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Viagem ao túnel do tempo

discoradio

                                                                                                     

Recebi de uma pessoa amiga e compartilho, sem saudosismo, rs,rs,.

Aos mais antigos para recordarem e aos mais novos conhecerem, pois faz parte da nossa cultura.

  

Vou-me Embora pro Passado

Jessier Quirino
Composição: Jessier Quirino

 

Vou-me embora pro passado
Lá sou amigo do rei
Lá tem coisas “daqui, ó!”
Roy Rogers, Buc Jones
Rock Lane, Dóris Day
Vou-me embora pro passado.

Vou-me embora pro passado
Porque lá, é outro astral
Lá tem carros Vemaguet
Jeep Willes, Maverick
Tem Gordine, tem Buick
Tem Candango e tem Rural.

Lá dançarei Twist
Hully-Gully, Iê-iê-iê
Lá é uma brasa mora!
Só você vendo pra crê
Assistirei Rim Tim Tim
Ou mesmo Jinne é um Gênio
Vestirei calças de Nycron
Faroeste ou Durabem
Tecidos sanforizados
Tergal, Percal e Banlon
Verei lances de anágua
Combinação, califon
Escutarei Al Di Lá
Dominiqui Niqui Niqui
Me fartarei de Grapette
Na farra dos piqueniques
Vou-me embora pro passado.

No passado tem Jerônimo
Aquele Herói do Sertão
Tem Coronel Ludugero
Com Otrope em discussão
Tem passeio de Lambreta
De Vespa, de Berlineta
Marinete e Lotação.

Quando toca Pata Pata
Cantam a versão musical
“Tá Com a Pulga na Cueca”
E dançam a música sapeca
Ô Papa Hum Mau Mau
Tem a turma prafrentex
Cantando Banho de Lua
Tem bundeira e piniqueira
Dando sopa pela rua
Vou-me embora pro passado.

Vou-me embora pro passado
Que o passado é bom demais!
Lá tem meninas “quebrando”
Ao cruzar com um rapaz
Elas cheiram a Pó de Arroz
Da Cachemere Bouquet
Coty ou Royal Briar
Colocam Rouge e Laquê
English Lavanda Atkinsons
Ou Helena Rubinstein
Saem de saia plissada
Ou de vestido Tubinho
Com jeitinho encabulado
Flertando bem de fininho.

E lá no cinema Rex
Se vê broto a namorar
De mão dada com o guri
Com vestido de organdi
Com gola de tafetá.

Os homens lá do passado
Só andam tudo tinindo
De linho Diagonal
Camisas Lunfor, a tal
Sapato Clark de cromo
Ou Passo-Doble esportivo
Ou Fox do bico fino
De camisas Volta ao Mundo
Caneta Shafers no bolso
Ou Parker 51
Só cheirando a Áqua Velva
A sabonete Gessy
Ou Lifebouy, Eucalol
E junto com o espelhinho
Pente Pantera ou Flamengo
E uma trunfinha no quengo
Cintilante como o sol.

Vou-me embora pro passado
Lá tem tudo que há de bom!
Os mais velhos inda usam
Sapatos branco e marrom
E chapéu de aba larga
Ramenzone ou Cury Luxo
Ouvindo Besame Mucho
Solfejando a meio tom.

No passado é outra história!
Outra civilização…
Tem Alvarenga e Ranchinho
Tem Jararaca e Ratinho
Aprontando a gozação
Tem assustado à Vermuth
Ao som de Valdir Calmon
Tem Long-Play da Mocambo
Mas Rosenblit é o bom
Tem Albertinho Limonta
Tem também Mamãe Dolores
Marcelino Pão e Vinho
Tem Bat Masterson, tem Lesse
Túnel do Tempo, tem Zorro
Não se vê tantos horrores.

Lá no passado tem corso
Lança perfume Rodouro
Geladeira Kelvinator
Tem rádio com olho mágico
ABC a voz de ouro
Se ouve Carlos Galhardo
Em Audições Musicais
Piano ao cair da tarde
Cancioneiro de Sucesso
Tem também Repórter Esso
Com notícias atuais.

Tem petisqueiro e bufê
Junto à mesa de jantar
Tem bisqüit e bibelô
Tem louça de toda cor
Bule de ágata, alguidar
Se brinca de cabra cega
De drama, de garrafão
Camoniboi, balinheira
De rolimã na ladeira
De rasteira e de pinhão.

Lá, também tem radiola
De madeira e baquelita
Lá se faz caligrafia
Pra modelar a escrita
Se estuda a tabuada
De Teobaldo Miranda
Ou na Cartilha do Povo
Lendo Vovô Viu o Ovo
E a palmatória é quem manda.

Tem na revista O Cruzeiro
A beleza feminina
Tem misse botando banca
Com seu maiô de elanca
O famoso Catalina
Tem cigarros Yolanda
Continental e Astória
Tem o Conga Sete Vidas
Tem brilhantina Glostora
Escovas Tek, Frisante
Relógio Eterna Matic
Com 24 rubis
Pontual a toda hora.

Se ouve página sonora
Na voz de Ângela Maria
“— Será que sou feia?
— Não é não senhor!
— Então eu sou linda?
— Você é um amor!…”

Quando não querem a paquera
Mulheres falam: “Passando,
Que é pra não enganchar!”
“Achou ruim dê um jeitim!”
“Pise na flor e amasse!”
E AI e POFE! e quizila
Mas o homem não cochila
Passa o pano com o olhar
Se ela toma Postafen
Que é pra bunda aumentar
Ele empina o polegar
Faz sinal de “tudo X”
E sai dizendo “Ô Maré!
Todo boy, mancando o pé
Insistindo em conquistar.

No passado tem remédio
Pra quando se precisar
Lá tem Doutor de família
Que tem prazer de curar
Lá tem Água Rubinat
Mel Poejo e Asmapan
Bromil e Capivarol
Arnica, Phimatosan
Regulador Xavier
Tem Saúde da Mulher
Tem Aguardente Alemã
Tem também Capiloton
Pentid e Terebentina
Xarope de Limão Brabo
Pílulas de Vida do Dr. Ross
Tem também aqui pra nós
Uma tal Robusterina
A saúde feminina.

Vou-me embora pro passado
Pra não viver sufocado
Pra não morrer poluído
Pra não morar enjaulado
Lá não se vê violência
Nem droga nem tanto mau
Não se vê tanto barulho
Nem asfalto nem entulho
No passado é outro astral
Se eu tiver qualquer saudade
Escreverei pro presente
E quando eu estiver cansado
Da jornada, do batente
Terei uma cama Patente
Daquelas do selo azul
Num quarto calmo e seguro
Onde ali descansarei
Lá sou amigo do rei
Lá, tem muito mais futuro
Vou-me embora pro passado.

 

 Então gostou?  De tudo que leu o que lhe agradou mais?

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“Canção de amor”

 

“Em cada Casa uma Canção, em cada Canção uma Saudade”  

 

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Conservatória, lugar das Canções de Amor,  nas Noites de Luar

 

Estive por estes dias em Conservatória, no Estado do Rio de Janeiro, situada a uma altitude de 518 metros. Limita-se com o estado de Minas Gerais, distritos de Santa Isabel do Rio Bonito, Parapeúna, Pentagna, Valença e com o município de Barra do Piraí.

Foi fundada em 1789. Dentre as histórias que justificam o  seu nome, a mais contada é que o lugar era  conhecido como “Conservatório dos índios, Araris.

Com a  colonização o povoado teve o  nome de Santo Antonio do Rio Bonito pelo rio que o atravessa e em homenagem ao padroeiro. Contudo, a tradição indigina marcou e o nome ficou sendo Conservatória.

A cultura do café foi a principal atividade econômica e as centenárias construções da vila, estilo colonial, foram preservadas e as ruas principais mantêm as pedras pé-de-moleque originais da construção. Por outro, lado a prosperidade econômica do séc. XIX deu origem a outra tradição da vila: serenatas, que são músicas cantadas sob o sereno, que se transformaram no principal ponto turístico da região.

Assim, encontra-se lá o Museu da Seresta que mantém viva uma página da cultura musical brasileira, reunindo os seresteiros todos os fins de semana (sextas e sábados) a partir das 23 horas, que de lá saem para cultivar o hábito.

São 132 anos de serenatas. Segundo a história esta  tradição nasceu com um romântico professor de música e tocador de violino, Andreas Schmidt, que, em uma noite enluarada no silêncio do vilarejo, atraiu espectadores e transformou em   rotina tocar seu violino na praça, nas noites estreladas. Com isto, pouco a pouco, músicos vindos de outros lugares passaram a acompanhar as serenatas do professor, e essa virou uma característica incorporada ao lugar.
 
Histórias de grandes paixão também são associadas à Conservatória.  Conta-se  que em 1938, um abastado fazendeiro de Santa Isabel, distrito vizinho, que vivia uma paixão não correspondida por uma moça de Conservatória, resolveu demonstrar seu amor conforme a tradição. Colocou seu piano de cauda em cima de um caminhão só para tocar e cantar sob a janela da amada. Segundo os boatos,  este gesto deu resultado, e a moça aceitou -o como esposo.

Esta é uma cidade que mantem suas características simples e tranquila, cujos moradores cultuam seus costumes e se reunem para preservar, principalmente,  as serestas que atraem os turistas.

Nos fins de semana, há uma feirinha de artesanato na pracinha perto do Empório, onde ficam expostos doces, chapéus, Cds, artesantos e licores.

Um dos símbolos da história do lugar encontra-se  na entrada na cidade: a antiga “Maria Fumaça”, da Rede Mineira de Viação, que puxava os vagões de passageiros e também o trem com a produção de café, hoje estacionada em frente à antiga Estação Ferroviária de Conservatória.

As cachoeiras, as fazendas  centárias (São Bernardo, Santa Clara, Florença, entre outras) com seus  encantos naturais, constituem outros pontos de atração aos visitantes.

 Conhecer esta cidade nos faz viajar no túnel do tempo e absorver o encantamento da vida através das beleza musical e das demais  artes locais.

Valeu a pena este passeio e recomendo.

 

 

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Demolições e histórias

 

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    Imagem Internet

 

 Quem não se recorda de sua primeira moradia? São lembranças preciosas de momentos de descobertas, de intensidade de emoções. Móveis, quadros, objetos e cômodos ficam tão registrados no inconsciente que ao se fecharem os olhos, ao se recordarem cenas familiares antigas, é possível sentir cheiros e ouvir ruídos. Enfim, são memórias de um tempo, marcas de uma história. Para Bachelard (1990. p.89) “é impossível escrever a história do inconsciente humano sem escrever uma história da casa”. A memória constitui-se através da relação significativa com parentes, vizinhos, pelos objetos pessoais, livros etc.. É um fenômeno construído socialmente.

Hoje, é impressionante o número de residências, casas antigas colocadas abaixo em nome da modernidade. As marretas e tratores ensurdecem os ouvidos e doem na alma. Os edifícios tomam seus espaços. A importância histórico-arquitetônica não é valorizada e as famílias, sem se darem conta, perdem parte das suas histórias. Por outro lado, não há interesse do poder público em relação à qualidade de vida da comunidade nem à memória histórica, bem como  não há um correlato planejamento urbano (esgoto, alargamento das ruas).
 
Que caminhos trilhados são esses?  A sociedade passivamente acompanha as derrubadas; algumas pessoas utilizam, hoje, para o comércio (do designer ao comércio de objetos e à realização de eventos) belas mansões que no passado pertenciam às famílias tradicionais. Essas moradias poderiam ser restauradas e funcionarem como espaço cultural. È lamentável constatar a perda da memória histórica, da inexistência de registros dos antigos imóveis.

A localização de uma lembrança “necessita o desenrolar fios de meadas diversas, pois ela é um ponto de encontro de vários caminhos, é um ponto complexo de convergência dos muitos planos do nosso passado” (Bosi, 1994, p. 413). Dessa forma, tudo isso me remete às dores observadas em algumas pessoas e famílias, quando por exemplo, após a morte de ancestrais, ocorre  venda da casa pelos filhos. Quanto sofrimento ao abandonar suas recordações! Na realidade as demolições nos reportam ao desgaste de um tempo, à morte daqueles que ardentemente desejamos manter na memória. Na “memória emocional vivemos como se todos que amamos devessem, no fastígio da nossa idade, viver juntos, morar juntos” (Bachelard, 1988, p. 116).

 

Referências

BACHELARD, Gaston. A Poética do devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 1988.
___________________A Terra e os devaneios do repouso: ensaio sobre as imagens da intimidade. São Paulo: Martins Fontes, 1990.

BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Cia. das Letras, 1994.

 Norma

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