Posts Tagged conto

“O sorvete”

 1101

Google Imagem

 

“Quando chegamos ao colégio em 1916, a capital tinha apenas cinqüenta mil habitantes. Algum comércio, entre eles um cinema, e uma confeitaria.

Eu tinha onze anos, e Joel treze, o que dava a ele uma autoridade natural sobre mim. Um irmão, um exemplo, protetor. Fui ao colégio por uma idéia de meu pai, o Coronel Juca, dos Caldeira Lemos, o que achou correto também a seu filho, os Mendonça. Tínhamos apenas um dia livre, o domingo, isto se mostrássemos bom comportamento durante a semana. O dinheiro era pouco, por recomendação do próprio internato aos pais, e ficava às suas mãos.

Em certo domingo em meio ao passeio, pouco antes de entrarmos ao cinema, visitamos a confeitaria. Escrito com giz branco em um quadro negro: “ Hoje, Delicioso sorvete de abacaxi; Especialidade da casa; Hoje! ” O anúncio cativou-me, de tal forma que me emocionou. Mostrei a Joel o escrito a giz, ele pareceu indiferente, mas sabia que também havia sido tocado, com a idéia súbita de tomar sorvete de abacaxi.

Porém como havíamos combinado ir ao cinema, Joel disse:

- “ A gente já tinha resolvido ir ao cinema, agora o jeito é ir. O sorvete fica para o domingo que vem. ”

O filme não guardava nossa atenção. Eu observando em Joel algum sinal de frustração. Não sei se por arrependimento; insatisfação, aventura, ou volubilidade, falou-me:

-   ‘Vamos lá, vamos?…’

Fomos. Nunca havíamos sequer experimentado uma pedra de gelo na boca. O garçom colocou sobre uma toalhinha dois copos cheios de água, dois guardanapos de papel, e duas pequenas taças de vidro, em cada uma meia esfera de algo brilhante.

Que decepção. Foi horrível. Em nossas faces toda a expectativa desfez-se. Nos rostos a expressão do asco. Nenhum vestígio de abacaxi, só a dor causada pelo frio.

 De repente perante os olhares maliciosos dos freqüentadores, do garçom, do caixa: Eram só cobrança, quase de uma natureza moral…

 Desisti antes de Joel à dor de tal coisa gelada. Porém em função de nossos nomes, daquilo que recebemos no berço, e que temos o dever de perpetuar junto a nossos filhos -  Joel: “ Acabe com isso se não quer ficar desmoralizado. ”

A situação mudara um pouco, tomar o sorvete, do qual se perdeu todo o lirismo, transformado em dor, era agora uma obrigação. E assim o fizemos, tomamos, o mais rápido que podíamos.

 Ao acabarmos os olhos de Joel eram outros, agora aprobativo e cordial. O garçom aproximou-se, Joel perguntou quanto era.

            O dinheiro faltou.

Autor Carlos Drummond de Andrade – em Antologia de Contos Brasileiros

Fonte

Resumo por Fernao Cordeiro  em http://pt.shvoong.com/books/novel-novella/1839697-sorvete/

 

A adolescência é um momento de descoberta e definição da identidade.  O medo da opinião do outro caracteriza esta fase da vida. Neste conto, podemos identificar o dilema dos jóvens despertados pela curiosidade e consequentes sentimentos:   expectativa, decepção,  frustração, vergonha  e sofrimento.

Você teria em sua história algo semelhante para compartilhar?

Tags: ,

Compartilhar “A parábola dos talentos”

parabola-dos-talentos

Uma bela metáfora sobre o cuidado pessoal que  li  e  compartilho com você leitor

“Havia um homem muito rico, possuidor de vastas propriedades, que era apaixonado por jardins. Os jardins ocupavam o seu pensamento o tempo todo e ele repetia sem cessar: “O mundo inteiro ainda deverá se transformar num jardim. O mundo inteiro deverá ser belo, perfumado e pacífico. O mundo inteiro ainda se transformará num lugar de felicidade.” Suas terras eram uma sucessão sem fim de jardins, jardins japoneses, ingleses, italianos, jardins de ervas, franceses. Era um trabalhão cuidar dos jardins. Mas valia a pena pela alegria. O verde das folhas, o colorido das flores, as variadas simetrias das plantas, os pássaros, as borboletas, os insetos, as fontes, as frutas, o perfume…

Sozinho ele não daria conta. Por isso anunciou que precisava de jardineiros. Muitos se apresentaram e foram empregados. Aconteceu que ele precisou fazer uma longa viagem. Iria a uma terra longínqua comprar mais terras para plantar mais jardins. Assim, chamou três dos jardineiros que contratara, Paulo, Hermógenes e Boanerges e lhes disse: “Vou viajar. Ficarei muito tempo longe. E quero vocês cuidem de três dos meus jardins. Os outros, já providenciei quem cuide deles. A você, Paulo, eu entrego o cuidado do jardim japonês. Cuide bem das cerejeiras, veja que as carpas estejam sempre bem alimentadas… A você, Hermógenes, entrego o cuidado do jardim inglês, com toda a sua exuberância de flores pelas rochas… E a você, Boanerges, entrego o cuidado do jardim mineiro, com romãs, hortelãs e jasmins.” Ditas essas palavras ele partiu. O Paulo ficou muito feliz e pôs-se a cuidar do jardim japonês. O Hermógenes ficou muito feliz e pôs-se a cuidar do jardim inglês. Mas o Boanerges não era jardineiro. Mentira ao se oferecer para o emprego. Quando ele viu o jardim mineiro ele disse: “Cuidar de jardins não é comigo. É trabalho demais…” Trancou então o jardim com um cadeado e o abandonou. Passados muitos dias voltou o Senhor dos Jardins, ansioso por ver os seus jardins. O Paulo, feliz, mostrou-lhe o jardim japonês, que estava muito mais bonito do que quando o recebera. O Senhor dos Jardins ficou muito feliz e sorriu. Veio o Hermógenes e lhe mostrou o jardim inglês, exuberante de flores e cores. O Senhor dos Jardins ficou muito feliz e sorriu. Aí foi a vez do Boanerges. E não havia formas de enganar.“Ah! Senhor! Preciso confessar: não sou jardineiro. Os jardins me dão medo. Tenho medo das plantas, dos espinhos, das taturanas, das aranhas. Minhas mãos são delicadas. Não são próprias para mexer com a terra, essa coisa suja… Mas o que me assusta mesmo é o fato das plantas estarem sempre se transformando: crescem, florescem, perdem as folhas. Cuidar delas é uma trabalheira sem fim. Se estivesse no meu poder, todas as plantas e flores seriam de plástico. E a terra seria coberta com cimento, pedras e cerâmica, para evitar a sujeira. As pedras me dão tranquilidade. Elas não se mexem. Ficam onde são colocadas. Como é fácil lavá-las com esguicho e vassoura! Assim, eu não cuidei do jardim. Mas o tranquei com um cadeado, para que os traficantes e os vagabundos não o invadissem.” E com estas palavras entregou ao Senhor dos Jardins a chave do cadeado. O Senhor dos Jardins ficou muito triste e disse: “Esse jardim está perdido. Deverá ser todo refeito. Paulo, Hermógenes: vocês vão ficar encarregados de cuidar desse jardim. Quem já tinha jardins ficará com mais jardins. E, quanto a você, Boanerges, respeito o seu desejo. Você não gosta de jardins. Vai ficar sem jardins. Você gosta de pedras. Pois, de hoje em diante, você irá quebrar pedras na minha pedreira…”
Rubem Alves

Gaiolas ou Asas – A arte do voo ou a busca da alegria de aprender . Porto, Edições Asa, 2004

Tags: , ,

(Re) encontro

untitled

Google Imagem 

 

 Ao avistá-la, fez menção de se esconder.   

 - Não, por que fazer isto? Por que não ter a chance de recordar tão boas lembranças? No entanto, não se aproximou. Ficou à    distância, vendo-a se movimentar na busca do rosto amigo.

 - Pronto! Ela a viu. Aproxima-se.

 - Nossa querida, como é bom depois de tanto tempo revê-la!!

 - Sim, como você está bem.

 - Obrigada, vem, vamos procurar um lugar para nos sentarmos.

Sentam-se e falam dos bons tempos da adolescência. Fica estarrecida, pois após vinte anos de afastamento, sente-se como se  nunca tivessem se separado. Todavia, quando pergunta sobre as realizações dos seus sonhos, uma nuvem de tristeza cobre o seu rosto e percebe que brotam lágrimas dos olhos da amiga.

 - Desejava não ter perguntado, mas já o fizera.

  – Meus planos se realizaram, mas a vida ensinou-me que não podemos idealizar. Tive o que queria e o perdi drasticamente. Hoje, sinto-me entristecida, mas cheia de garra para seguir em frente em busca da minha própria vida. Após a minha formatura, fui viajar. Nesta viagem, encontrei o homem por quem me apaixonei e me casei. Tivemos um filho. Vivi para eles e hoje sei que me esqueci. Passei anos a fio na espera da sua volta, pois ele viajava a trabalho. Eu me dediquei à casa, ao filho e à espera dos momentos da sua chegada. Não exerci minha profissão, afastei-me das amigas. Contudo, há seis meses eu recebi a notícia de um desastre que ele sofrera e a partir disto conheci a minha verdadeira situação.

  - Ele tinha outra mulher e quatro filhos. O seu trabalho como viajante lhe proporcionou a oportunidade de se dividir entre nós. Com isto, meu mundo se foi. Eu não tinha marido, não tinha profissão, nem amigos. Tive que mudar meu rumo. Mas, como você pode ver, aqui estou, enfrentando a vida, muito sofrida com o sonho desfeito, porém com a minha própria vida. Chega! Agora me conta o que tem feito.

 Sorri e disse:

- Vivido.

Conta-lhe o que tem feito; fala do trabalho, da casa própria, das amizades, dos breves namoros, dos sobrinhos. Percebe uma alegria que estava distante, invadir o seu coração. Sente que tem uma vida, uma vida própria. Teve receio de encontrar a amiga, de não mais terem nada em comum, de não terem assunto. Está feliz por ter feito este pacto e tê-lo cumprido.

 As horas passam e se dão conta de que no cruzamento de suas historias nada há para se envergonharem. Brindam o encontro e celebram as suas vidas. Selam um novo pacto: de se reencontrarem após 5 anos.

Norma Emiliano

Tags: , , ,

Sobre cura

 ventos

 

Hoje, ao nos determos no processo saude/doença consideramos os fatores biológicos, econômicos,  psicológicos , culturais e sociais. Baseada no estudo de alguns autores, introduzindo o conto abaixo, enfatizo  algumas premissas sobre o processo que envolve adoecimento e cura:

- a maneira como lidamos com a vida se repercute em nossa saúde, ou seja, não se está com saúde ou doença por acaso.
- os sintomas nos alertam que um dano foi causado ao individuo.
- o ser humano necessita ser amado, sentir-se pertencente.
- os sentimentos negativos de vingança, ressentimento e raiva intoxicam o indivíduo e o adoece.

Nas palavras de Dimas Calegari (2001), a evolução do indivíduo ocorre da sequinte forma: ” da luta com a doença sobrevém a saúde, do embate com o ódio sobrevém o amor, da ignorância a consciência, da dor o prazer da auto-realização, da contração a expansão!”.

 O conto a seguir faz uma junção entre os sentimentos, emoção e o câncer convergindo com os autores que exaltam o amor e a compaixão como o melhor antidoto de proteção à vida.

 

“O vento que sopra pelas flores “. Uma história ( sobre CURA)

Há vários anos atrás, em Seattle, Washington, vivia um refugiado tibetano de 52 anos de idade. “Tenzin”, é como vou chama-lo, foi diagnosticado como portador de uma forma de linfoma das mais fáceis de curar. Ele foi internado em um hospital e recebeu a primeira dose de quimioterapia.
Mas durante o tratamento, este homem normalmente gentil tornou-se agressivo e irritado; arrancou a agulha intravenosa de seu braço e negou-se a cooperar.

Ele então gritou com as enfermeiras e discutiu com todos ao seu redor. Os médicos e enfermeiros ficaram desconcertados.
Depois, a esposa de Tenzin falou com o pessoal do hospital. Ela contou que Tenzin foi um prisioneiro político dos chineses por 17 anos. Eles mataram sua primeira esposa e ele foi repetidamente torturado e brutalizado durante todo o tempo em que esteve preso.

As normas e regulamentos do hospital, juntamente com a quimioterapia, fizeram Tenzin  recordar todo o sofrimento que passou nas mãos dos chineses.
“Eu sei que vocês querem ajuda-lo,” ela disse, “mas ele se sente torturado pelo tratamento. Eles fazem com que ele sinta ódio
internamente ” da mesma maneira que os chineses fizeram ele se sentir. Ele prefere morrer do que viver com o ódio que ele está sentindo agora. E, segundo nossas crenças, é mito ruim ter tamanho ódio no coração na hora da morte. Ele precisa estar apto para rezar e limpar seu coração.”

Assim, o médico dispensou Tenzin e recomendou uma equipe da clínica de repouso para visita-lo em casa. Eu era a enfermeira encarregada de cuidar dele. Eu entrei em contato com um representante da “Anistia Internacional” para pedir-lhe conselhos. Ele me disse que a única forma de sanar o trauma da tortura era “falar a respeito”. “Essa pessoa perdeu sua confiança na humanidade e sente que a esperança é impossível.” Mas quando eu encoragei Tenzin a falar sobre suas experiências, ele ergueu suas mãos e me fez parar. Ele disse, “Eu preciso aprender a amar de novo se eu quiser curar minha alma. Sua tarefa não é fazer perguntas. Sua tarefa é me ensinar a amar novamente.”

Respirei profundamente e perguntei, “E como eu posso faze-lo amar de novo?” Tenzin respondeu prontamente, “Sente-se, tome meu chá e coma meus biscoitos.” O chá tibetano é um chá preto forte, coberto com manteiga de iaque e sal. Não é fácil de bebê-lo! Mas, foi o que eu fiz. Por várias semanas, Tenzin, sua mulher e eu nos sentamos juntos e tomamos chá. Nós também conversamos com os médicos para achar formas de tratar suas dores físicas. Mas era sua dor espiritual que deveria ser diminuída. Cada vez que eu chegava, via Tenzin sentado de pernas cruzadas em sua cama, recitando preces de seus livros. Com o passar do tempo, sua mulher foi pendurando mais e mais “thankas” – badeirolas budistas coloridas – nas paredes. Em pouco tempo, o quarto parecia um colorido templo religioso. Na chegada da primavera, eu perguntei o que os tibetanos faziam na primavera, quando estavam doentes. Ele abriu um grande sorriso e disse,”Nós nos sentamos e aspiramos o vento que sopra pelas flores.”
Eu pensei que ele estava falando poéticamente, mas suas suas palavras eram literais. Ele explicou que os tibetanos fazem isso para serem pulverizados com o pólen das novas floradas, carregadas pela brisa. Eles acreditam que esse pólen é um potente   medicamento. No primeiro momento, achar muitas floradas parecia um pouco difícil. Mas, um amigo sugeriu que Tenzin visitasse algumas floriculturas locais. Eu liguei para o gerente de uma floricultura e expliquei-lhe a situação. Sua reação inicial foi “Você quer o que?” Mas quando eu expliquei melhor o meu pedido, ele concordou. Então, no final-de-semana seguinte, eu busquei Tenzin, sua esposa e suas provisões para a tarde: chá preto, manteiga, sal, chícaras, biscoitos, almofadas e livros de preces. Eu os deixei na floricultura e combinei de pega-los às 17 horas. No outro final-de-semana, visitamos uma outra floricultura. E mais outra no terceiro fim-de-semana. Na quarta semana, eu comecei a receber convites das floriculturas para Tenzin e sua mulher para voltarem novamente. Um dos gerentes disse,”Nós temos uma nova remessa de nicotianas e lindas fuchsias” ah, sim!
E temos belas dafnias. Eu sei que eles vão adorar o perfume das dafnias! E eu quase me esqueci! Temos uns novos bancos de jardim que Tenzin e sua esposa vão adorar!”

No mesmo dia, outra floricultura ligou dizendo que eles tinham recebido birutas coloridas para Tenzin saber de que direção o vento estava soprando. Logo, as   floriculturas estavam competindo pelas visitas de Tenzin. As pessoas começaram a se importar com o casal tibetano. Os empregados arrumavam os móveis de frente para o vento.
Outros traziam água quente para o chá. Alguns fregueses regulares deixavam seus carrinhos de compras próximos do casal. E no final do verão, Tenzin voltou ao seu médico para novos exames e determinar o  desenvolvimento da doença. Maso doutor não achou nenhuma evidência de câncer.

 Ele estava abobalhado; disse a Tenzin que ele simplesmente não sabia explicar aquilo.  Tenzin levantou seu dedo e disse:
“Eu sei porque o câncer se foi. Ele não podia mais viver num corpo tão cheio de amor. Quando eu comecei a sentir a compaixão das pessoas da clínica, dos empregados das floriculturas, e todas essas pessoas que queriam saber de mim, eu comecei a mudar por dentro. Agora, eu me sinto afortunado por ter a oportunidade de ser curado dessa forma. Doutor, por favor, não acredite que a sua medicina é a única cura. Às vezes, a compaixão pode também curar um câncer.”

De Lee Paton

Tags: , , , , ,

Natal na barca – Lygia Fagundes Telles

ligia

Google Imagem

O conto Natal na Barca, inserto no livro Mistérios (1981) de Lygia Fagundes Telles,  é o relato de um Natal diferente. Traz a força da fé,  a existência de milagres, a vida e a morte.

Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca, apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher com uma criança e eu.

O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.

Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca tão despojada, tão sem artifícios, a ociosidade de um diálogo. Estávamos sós. E o melhor ainda era não fazer nada, não dizer nada, apenas olhar o sulco negro que a embarcação ia fazendo no rio.

Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro, silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos vivos. E era Natal.

A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o. rio. Agachei-me para apanhá-la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na água.

— Tão gelada — estranhei, enxugando a mão.

— Mas de manhã é quente.

Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. Reparei que suas roupas (pobres roupas puídas) tinham muito caráter, revestidas de uma certa dignidade.

— De manhã esse rio é quente — insistiu ela, me encarando.

— Quente?

— Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a roupa fosse sair esverdeada. É a primeira vez que vem por estas bandas?

Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com uma outra pergunta:

— Mas a senhora mora aqui perto?

— Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje…

A criança agitou-se, choramingando. A mulher apertou-a mais contra o peito. Cobriu-lhe a cabeça com o xale e pôs-se a niná-la com um brando movimento de cadeira de balanço. Suas mãos destacavam-se exaltadas sobre o xale preto, mas o rosto era sereno.

— Seu filho?

— É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um médico hoje mesmo. Ainda ontem ele estava bem mas piorou de repente. Uma febre, só febre… Mas Deus não vai me abandonar.

— É o caçula?

Levantou a cabeça com energia. O queixo agudo era altivo mas o olhar tinha a expressão doce.

— É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto, mas caiu de tal jeito… Tinha pouco mais de quatro anos.

Joguei o cigarro na direção do rio e o toco bateu na grade, voltou e veio rolando aceso pelo chão. Alcancei-o com a ponta do sapato e fiquei a esfregá-lo devagar. Era preciso desviar o assunto para aquele filho que estava ali, doente, embora. Mas vivo.

— E esse? Que idade tem?

— Vai completar um ano. — E, noutro tom, inclinando a cabeça para o ombro: — Era um menino tão alegre. Tinha verdadeira mania com mágicas. Claro que não saía nada, mas era muito engraçado… A última mágica que fez foi perfeita, vou voar! disse abrindo os braços. E voou.

Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade. Mas os laços (os tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não tinha forças para rompê-los.

— Seu marido está à sua espera?

— Meu marido me abandonou.

Sentei-me e tive vontade de rir. Incrível. Fora uma loucura fazer a primeira pergunta porque agora não podia mais parar, ah! aquele sistema dos vasos comunicantes.

— Há muito tempo? Que seu marido…

— Faz uns seis meses. Vivíamos tão bem, mas tão bem. Foi quando ele encontrou por acaso essa antiga namorada, me falou nela fazendo uma brincadeira, a Bila enfeiou, sabe que de nós dois fui eu que acabei ficando mais bonito? Não tocou mais no assunto. Uma manhã ele se levantou como todas as manhãs, tomou café, leu o jornal, brincou com o menino e foi trabalhar. Antes de sair ainda fez assim com a mão, eu estava na cozinha lavando a louça e ele me deu um adeus através da tela de arame da porta, me lembro até que eu quis abrir a porta, não gosto de ver ninguém falar comigo com aquela tela no meio… Mas eu estava com a mão molhada. Recebi a carta de tardinha, ele mandou uma carta. Fui morar com minha mãe numa casa que alugamos perto da minha escolinha. Sou professora.

Olhei as nuvens tumultuadas que corriam na mesma direção do rio. Incrível. Ia contando as sucessivas desgraças com tamanha calma, num tom de quem relata fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.

— A senhora é conformada.

— Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.

— Deus — repeti vagamente.

— A senhora não acredita em Deus?

— Acredito — murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê, perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que removia montanhas…

Ela mudou a posição da criança, passando-a do ombro direito para o esquerdo. E começou com voz quente de paixão:

— Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do jardim onde toda tarde ele ia brincar. E fiquei pedindo, pedindo com tamanha força, que ele, que gostava tanto de mágica, fizesse essa mágica de me aparecer só mais uma vez, não precisava ficar, se mostrasse só um instante, ao menos mais uma vez, só mais uma! Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e não sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava na minha mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Assim que ele me viu, parou de brincar e veio rindo ao meu encontro e me beijou tanto, tanto… Era tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.

Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa, levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para o rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto. A mãe continuava a niná-lo, apertando-o contra o peito. Mas ele estava morto.

Debrucei-me na grade da barca e respirei penosamente: era como se estivesse mergulhada até o pescoço naquela água. Senti que a mulher se agitou atrás de mim

— Estamos chegando — anunciou.

Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. O bilheteiro apareceu e pôs-se a sacudir o velho que dormia:

- Chegamos!… Ei! chegamos!

Aproximei-me evitando encará-la.

— Acho melhor nos despedirmos aqui — disse atropeladamente, estendendo a mão.

Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.

— Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre.

— Acordou?!

Ela sorriu:

— Veja…

Inclinei-me. A criança abrira os olhos — aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente. E bocejava, esfregando a mãozinha na face corada. Fiquei olhando sem conseguir falar.

— Então, bom Natal! — disse ela, enfiando a sacola no braço.

Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite.

Conduzido pelo bilheteiro, o velho passou por mim retomando seu afetuoso diálogo com o vizinho invisível. Saí por último da barca. Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente. Verde e quente.

Texto extraído do livro “Para gostar de ler – Volume 9 – Contos”, Editora Ática – São Paulo, 1984, pág. 67.

Tags: , , , ,

Get Adobe Flash playerPlugin by wpburn.com wordpress themes