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Expressão da vida

 Claudia_Olivos_-_Chile

Claudia Olivos, pintora chilena

 

“Deus criou o homem e enquanto este encontrava-se em sono profundo teria tomado uma costela e criado Eva”. Gênesis 2:18, 20-24

 

Ao perguntar-lhe em que posso ajudá-la posso perceber seu constrangimento. Olhos baixos, braços abandonados ao longo do tronco. Seu rosto pálido é emoldurado pela cabeleira vasta e escura.  Levanta lentamente os olhos e fala, quase em sussurro, que esta muito mal. Soube há poucos dias que está com uma doença crônica e sente a sua vida desmoronando.

No cotidiano profissional encontro o objeto de trabalho no ser humano. No cotidiano relacional de cada indivíduo, os personagens constroem histórias que expressam a vida humana.  De pessoa à pessoa uma questão, várias emoções e vários cenários. De peça em peça monto o quebra-cabeça que desvela a humanidade.

A evolução humana se deu com a tentativa do Homem compreender e manipular o mundo à sua volta. A cada problema colocado pela natureza, ele respondeu com inteligência e criatividade. Isto o possibilitou de desenvolver a tecnologia e a ciência.

O homem é um ser eminentemente social. É um ser histórico e racional.  Faz conexão de idéias, faz ligação dos pensamentos e conclui através destas conexões. Mas, esta racionalidade muitas vezes não lhe traz o melhor. Segundo Freud, “os seres humanos são criaturas boas e gentis, mas que também são maus e agressivos dependendo da vantagem ou do prazer que cada uma dessas duas características lhes confere. São dotados de pulsões, estímulos naturais da psique, que desencadeiam a resposta que dão ao mundo, procurando alívio para as pressões a que estão sujeito em seu cotidiano”.

É o homem quem faz a sua história e utiliza- se da história do passado.  No cotidiano profissional, no contato com o sofrimento, angústias, conflitos, insatisfações, etc. percorre-se a linha da vida de cada pessoa. Neste traçado, fatos significativos trançam a trama que por muitas vezes paralisam o desenrolar natural das histórias do indivíduo. O ser pensante perde-se em suas emoções quando estas o remetem ao passado.  Passado, presente e futuro se entrelaçam na construção da sua história que se define com o que cada um faz em função dos seus sentimentos. No embate das duas forças, emoção e razão, o indivíduo traça seu caminho.

Ampliar a visão sobre o indivíduo e suas questões nos remete as suas interações primárias, a forma como ele lida consigo e com os outros além dos seus familiares. No entrelaço das relações contextualizamos a questão, penetramos no universo pessoal e encontramos recursos que possam favorecer reconstrução da história.

A vida apresentada através da palavra, a vida percebida nas interações familiares, traz a riqueza contida na evolução da espécie, traz a imperfeição humana e a necessidade de um olhar que privilegie a interdependência de todos os elementos que a compõem. Um processo terapêutico que enfatize a saúde ao invés de reforçar a doença.

Em cada indivíduo uma história, em cada indivíduo a humanidade, em cada indivíduo as conquistas e fracassos, as alegrias e dores, enfim todas as etapas da vida que seguem em sua evolução.

Norma Emiliano

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Integrando práticas

O descompasso entre o avanço tecnológico e o desenvolvimento humano cria um grande desafio, pois traz a idéia sistêmico de  que o sucesso do século XXI, isto é, o alcance  da  qualidade de vida será determinado pela qualidade da capacidade humana. Contudo, as transformações necessárias para a melhora da qualidade de vida, exigem  um  repensar do  próprio  homem   sobre  a   sua insegurança  e  vulnerabilidade  e  uma  responsabilidade  conjunta do  indivíduo e sociedade. Não existe uma fórmula sobre quais caminhos seguir, mas é  a  partir do  cotidiano que  podemos  construir pontes, partindo da premissa de que fazemos parte de elos circulares.

Este texto apresenta um modelo  de  trabalho  que  vem  sendo  executado pelo Serviço Social na área da saúde do trabalhador  que  tem  como  fundamento  teórico a abordagem sistêmica. Portanto, o  objetivo  é   favorecer  o entendimento de que a visão ampliada do indivíduo possibilita ao profissional de Serviço Social, mesmo através de uma intervenção breve, impelir o indivíduo a ser mais consciente de como agir em relação a si próprio, a sua saúde, tornando-se mais responsável, produtivo e motivado no seu cotidiano.

Quem levou o pensamento sistêmico para o mundo das ciências foi o biólogo Ludwig Von Bertalanffy (Nichols, 1998). Segundo ele “o sistema é uma entidade mantida pela interação de suas partes”. A aplicação desta forma de pensar trouxe várias contribuições a maneira de se compreender o mundo e o ser humano, transformando-se, hoje, como cita Peter Senge (1998), “ no antídoto para a sensação de impotência que muitas pessoas sentem na era da interdependência”.  Ao ver o todo, aprendemos a fomentar saúde”.   Desta forma,  o indivíduo deixa de ser olhado sob a ótica de um ser isolado do seu contexto natural, a família, e passa a ser entendido como parte de um sistema. Ele é resultado de suas interações, logo tudo que lhe ocorre está interligado.

Esse serviço de atendimento entende, de acordo com Henry Sigerist, que “ a saúde não é simplesmente a ausência de doença, é algo positivo, uma atitude otimista perante a vida, uma boa aceitação da responsabilidade que a vida impõe ao indivíduo”. Assim, tem como objetivo imediato: favorecer aos seus usuários (pessoas afastadas do trabalho por motivo de doença) um melhor entendimento das dificuldades pelas quais possam estar passando e ajudar-lhes a buscar alternativas pessoais para um retorno mais rápido e profícuo ao trabalho, bem como um melhor estilo de vida pessoal; como objetivo remoto: contribuir, a médio, e longo prazo, com a política de recursos humanos. Para tal utilizamos como instrumentos: entrevistas, abordagens reuniões, visitas, encaminhamentos, documentação; como metodologia: entrevista inicial, Sumário Biopsicosocial, entrevistas de acompanhamento com o trabalhador e/ou familiares, reuniões com Junta Médica e contatos com chefias e setores administrativos.

Enfim, esta prática cotidiana do atendimento à pessoa através do paradigma sistêmico nos permiti constatar a possibilidade de impulsionar uma cadeia de mudanças, pois vamos lançando a semente da corresponsabilidade dos problemas  envolvendo  os trabalhadores,  chefias  e  familiares, tendo  em  vista que  uma  vez assumida  a responsabilidade pessoal pela mudança do seu papel nos padrões de relacionamentos, podem-se romper hábitos antigos e encontrar soluções novas para os problemas. Desta forma, o indivíduo fica mais consciente de como agir em relação a si próprio e à sua saúde. Sai do lugar de vítima, acaba com a própria impotência e passa a agir. Como parte do sistema, a sua própria mudança acarreta mudança no sistema.

Por outro lado, o número de dados levantados nos atendimentos gera uma fonte de pesquisa que possibilita a elaboração de projetos na área da saúde ocupacional e para a melhoria da qualidade de vida.

Norma

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