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Romantismo


No finito da vida


“Eu quero apenas estar no seu pensamento
Por um momento pensar que você pensa em mim”

A semente foi lançada numa tarde em que os olhares se encontram. Residiam na mesma rua e, muitas vezes, se cruzavam. Como não perceber aqueles olhos grandes e negros a  fitá-la!

Certa noite, numa brincadeira de rua, ele se aproxima e se junta ao grupo. Pêra, uva, maçã, ou seja, aperto de mãos, abraço, beijo no rosto. Todos numa roda, escolhe-se o mestre e o outro escolhido para começar, foi ele. Seus olhos são tapados e o mestre aponta para as pessoas até a resposta ser positiva. Na quinta rodada, ele diz sim, e para a surpresa de ambos se unem num forte abraço (uva).

Após este episódio, quando não o via, os dias não tinham significado. No seu ser romântico, sonhava até mesmo acordada  com o seu “príncipe”.

O tempo passou e os caminhos se desencontraram, mas ela tinha em seu íntimo que sua fantasia havia sido compartilhada e que ele não a esqueceria. Soube que ele se casara, tivera filhos, como ela.

Numa de suas visitas à casa materna, no mesmo bairro em que nascera e vivera até se casar, o telefone tocou e do outro lado da linha, ouviu uma voz masculina que lhe dizia que gostaria de revê-la.  Por que, não? Pensou.

Ansiosa o aguardou e o reencontrou. Conversaram sobre suas vidas e se despediram, com a doce sensação de um afeto, que tinha sido plantado e os mantém unidos na distância.

Ontem, dia de Natal, ainda após 25 anos daquele encontro, recebeu sua ligação anual e  o carinho que não tem preço.

Fantasia! Romance!  Não sabe, mas certamente será um afeto eterno enquanto viverem.

Norma Emiliano

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A Casa feita de Sonho

“Leve como uma pluma, alta como uma torre, quente como um ninho e doce como o mel, assim imaginei desde pequeno a minha casa…

Mais tarde, quando me encontrei só no mundo, como não tinha dinheiro, resolvi construí-la com as próprias mãos. Fiz primeiro a minha casa de papel, que é um material barato.
E assim que ficou pronta, vieram todos os ventos da Terra e levaram a minha casa de papel, leve como uma pluma…

Fiquei sem casa, mas não desisti. E fiz a minha casa à beira-mar, com areia da praia que é um material barato.
Mal estava pronta, vieram todas as marés do mundo e levaram a minha casa de areia, alta como uma torre…
Deu-me vontade de desistir, mas eu precisava de uma casa, e sobretudo não podia abandonar o meu sonho.

E resolvi fazer a minha casa de madeira, que é um material barato. Cortei-a dos bosques, com as próprias mãos! Ficou linda!… Escondida entre a folhagem…
Mas ainda mal a tinha acabado, vieram todos os fogos do céu e queimaram a minha casa de madeira, quente como um ninho…
Chorei sobre as cinzas como se chora uma pessoa querida que morreu. Mas mesmo assim não desisti.

E resolvi fazer a minha casa de açúcar…
Mas o açúcar não é um material barato! Pois não…Mas eu precisava de uma casa, e sobretudo não podia abandonar o meu sonho…

Trabalhei, lutei, passei fome, para juntar o açúcar suficiente…
E quando a minha casa estava pronta – eram de açúcar as paredes, o chão, o teto, os móveis, as portas e as janelas – vieram todos os bichos da Terra e devoraram a minha casa de açúcar doce como o mel…
Fiquei sem casa e desisti de construí-la com as próprias mãos…

Perguntam-me onde moro… Onde moro eu?
Sei lá!… Vou pelo mundo, aqui, além, no bosque, à beira mar… Perguntam-me se não tenho casa… Tenho sim! Eu podia lá abandonar o meu sonho!…

Resolvi imaginá-la. Num sítio onde não chega o vento, nem o mar, nem o fogo, nem os bichos da Terra

Fiz a minha casa com o meu próprio sonho.
Ficou linda!
Leve como uma pluma, alta como uma torre, quente como um ninho e doce como o mel…”

Autor: Ricardo Alberty
Ilustração: Eliana Brandão
Retirado do livro: “A casa feita de sonho”
Editora: Melhoramentos de Portugal, 1991

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Desafio

 

 

Buda e a Flor de Lotus

 

 Buda reuniu seus discípulos, e mostrou uma flor de lótus – símbolo da pureza, porque cresce imaculada em águas pantanosas.
- Quero que me digam algo sobre isto que tenho nas mãos – perguntou Buda.
O primeiro fez um verdadeiro tratado sobre a importância das flores.
O segundo compôs uma linda poesia sobre suas pétalas.
O terceiro inventou uma parábola usando a flor como exemplo.
Chegou a vez de Mahakashyao. Este aproximou-se de Buda, cheirou a flor, e acariciou seu rosto com uma das pétalas.
- É uma flor de lótus – disse Mahakashyao. Simples e bela.
- Você foi o único que viu o que eu tinha nas mãos – disse Buda.

Fonte: aqui

 

O amanhecer de cada dia lhe apresenta o seu menu de atividades,  como você relaciona esta afirmação  ao Conto budista acima.

Bjs, Norma

 

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Sentimento maior

 

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Recebi de uma pessoa querida um conto  e considerei muito próprio para encerrar a semana no desejo de que o AMOR seja o sentimento maior que direcione nossas vidas

 

A flor que amava o mar

 

Havia uma flor à beira de um rio que se apaixonou pelo mar. Talvez por ouvir o sussurro das águas do rio, que corriam ansiosas para desembocarem na sua imensidão, passou a amar profundamente aquele ser conhecido apenas pelo ouvir falar do vento e dos pássaros. Apaixonou-se por alguém que nunca viu, mas nunca viu; de longe ouvia o canto ritmado das ondas e se imaginava naqueles braços, numa dança contínua da qual só os que têm em si muito amor sabem o ir e vir. Sonhava com o dia em que pudesse estar envolvida por aquele tão admirado e imenso ser. E sentiria suas pétalas acarinhadas por alguém que, certamente, lhe saberia a alma de flor delicada.

Tanto sonhou e pediu, que um pássaro, sensibilizado, mesmo avisando-lhe do risco que corria, atendeu seu pedido de cortar-lhe a haste. Seguindo o rio e deixando-se levar pela correnteza, iria ao encontro de seu querido e a ele juntar-se-ia para sempre.

Caindo no rio, sentiu de imediato seu corpo gelar naquelas águas rudes e fortes que a arrastavam rapidamente. A princípio, gostou daquela velocidade com que ia ao seu destino. Depois sentiu a primeira mordida de um peixe que lhe amputou parte de uma pétala; começou, então, seu caminho de sofrimento. Troncos no meio do caminho insistiam em lhe obstruir a passagem e, cega, sendo levada pela força da água, batia contra pedras que iam lhe dilacerando e tirando sua beleza de flor. Enormes cachoeiras traziam quedas violentas. Medo vencido por uma determinação de quem sabe o que quer. Mesmo quase desmaiada e toda machucada, levava consigo o alento de ir encontrar com seu amor. Todas as dores do mundo não se comparavam à felicidade de realizar o seu sonho. Tudo vale a pena quando se ama.

Até que, muitos dias depois, totalmente deformada e quase inconsciente, viu chegado o momento com o qual sonhou. As águas do rio encontravam-se com o mar com tanto ímpeto que, no encontro, foi arremessada para cima. Naquele exato instante, olhou para o céu e agradeceu a Deus por haver chegado a quem tanto amou. E seus pedaços boiaram inertes sobre aquelas águas que, minutos depois, sequer lembrariam daquela pequenina criatura – um dia tão linda – Flor.

Poucos, além dos pássaros e do vento, souberam da flor, mas ela realizou seu sonho. Conheceu o mar! Na vida, não podemos reclamar dos caminhos que escolhemos. Qualquer caminho é uma opção nossa. Até morrer de amor. Pensando nisso, entre duas lágrimas com gosto de sal e o esboço de um sorriso irônico, de repente, me dei conta de uma coisa:
- Eu conheci o mar !

Texto: Paulo Moreira

Imagem google

 

Bom final de semana

Norma

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“Saudade é o amor que fica”

 

 Estamos em constante aprendizado. O texto abaixo é a prova  disto. Leia e comprove como a inocência de uma criança nos revela uma forma belíssima de definir saudade.

  
“Como  médico  cancerologista,  já  calejado  com  longos 29 anos de atuação profissional (…) posso afirmar que cresci e modifiquei-me com os dramas vivenciados pelos meus pacientes. Não conhecemos nossa verdadeira dimensão até que, pegos pela adversidade, descobrimos que somos capazes de ir muito mais além.

Recordo-me  com  emoção  do  Hospital  do  Câncer  de  Pernambuco,  onde  dei  meus primeiros passos como profissional… Comecei a freqüentar a enfermaria infantil e apaixonei-me pela oncopediatria. Vivenciei os dramas dos meus pacientes, crianças vítimas inocentes do câncer. Com  o nascimento da minha primeira filha, comecei a me acovardar ao ver o sofrimento das crianças. 

Até o dia  em  que  um  anjo passou por mim! Meu anjo veio na forma de uma criança já com 11 anos, calejada por dois  longos  anos de tratamentos diversos, manipulações, injeções e todos os desconfortos trazidos pelos programas  de  químicos e radioterapias. Mas nunca vi o pequeno anjo fraquejar. Vi-a chorar muitas vezes;    também vi medo em seus olhinhos; porém, isso é humano!

Um  dia,  cheguei  ao  hospital  cedinho  e  encontrei meu anjo sozinho no quarto. Perguntei pela mãe. A resposta que recebi, ainda hoje, não consigo contar sem vivenciar profunda emoção.

— Tio, — disse-me ela — às vezes minha mãe sai do quarto para chorar escondido nos corredores… Quando eu morrer,  acho  que  ela  vai ficar com muita saudade. Mas, eu não tenho medo de morrer, tio. Eu não nasci para esta vida!

Indaguei: 

— E o que morte representa para você, minha querida?
— Olha  tio,  quando  a gente é pequena, às vezes, vamos dormir na cama do nosso pai e, no outro dia, acordamos em nossa própria cama, não é? (Lembrei das minhas filhas, na época crianças de 6 e 2 anos, com elas, eu procedia exatamente assim.)
— É isso mesmo.
— Um dia eu vou dormir e o meu Pai vem me buscar. Vou acordar na casa Dele, na minha vida verdadeira!

Fiquei  “entupigaitado”, não sabia o que dizer. Chocado com a maturidade com que o sofrimento acelerou, a visão e a espiritualidade daquela criança.
— E minha mãe vai ficar com saudades — emendou ela.

Emocionado,  contendo  uma  lágrima  e um soluço, perguntei: 
—  E o que saudade significa para você, minha querida?
— Saudade é o amor que fica!

Hoje,  aos 53 anos de idade, desafio qualquer um a dar uma definição melhor, mais direta e simples para a palavra saudade: é o amor que fica

Meu  anjinho  já  se  foi,  há longos anos. Mas, deixou-me uma grande lição que ajudou a melhorar a minha vida,  a  tentar  ser  mais  humano e carinhoso com meus doentes, a repensar meus valores. Quando a noite chega,  se  o  céu está limpo e vejo uma estrela, chamo pelo “meu anjo”, que brilha e resplandece no céu.

Imagino  ser ela uma fulgurante estrela em sua nova e eterna casa. Obrigado anjinho, pela vida bonita que teve,  pelas  lições  que  me  ensinaste, pela ajuda que me deste. Que bom que existe saudade! O amor que ficou é eterno.”

 Dr. Rogério Brandão, Médico oncologista 

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Ser gentil

 

Com as mudanças da dinânica da sociedade a percepção do que é ser gentil também se alterou.  Penso que a gentileza expressa-se em  atos e palavras,  implica em ser acolhedor, solidário e tolerante. Vai muito além de se ter apenas educação,  pois é o interesse pelo outro.

Encontrei um conto que nos permite refletir sobre a amplitude  do SER gentil.

“UM camponês, após  semear a horta  e ver nascer os primeiros brotos, fica com medo de algumas coisas não dar  certo. Então, para protegê-lo  das intempéries, compra uma boa lona de plástico à prova d’agua e vento e coloca por cima; ára manter longe  as larvas e  as pragas, vaporiza grande quantidade de inseticida. É um trabalho ininterrupto, nem por um só momento da noite ou do dia deixa de pensar na horta e na maneira de defendê-la. Até que, um belo dia, levantando a  lona, tem a desagradável surpresa de encontrar tudo morto e boloronto.

Se tivesse deixado os brotos livres para crescer, alguns teria morrido de qualquer maneira, mas outros teriam sobrevivido. Ao lado das plantas semeadas, trazidas pelo vento e pelos insetos, outras teriam crecido; algumas poderiam ser ervas daminhas, e eles as extirparia, mas outras poderiam ser flores que com sua cor iriam alegrar a monotonia da horta. É assim que as coisas funcionam. É  preciso ter  generosidade  na vida: cultivar o próprio pequeno caráter sem ver nada mais do que está em volta significa ainda respirar, mas já estar morto.”  Vá  aonde seu coração mandar” de Susana  Tamaro.

 

O  que é ser gentil apara você?

 

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Felicidade

 feliz

 Imagem Laura Ribeiro

 

 O SER FELIZ

 

 

Casou-se muito jovem. Seu projeto maior era constituir uma grande família. Por trinta e dois anos, viveu com o sentimento de realização. Era feliz, tinha ao seu lado um marido atencioso e quatro filhos saudáveis e carinhosos.

Certa manhã, foi surpreendida pelo marido. Ele queria a separação. Atônita não conseguia entender o que lhe relatava. Só conseguia ouvir: você não merece que eu continue a lhe enganar.  Há anos seu marido tinha um outro relacionamento pelo qual, hoje, optara. Tinha consciência de que fora mãe dedicada, boa dona de casa, esposa e amiga.  Onde falhara?

Após várias conversas, ele se foi. Sentiu-se perdida. Os filhos casaram-se. De repente, viu-se sem as ocupações cotidianas, sem a companhia do homem a quem tanto se dedicara!  Assim, dia após dia, foi vendo seu corpo se transformar. A balança apontou-lhe trinta quilos a mais.

Não podia manter-se na inércia. Os amigos, todos em comum ao casal, já não lhe satisfaziam. Só lhe traziam recordações que desejava abandonar.  Agendou médico e terapia. Resolveu “dar a volta por cima”. Em quatro meses foi se reconhecendo, mas precisava conhecer pessoas, fazer novas amizades, construir um novo caminho.  Recomeçar.

Na dança de salão, conseguiu ir tecendo os seus fios. Cercada de pessoas de várias idades, foi recuperando a alegria de viver. Iniciou, também, curso de línguas. Contudo, sentia falta de uma companhia mais próxima, do afeto. Percebeu que tinha de virar uma outra página: a esperança do marido voltar. Queria encontrar novo parceiro.

Em um dos bailinhos, encontrou seu novo parceiro. A partir daí, sempre juntos, freqüentaram os salões de dança e foram se apoiando mutuamente.

Na passagem do tempo, algumas restrições surgiram.  Ao completar sessenta anos, mesmo após internação de quinze dias, quis fazer uma festa em sua homenagem.

Tudo foi detalhadamente programado. Reconectou-se com os amigos e contratou um DJ. Não queria deixar de usufruir tudo o que sentia ter direito. As dores da artrose, que não a largavam, não a impediriam de bailar. Sete meses sem ter podido quase caminhar. Sentia-se inchada, não estava tão bonita, mas nada disto seria obstáculo.

Em sua festa, muito alegre a todos recebeu. Cercada pelos filhos, netos, amigo e do atual parceiro, fazia uma grande celebração à vida. Quis de tudo usufruir. Culminou com a valsa a sua confirmação e demonstração do que é ser feliz

Norma Emiliano

 

No poema  abaixo, mais um olhar sobre  a felicidade.

 

Síntese da Felicidade
Carlos Drumond de Andrade
 
 
 Desejo a você…
 Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não Ter que ouvir a palavra não

 

 

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“O sorvete”

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Google Imagem

 

“Quando chegamos ao colégio em 1916, a capital tinha apenas cinqüenta mil habitantes. Algum comércio, entre eles um cinema, e uma confeitaria.

Eu tinha onze anos, e Joel treze, o que dava a ele uma autoridade natural sobre mim. Um irmão, um exemplo, protetor. Fui ao colégio por uma idéia de meu pai, o Coronel Juca, dos Caldeira Lemos, o que achou correto também a seu filho, os Mendonça. Tínhamos apenas um dia livre, o domingo, isto se mostrássemos bom comportamento durante a semana. O dinheiro era pouco, por recomendação do próprio internato aos pais, e ficava às suas mãos.

Em certo domingo em meio ao passeio, pouco antes de entrarmos ao cinema, visitamos a confeitaria. Escrito com giz branco em um quadro negro: “ Hoje, Delicioso sorvete de abacaxi; Especialidade da casa; Hoje! ” O anúncio cativou-me, de tal forma que me emocionou. Mostrei a Joel o escrito a giz, ele pareceu indiferente, mas sabia que também havia sido tocado, com a idéia súbita de tomar sorvete de abacaxi.

Porém como havíamos combinado ir ao cinema, Joel disse:

- “ A gente já tinha resolvido ir ao cinema, agora o jeito é ir. O sorvete fica para o domingo que vem. ”

O filme não guardava nossa atenção. Eu observando em Joel algum sinal de frustração. Não sei se por arrependimento; insatisfação, aventura, ou volubilidade, falou-me:

-   ‘Vamos lá, vamos?…’

Fomos. Nunca havíamos sequer experimentado uma pedra de gelo na boca. O garçom colocou sobre uma toalhinha dois copos cheios de água, dois guardanapos de papel, e duas pequenas taças de vidro, em cada uma meia esfera de algo brilhante.

Que decepção. Foi horrível. Em nossas faces toda a expectativa desfez-se. Nos rostos a expressão do asco. Nenhum vestígio de abacaxi, só a dor causada pelo frio.

 De repente perante os olhares maliciosos dos freqüentadores, do garçom, do caixa: Eram só cobrança, quase de uma natureza moral…

 Desisti antes de Joel à dor de tal coisa gelada. Porém em função de nossos nomes, daquilo que recebemos no berço, e que temos o dever de perpetuar junto a nossos filhos -  Joel: “ Acabe com isso se não quer ficar desmoralizado. ”

A situação mudara um pouco, tomar o sorvete, do qual se perdeu todo o lirismo, transformado em dor, era agora uma obrigação. E assim o fizemos, tomamos, o mais rápido que podíamos.

 Ao acabarmos os olhos de Joel eram outros, agora aprobativo e cordial. O garçom aproximou-se, Joel perguntou quanto era.

            O dinheiro faltou.

Autor Carlos Drummond de Andrade – em Antologia de Contos Brasileiros

Fonte

Resumo por Fernao Cordeiro  em http://pt.shvoong.com/books/novel-novella/1839697-sorvete/

 

A adolescência é um momento de descoberta e definição da identidade.  O medo da opinião do outro caracteriza esta fase da vida. Neste conto, podemos identificar o dilema dos jóvens despertados pela curiosidade e consequentes sentimentos:   expectativa, decepção,  frustração, vergonha  e sofrimento.

Você teria em sua história algo semelhante para compartilhar?

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