Histórias e memórias 2

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“A memória, onde cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir o  presente e o futuro”. (LE GOFF, 1994, p.477).

É evidente como as relações familiares perderam a proximidade que tinhamos há algumas décadas: Intensos encontros entre as várias gerações, em vários eventos familiares. Reportando-me à celebração do meu niver, em que tive a oportunidade de resgate, de estar com pessoas queridas,  irmãs, primos e sobrinhos, que já não encontro com a frequência desejada, surgiu a vontade de retomar esta temática.

Em 2013, fiz um texto que retratava o modelo tradicional da família e apontei alguns aspectos sobre as diferentes formas de interpretação dos membros familiares ao contar as histórias sobre a sua família. Neste sentido, levanto algumas questões, no meu entendimento, que podem, na atualidade, serem fatores para que as histórias, principalmente as familiares, se dispersem.

No mundo globalizado e ao mesmo tempo fragmentado, há “ espaços novos e antigos que abrem e alargam-se em torno da discussão de papéis individuais, psicológicos e ideológicos na família (…)e a família, devido à sua própria diversidade, se torna uma arena para a negociação e realização desses direitos ”(Scott, 2004: 70). Temos uma inesgotável forma de como se organizar em família e de se  atribuir significado às gerações, à sexualidade, à aliança entre grupos e indivíduos. Não há um formato único que dê conta da complexidade da família e das relações humanas.

Para o mundo globalizado, a geração histórica etária é mais situável dentro das lógicas nacionais do que a geração familiar ou de parentesco.” (Alvim & Gouveia, 2006). Alguns estudos mostram, entre eles o de Gilberto Velho (1986), que nos anos 1980, a capacidade de os avós – e especialmente as avós – serem reforçadores de laços de parentesco e de família, assegurando comunicação entre cinco gerações. Neste sentido, observa-se que nesta compreensão de gerações, sem perder um eixo familiar, apresenta-se como organizada em torno da subjetividade, de noções de tempo, de espaço e de configurações históricas específicas. Hoje, em função dos recasamentos há também o cruzamento de papéis e consequentemente de histórias.

Além disto,  ainda há a mobilidade de populações entre países modificando  as características dos contatos entre pessoas nas nações de destinos “famílias transnacionais”. Contudo, o  uso de meios de comunicação virtual ou de muitas outras ações servem para integrar essas pessoas distanciadas espacialmente numa família. (Scott, 2004)

Não obstante, as significativas mudanças das sociedades, a família continua sendo a base da construção da histórica (memória) de cada ser humano, pois é o lugar que possibilita a interação e relação, sentimento de pertencimento e de identidade. Portanto, é imprescindível estabelecer relações de afeto,  escuta atenta e livre expressão de sentimentos e de julgamentos e paciência. Não é uma conquista automática nem fácil, mas conhecer as histórias familiares é fonte de se alcançar uma melhor qualidade de vida.  A repetição de padrões é algo imperceptível e não é destino; é possível quebrá- los. “A história é essencial para o entendimento contínuo de nós mesmos, das nossas famílias e da nossa cultura”.  Susan Griffin in Froma  Walsh.

Observação:

“Famílias são compostas de gênero, geração, conjugalidade, sentimento de pertencimento, ideias de corrsidência, cooperação solidariedade, autoridade, afeto e subjetividade, entre outras coisas.

Gerações são compostas de pessoas entrelaçadas hierarquicamente por redes de parentesco e família, por pessoas  ligadas por pertencerem a categorias etárias e por pessoas cuja referência temporal é algum evento ou ambiente histórico que unifica muitas pessoas geralmente em referência a algum evento exterior à idade e ao parentesco.” (Scott, 2004).

Referencias bibliográficas

ALVIM, Rosilene & GOUVEIA, Patrícia (orgs) (2006). Juventude anos 90: Conceitos, imagens, contextos, Rio de Janeiro: Contra capa/Gestão Comunitária: Instituto de Investigação e Ação Social. 

SCOTT,  Parry. “Família, gênero e poder no Brasil no século XX”, Revista Brasileira de Informações Bibliográficas nas Ciências Sociais, Vol. 58, n. 1, pp. 29-78 .2004.   

VELHO, Gilberto (1986). Subjetividade e sociabilidade: Uma experiência de geração, Rio de Janeiro: Zaha

 

Comments

  • Ailime
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    Boa tarde Norma,
    Um grande artigo abordando esta temática!
    Em tempos idos havia mais congregação familiar do que atualmente em que há muita dispersão por parte de vários membros da família sendo que a sociedade mudou muito.
    Mas não há dúvida que é na família que encontramos o nosso pilar, o nosso conforto, os afetos que nos fortalecem e nos ajudam a seguir em frente.
    Beijinhos e uma boa semana.
    Ailime

  • Maria Luiza Saes de Rezende
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    Lendo seu excelente artigo, bem parecido ou não, também fiz um resgate de familiares na parede quando senti imensa vontade de responder quem sou eu, de onde vim, de quem, avó paternos e maternos, etc, minha infância meus diplomas minha juventude, tudo em fotos e na parede de um lado do corredor e de outro a história de meu marido. Pensei nos filhos, na neta e neto, enfim gosto demais dela!!! E me encontrei, reatei minha amizade com Deus! Beijos!

  • Norma Emiliano
    Responder

    Oi Maria Luiza que belo depoimento; vc fez um ritual deveras significativo e, pode crer, vou levar como prescrição para atendimentos. Amei seu comentário tão pessoal. Como sempre afirmo, a blogosfera é um local expressivo de conhecimentos e trocas. Grata querida.

  • Chica
    Responder

    Norma, muito legal esse tema pra mim bem importante. Temos que resgatar histórias vividas na familia, passar adiante para os mais jovens dela…Há fatos marcantes e precisam ser re lembrados e sabidos! Adorei bjs chica

  • taislc
    Responder

    Olá, Norma, laços familiares, tão importantes, é nela, a família, em que tudo começa, nossos direitos e nossas obrigações; nossos sentimentos, cumplicidade e afetos maiores. Porém, hoje as famílias são diferentes, os filhos não são mais aqueles que cuidavam de seus pais, visitavam com frequência os avós. Estão mais ligados na profissão e nas suas preocupações. Gostei muito dessa abordagem, parabéns!
    beijo

  • roseliabezerra
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    Boa noite, querida amiga Norma!
    Tenho vivido de recordação familiar… rs… depois da morte do meu pai, a famíia se esfacelou… cada um para um lado… mas eu reuno fotos e organizei memórias. Eu e filho do meio gostamos muito disso… ele fez genealogia e buscou fontes, ficou muito bom!
    Gosto muito de família, atualmente, estou com meu padrinho e tia bem juntinhos bem como primos.
    Considero a família virtual muito importante e, para mim, uma fote de bênçãos.
    Deus a abençoe muito!
    Bjm fraterno e carinhoso de paz e bem

  • verena
    Responder

    Boa noite, Norma
    Procuramos nos reunir, sempre que possível, (filhos, genros nora e netinha).
    A famíla é de suma importância para mim.
    Estou aprendendo a respeitar a individualidade de cada um deles.
    Assim o convívio fica leve e prazeroso.
    Gostei do tema abordado.
    Deixo um abraço carinhoso para tí.
    Verena.

  • Anete
    Responder

    A história da nossa família é muito importante conhecer e valorizar. Gostei do artigo que trouxe. Atualmente, a família anda “desnorteada”. Gosto de cativar o amor, a união e o companheirismo no nosso meio familiar. Trazer bons exemplos e lições de vida dos entes mais antigos é edificante e necessário… A família moderna perdeu muitos valores essenciais, é preciso resgatá-los!

    Obrigada pelo carinho no meu aniversário, fiquei feliz pela sua presença, Norma!…
    Bjs e boa quarta-feira…

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