comunicação entre a irmandade. Nos momentos de maior estresse, Paula recusava-se a se alimentar e todas as atenções se voltavam para ela.
O funcionamento familiar é um elemento central na determinação, manutenção e/ou desenvolvimento dos Transtornos Alimentares. Eventos ocorridos na família (briga do casal, morte ou nascimento, etc.) podem anteceder aos Transtornos Alimentares.
Paula aliançava-se com a mãe em detrimento do pai, que era considerado pela esposa excessivamente autoritário e controlador. Ele vigiava cada alimento que Paula comia e pai e filha constantemente se atritavam.
A história familiar da infância e da puberdade precisa ser levantada com o doente e seus familiares, permitindo a reconstrução de memória dos familiares que comporta preocupações, atitudes face ao padrão alimentar, mitos, lealdades e a auto-imagem corporal ao longo do desenvolvimento.
No decorrer da Terapia Familiar, os conflitos do casal e suas diferenças vieram à tona e o casal pôde fazer acordos e negociações que privilegiaram a relação conjugal totalmente esquecida. Uniram-se para realizar mudanças de atitudes em relação ao padrão familiar (família bem alimentada e unida), conseguindo sair da “massa indiferenciada” e ver a individualidade de cada filho. Paula pode seguir enfrente, cuidando de si própria, ampliando a rede de amizade e terminando seu curso.
Na abordagem familiar procura-se a reconstrução de memórias, a contenção da crise familiar, clarificação e reorganização das fronteiras dos diversos subsistemas (paterno, conjugal, irmandade), definição dos papéis de cada um dos membros preparando os membros para mudanças.
Os sintomas das doenças vistos como metáforas abrem portas para o autoconhecimento e proporciona oportunidades para o crescimento individual e familiar.
Bibliografia
- Organização Mundial de Saúde. Classificação de transtornos mentais e de comportamento da Cid-10. Descrições clínicas e diretrizes diagnósticas. Porto Alegre: Artes Médicas; 1993. p. 351.
- MINUCHIN, S. Famílias: Funcionamento e Tratamento. Trad. J.A. Cunha. Porto Alegre, Ed. Artes Médicas, 1982.
Nesta participação na Blogagem coletiva Vida Simples com o subtema Lugar, escolhi me reportar há um tempo passado, a um importante lugar da minha trajetória de vida.
VIDA NO INTERIOR
Numa etapa da minha vida, vivi no interior por 13 anos. Moça urbana, cansada da vida dos grandes centros, tomei a decisão de sair do colo da família de origem e ousar novos voos em direção à construção do meu próprio núcleo familiar.
Cidadezinha do interior, cortada pelo rio Paraíba, circundada de fazendas e morros e com belas praças .
Foram tempos nos quais usufrui da simplicidade que a vida nos oferece.
Manhãs desperta pelo canto do galo, dos pássaros e sino da Igreja. Manhãs de bolo de milho, de leite vindo do curral , de queijos e manteigas com o gostinho do quero mais.
Ah! as crianças. Carinhas amassadas, lentidão no despertar preguiçoso. Merendas postas na mochilas, uniformes impecáveis, os beijos e o até logo mais…..
Entre filhos, marido, amigos, trabalho, livros e música, a vida transcorria lentamente. Algumas vezes acrescida de uma festa na vizinhança ou bailes na comunidade. Tempo para amar, trabalhar e brincar.
O rio corria manso, os anzóis fisgavam peixes, alegrando a criançada e os adultos. Domingo de festa na fazenda.. Homens falando de jogo e contando piadas; as mulheres “tagarelando” e arrumando a mesa com os quitutes e as crianças correndo de um lado para o outro até cansar. Vida simples, tranqüila, de um dia após o outro sem a espera do final de semana para reunir a família.
Lembranças vivas dos jardins floridos, da sombra das mangueiras, das frutas retiradas das árvores, da brisa fresca, do sol se pondo, da alegria do abraço e dos beijos, das estrelas brilhantes, da rede que nos embalava no descanso enquanto a noite dava boas vindas ao sono reparador.
Tantos afetos e muita natureza no simples fato do VIVER.
Para fechar com chave de ouro, reproduzo o poema de Cecília Meirelles.
O meu pomar
Se eu tivesse um pomar, um pequeno pomar que fosse, não lhe poria grades à roda,
como os outros proprietários. Não poria, a guardá-lo, um desses cães enormes,
rancorosos, que andam sempre rondando os pomares …
O meu pomar seria assim: toda aberto, para todos. E, quando o outono chegasse e
as árvores ficassem cheias de frutos amarelos e vermelhos, nenhum pobrezinho teria
fome, nenhuma criança choraria de sede, passando pelo meu pomar …
E, no inverno, ainda haveria lá onde alguém se abrigasse, quando chovesse muito ou
fizesse muito frio …
Se eu tivesse um pomar, ele estaria sempre em festa, cheio de borboletas e de
pássaros …
Como eu seria feliz, se tivesse um pomar ! .
Cecília Meireles
Do livro: CRIANÇA MEU AMOR
Este post é para a Blogagem Coletiva Vida Simples, promovida pelo blogMila’s Ville.
“Já não sei em que data estamos. Lá em casa não há calendários e na minha memória as datas estão todas misturadas. Me recordo daquelas folhinhas grandes, uns primores, ilustradas com imagens dos santos que colocávamos no lado da penteadeira. Já não há nada disso. Todas as coisas antigas foram desaparecendo. E sem que ninguém desse conta, eu me fui apagando também…
Primeiro me trocaram de quarto, pois a família cresceu. Depois me passaram para outro menor ainda com a companhia de minhas bisnetas. Agora ocupo um desvão, que está no pátio de trás. Prometeram trocar o vidro quebrado da janela, porém se esqueceram, e todas as noites por ali circula um ar gelado que aumenta minhas dores reumáticas. Mas tudo bem…
Desde há muito tempo tinha intenção de escrever, porém passava semanas procurando um lápis. E quando o encontrava, eu mesma voltava a esquecer onde o tinha posto. Na minha idade as coisas se perdem facilmente: claro, não é uma enfermidade delas, das coisas, porque estou segura de tê-las, porém sempre desaparecem.
Noutra tarde dei-me conta que minha voz também tinha desaparecido. Quando eu falo com meus netos ou com meus filhos não me respondem. Todos falam sem me olhar, como se eu não estivesse com eles, escutando atenta o que dizem. As vezes intervenho na conversação, segura de que o que vou lhes dizer não ocorrera a nenhum deles, e de que lhes vai ser de grande utilidade.
Porém não me ouvem, não me olham, não me respondem. Então cheia de tristeza me retiro para meu quarto e vou beber minha xícara de café. E faço assim, de propósito, para que compreendam que estou aborrecida, para que se dêem conta que me entristecem, venham me buscar e me peçam perdão. Porém, ninguém vem.
Quando meu genro ficou doente, pensei ter a oportunidade de ser-lhe útil. Levei-lhe um chá especial que eu mesma preparei. Coloquei-o na mesinha e me sentei a esperar que o tomasse, só que ele estava vendo televisão e nem um só movimento me indicou que se dera conta da minha presença. O chá pouco a pouco foi esfriando e junto com ele, meu coração.
Então, noutro dia disse-lhes que quando eu morresse todos iriam se arrepender. Meu neto menor disse:“Ainda estás viva vovó? “. Eles acharam tanta graça,que não pararam de rir. Três dias estive chorando no meu quarto, até que numa manhã entrou um dos rapazes para retirar umas rodas velhas e sequer um bom dia me deu.
Foi aí que me convenci de que sou invisível. Parei no meio da sala para ver, se me tornando um estorvo me olhavam. Porém minha filha seguiu varrendo sem me tocar, os meninos correram em minha volta, de um lado para o outro, sem tropeçar em mim.
Um dia, os meninos se agitaram e vieram me dizer que no dia seguinte todos nós iríamos passar um dia no campo. Fiquei muito contente. Fazia tanto tempo que não saía e mais ainda ia ao campo!
No sábado fui a primeira a me levantar. Quis arrumar as coisas com calma. Nós os velhos tardamos muito em fazer qualquer coisa. Assim, adiantei meu tempo para não atrasá-los. Rápido entravam e saíam da casa correndo e levavam as bolsas e brinquedos para o carro.
Eu já estava pronta e muito alegre. Permaneci no saguão a esperá-los. Quando me dei conta, eles já tinham partido e o auto desapareceu envolto em algazarra. Compreendi que eu não estava convidada. Talvez porque não coubesse no carro… Quem sabe?
Ou quem sabe, porque meus passos tão lentos impediriam que todos os demais caminhassem a seu gosto pelo bosque. Senti claro como meu coração se encolheu e a minha face ficou tremendo como quando a gente tem que engolir a vontade de chorar.
Eu até entendo. Eles vivem o mundo deles. Riem, gritam, sonham, choram, se abraçam, se beijam. E eu, já nem sinto mais o gosto de um beijo. Antes beijava os pequeninos, era um prazer enorme tê-los em meus braços,como se fossem meus.
Sentia sua pele tenrinha e sua respiração doce bem perto de mim. A vida nova me produzia um alento e até me dava vontade de cantar canções que nunca acreditara me lembrar. Porém um dia minha neta Laura, que acabava de ter um bebê disse que não era bom que os anciãos beijassem aos bebês, por questões de saúde.
Desde então já não me aproximo deles, não quero lhes passar algo mal por minhas imprudências. Tenho tanto medo de contagiá-los ! Eu os bendigo a todos, todos os dias e lhes perdôo, porque…”
“Que culpa têm eles de que eu me tenha tornado i n v i s í v e l ?”
Texto Original – El dia que me volvi invisible, de Silvia Castillejon Peral
Adaptado e produzido pela Helsan Produções
O texto acima retrata o cotidino cruel de uma pessoa idosa que pouco a pouco foi se sentindo à margem da família e da sociedade.
Em algumas culturas a velhice é vista com respeito e veneração. No entanto, na sociedade urbana moderna, com seu ritmo acelerado, marginaliza aqueles que não o acompanha. Por outro lado, o saber científico desconsidera a experiência de vida e a tradição em favor de outras formas de se determinar a verdade.
A cada ano, o número de pessoas idosas aumenta com um prognóstico de que em 2050 esse número aumentará em aproximadamente de 600 milhões a quase 2 bilhões.
Você considera que é preciso revalorizar o papel dos idosos na nossa sociedade? O que você espera da sua velhice?
NEWoceanflower2008 — 1 de dezembro de 2008 — musica: ERNESTO CORTAZAR – Corazon Solitario
Quando me dispus participar da blogagem coletiva criada por Karla do blog Misturação sobre o bullying, não sabia ao certo de que forma abordá-lo, pois alguns autores têm escrito sobre esta temática. Então, considerei como ponto de partida a premissa na qual me baseio para atender as famílias que me procuram para tratamento e/ou orientação ou seja, a família constrói a atmosfera do lar através das interações relacionais e este é o modelo que o indivíduo leva para todos os demais contextos (escola, clube, internet, entre outros). É nesse contexto que a criança constrói a sua auto-estima e se socializa.
Bullying é nome que se dá ao tipo de comportamento universal de violência, que está relacionado a uma forma de afirmação de poder através de atitudes onde a agressividade é intencional e repetitiva.
Normalmente, crianças até os 3 anos expressam comportamentos considerados agressivos (empurrar, morder, arranhar, etc.), tendo em vista que ainda não aprenderam a controlar os sentimentos de desagrado. Outro aspecto é a necessidade de chamar a atenção. Este aprendizado é dado pelos pais ou substitutos e educadores que são os responsáveis em dar limites e interferir nas diversas situações.
A manutenção do hábito agressivo é realizada, algumas vezes, pelos pais. Eles não percebem que algumas atitudes, como por exemplo, o bebê bater no rosto dos pais, não podem ser encaradas com engraçadas, pois a criança entende como aprovação.
Atitudes simples (conter a mão da criança, dar explicações sobre conseqüências da ação, demarcar o desagrado com pequenos castigos e outras) constroem limites para a criança. Portanto, é de bebê que se ensina a contenção dos ímpetos agressivos.
Quando isto não acontece este comportamento tende a continuar na sociedade, levando a rejeição de um lado e a junção entre os grupos em que impera a violência.
Um agravante para a construção da agressão entre os jovens é a família cuja forma de comunicação é realizada através da agressividade constante e com pais sem condições de serem o porto seguro para seus filhos, inclusive por divergência de opiniões sobre a educação.
Família e sociedade influenciam-se mutuamente. Portanto cabe a cada um de nós fazer sua parte, buscando uma postura na qual a gentileza, o respeito e o amor sejam o tripé para tempos melhores.
Fontes
WATZLAWICK, P. et al.Pragmática da comunicação humana. São Paulo: Cultrix, 1973
LOPES NETO, A.A. Bullying: comportamento agressivo entre estudantes. Jornal de Pediatria Online. Vol. 81, nº 5 (supl.), p. 164-172, 2005.
A família é a principal responsável pelo desenvolvimento humano.
Como vai a sua família?
Qual o tipo de convivência familiar estamos oferecendo aos nossos filhos?
Em nosso cotidiano, estamos propiciando vínculos permeados de afetividade, tolerância, diálogo, acordo, reciprocidade e acolhimento?
Cada pessoa traz em si a marca da sua família. A convivência familiar na qual façam parte a tolerância, o afeto, a compreensão, o aconchego e o amor proporciona condições para a formação de pessoas capazes de lidar com os desafios da vida e a ter relacionamentos saudáveis.
A família é uma rede complexa de relações e emoções”. (Gameiro 1992)
O sonho de quase todos os casais é formar uma família, ou seja, ter filhos. E todos pensam em filhos saudáveis, com condições para seguirem o ciclo natural da vida.
A chegada de um novo membro na família sempre traz mudanças estruturais no seu núcleo. Na transição para a parentalidade ocorre a mudança das identidades individuais de marido e mulher para as de pai e mãe, assim como o relacionamento de casal muda para o de unidade familiar.
O nascimento de uma criança deficiente força a família a confrontar seus próprios sonhos e aspirações com as idealizações a respeito do seu filho. A flexibilidade da família ao lidar com o evento está relacionada às experiências prévias, aprendizado e personalidade dos seus membros.
As reações são as mais diversas, no entanto a vida de cada um dos membros sofre modificações a partir do momento em que se conhece esta realidade. O período de adaptação varia de família para família. No primeiro momento, o choque inicial gera incapacidade de raciocínio, seguido da ambiguidade de sentimentos (rejeição, frustração, culpa, raiva, desânimo, entre outras). Só com o tempo os pais conseguem se reorganizar emocionalmente e possivelmente aceitar. Algumas vezes a situação difícil não gera resultados negativos, pode ser uma experiência enriquecedora.
Em relação à irmandade, autores citam como aspectos positivos: os irmãos demonstrarem aumento na maturidade, responsabilidade, altruísmo, tolerância, preocupações humanitárias, senso de proximidade na família, autoconfiança e independência. Outros citam como aspecto negativo que irmãos de deficientes podem estar expostos a cobranças excessivas que se disseminam por outras áreas de suas vidas
Todas as famílias passam por diversas etapas em seu ciclo vital (entrada e saída de um membro, adolescência, etc.). Contudo, famílias com filhos deficientes enfrentam momentos de grande tensão, como por exemplo, os descritos Mackeith (1973 ) citado por Powell e Ogle (1991).
- quando chega o momento de proporcionar educação à criança há necessidade de encarar as possibilidades escolares;
- quando a criança deixa a escola e tem necessidade de enfrentar as confusões e frustrações pessoais como todos os outros adolescentes;
- quando os pais envelhecem e não podem dar continuidade de assumir a responsabilidade de cuidar do seu filho.
Alguns autores assinalam que os altos níveis de estresse estão relacionados a baixos níveis de progresso, ao comportamento social e ao aumento dos cuidados necessários, não se podendo deixar de mencionar as condições sócio-econômicas da família, uma vez que a limitação da criança pode exigir gastos incompatíveis com a renda familiar.
Alguns casais não sobrevivem à presença de um filho com limitações e se separam; outros, pelo contrário, mantém-se unidos na luta pela superação. Um dos fatores negativos consiste no preconceito que acaba levando ao isolamento social.
A família é o principal local da aprendizagem e da construção da auto-estima, portanto o desenvolvimento de uma identidade positiva de uma criança deficiente será proporcional à maneira como cada um dos membros interage um com o outro.
Referência bibliográfica
NICHOLS, M. (1984). Terapia Familiar- Conceitos e Métodos, New York: Gardner
POWELL, T.; OGLE, P. (1991). El Niño Especial: El Papel de los Hermanos en su Educación. Barcelona: Editorial
Olá.
Sou Norma Emiliano,Terapeuta de Família. Faço atendimentos clínicos há 16 anos.Tenho paixão pelo que faço. Minhas experiências profissionais constituem a base das minhas reflexões sobre as mudanças ocorridas na sociedade e suas repercussões nos indivíduos, nas relações interpessoais e, principalmente, no interior das famílias.
Neste blog, convido o internauta a ler, refletir e a trocar idéias sobre assuntos que dizem respeito à família.