Irmãos, guardiãs do passado.

 

 

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A palavra irmão, de origem latina!”germanus” (dicionário da língua portuguesa, 2004), aqui se refere aquele com quem se tem laços de consaguinidade.

A família é composta por um casal e oito filhos, sendo seis mulheres e dois homens. A diferença entre a primeira filha e a última é de 13 anos. A primogênita passou a dividir com  a  mãe, aos sete anos, os cuidados dos irmãos. Na passagem do tempo, as mulheres se aliançaram, mas os dois homens, pela diferença de idade de 10 anos não tinham afinidades e se mantinham distantes. O menino mais moço fora muito “paparicado” pela irmã mais velha e pela mãe e o outro se sentira um “estranho no ninho”.

Quando adultos era visível a forma como cada um deles sofreu a influência desta dinâmica familiar. Num pequeno recorte, a filha primogênita tornou-se a cuidadora dos pais, o homem mais novo tornou-se dependente e não conseguia se estabelecer financeiramente. O mais velho saiu de casa cedo e foi para o exterior, onde se estabeleceu profissionalmente e se casou.

O nascimento dos filhos inaugura a família e os pais aprendem a viver esse novo papel.  O primogênito abre o caminho para os demais irmãos e cria um novo jogo nas relações familiares. Cada entrada de um novo membro exige um reequilíbrio da família.

 As primeiras experiências entre irmãos moldam o modo de agir, de pensar e de ser do indivíduo. Cada uma das posições fraternais define traços da personalidade (Alfred Adler- 1870/1937).  Para esse autor, é na relação familiar, principalmente, com os irmãos que se começa a desenvolver o sentimento de comunidade. Afirma ainda que a posição na fratria (primogênito, segundo, caçula, do meio, único) é a base da modelação do caráter individual.

 Vários outros autores realizaram estudos que nos confirmam a importância das relações fraternas na aprendizagem, inclusive para a vida conjugal e profissional (M.Bowen, W. Toman, 1976).

 Mc Goldrick, R. Gerson (1990), assinalam o lugar funcional dentro da fratria, exemplos cuidador e  rebelde.  A função é parte dos jogos relacionais e, portanto também é interdependente das outras relações familiares. Assim sendo, o “lugar funcional” na fratria não vai ser necessariamente de acordo com a ordem do nascimento.

 Nas reuniões familiares, anualmente, todos se encontram, ao redor da primogênita, uma vez que os pais morreram.  As conversas versam sobre o tempo da meninice, dos entornos  daquela época, num desejo de parar o tempo,  congelando as imagens que lhes remetem à pertença.

 Referências bibliográficas 

Adler, A. (1984). Conocimiento del hombre (7a. ed.). Madrid: Editorial Espasa-Calpe. (Originalmente publicado em1926).

 Bowen M. Um conceito de família de Esquizofrenia / / A etiologia da esquizofrenia / ed. by D.Jackson, 1960. por D. Jackson, 1960.

 Dicionário da língua portuguesa, 2004, Porto ed.

“Cada irmão é diferente.
Sozinho acoplado a outros sozinhos.
A linguagem sobe escadas, do mais moço,
ao mais velho e seu castelo de importância.
A linguagem desce escadas, do mais velho
ao mísero caçula.

São seis ou são seiscentas
distâncias que se cruzam, se dilatam
no gesto, no calar, no pensamento?
Que léguas de um a outro irmão.
Entretanto, o campo aberto,
os mesmos copos,

o mesmo vinhático das camas iguais.
A casa é a mesma. Igual,
vista por olhos diferentes?

São estranhos próximos, atentos
à área de domínio, indevassáveis.
Guardar o seu segredo, sua alma,
seus objetos de toalete. Ninguém ouse
indevida cópia de outra vida.

Ser irmão é ser o quê? Uma presença
a decifrar mais tarde, com saudade?
Com saudade de quê? De uma pueril
vontade de ser irmão futuro, antigo e sempre?”.

Carlos Drummond de Andrade, in ‘Boitempo’

Norma  

Comments

  • Yasmine Lemos
    Responder

    Isto é benção! Admiro muito famílias assim.Tive muitos irmãos ,mas como Jesus disse: meus irmãos são aqueles que me seguem e me amam…
    beijão Norma um fds em paz

  • Élys
    Responder

    Creio que o relacionamento entre irmãos nos exercita para as inúmeras atividades da vida: a vivência em comunidade , o amor, a lealdade, etc.
    As poesias de Carlos D. Andrade são sempre muito boas de se ler.
    Beijos.

  • chica
    Responder

    Que linda foto e tão bom ter irmãs,não é? bjs,chica

  • manuel marques
    Responder

    “Paz e harmonia: eis a verdadeira riqueza de uma família.”

    Beijo e bom fim de semana.

  • Astrid Annabelle
    Responder

    É tão importante o relacionamento entre irmãos Norma, ainda por cima hoje em dia que tem meio irmão para todos os lados e irmão por criação fruto do casamento dos pais separados com filhos….
    Gostaria de ter experimentado melhor esta relação que no meu caso acabou cedo devido ao falecimento do meu único irmão.
    Gostei deste seu post e muito, como gosto do seu blog inteiro! Sempre volto para casa mais rica. Pena que eu tenha estado sem poder visitar os blogs amigos como o fazia antes… ando bastante atarefada e menos na net! Mas não me esqueci dos amigos…rss
    Beijo grande e muito agradecido por sua presença constante no meu blog.
    Astrid Annabelle

  • josé cláudio – Cacá
    Responder

    Como se parece com a minha. Somos originalmente 9 , seis donzelas e três rapazes (o mais velho nos deixou no mes passado). E a toada é mesmo esta, diferenças variadas, reuniões muitas, lembranças várias mas muito afeto ao final. Abraços, Norma. Paz e bem.

  • Heloisa
    Responder

    Norma,
    Eu também vivenciei, e vivencio, esse relacionamento da irmandade. Somos 9 irmãos, sendo 4 mulheres. Entre o mais velho e o caçula, 18 anos.
    As diferenças de idade, praticamente sumiram, e nossas reuniões também acabam marcadas por lembranças da casa paterna.
    Beijo.

  • Valéria
    Responder

    Oi Norma!
    Ai, adoro Drummond!
    Vejo a dinâmica das relações fraternais, mas não sei como é o sentir isso, sou filha única. Sinto falta de sentir isso. Meu marido teve 7 irmãos, os vejo se relacionarem e queria sentir, partilhar isso. Deve ser muito bom, essa sensação de ter um outro que viveu juntamente aqueles sentimentos, o aprendizado com os pais, a cumplicidade, tudo enfim é muito bonito. Bela foto!
    Grande beijo e um lindo fds!

  • Beth Q.
    Responder

    Oi, Norma!
    Lá em casa somos 3 – duas mulheres e 1 homem.
    Meus laços com a irmã se mantiveram firmes, mesmo às vezes tendo nossas diferenças, mas o irmão sempre viveu longe e sem muitos contatos.
    Uma pena! Mas, eu acho que isso acontece mesmo, pois somos espíritos diferentes e que mesmo sendo criados do mesmo jeito e juntos, buscam suas vidas e necessidades longe, com estranhos.
    Linda foto de você e suas irmãs!
    beijos cariocas e bom fim de semana (com chuva, né)

  • Lizete Ferraz
    Responder

    Minha sogra sempre costuma dizer: “os filhos são como os dedos da mão, cada um é diferente do outro, nenhum é igual”. Eu concordo. Tive 3 filhos e cada um tem a sua personalidade, embora criados da mesma maneira.
    Eu acredito que voces, que trabalham nesta área de terapia, psicologia, psicanálise devem estar enfrentando a mudança de valores para as novas famílias que se formam. Aqui em casa é cheio de moçada e entre cada 10, 8 são separados. Minha filha namorou um rapaz agora há pouco tempo que dizia ter dificuldades de se adaptar a nós, pois nunca havia tido uma família. Ele nem sabia como se comportar perante os pais e irmãos da namorada, pois não sabia como se portar perante uma família. Isso me fez pensar muito. Aliás, dá um post.
    Lindo ver voce com suas irmãs. Prezo demais família.
    Um beijo
    Liz

  • Norma Emiliano
    Responder

    Oi Lizete

    Vc tem razão, nos deparamos no consultório com essa realidade. Novas formas de famílias que necessitam de ajuda para se reposicionar e construir afetos. saudáveis.
    bjs

  • C.
    Responder

    Muito pertinente esse post, as anotacoes que você fez. Eu já imaginava que era assim, mas como nunca fiz análise nao tinha certeza. Agora tive 🙂
    Que linda a foto, deve ser triste ser o último irmao a morrer, por ter visto todos os outros irem embora antes…

  • Toninhobira
    Responder

    Parabens Norma,cada vez mais passar é obrigtorio por aqui. Uma familia no sentido amplo passa por tudo sito bem colocado,com esta ilustração de Drummond.Voce é mesmo de uma generosidade fantastica em nos ofertar sentimentos e experiencias que nos absorvem,para uma realidade nossa.Sou caçula de uma familia de cinco e de muita união e cooperação.Bela a foto e que Deus os ilumine sempre na harmonia e cooperação.
    Um bom domingo para voce e familia.
    Meu abraço de toda admiração.
    Bju de luz no seu dia.

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