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Eu mudei, e você?

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A indústria cultural reproduz o que já existe nas relações sociais superenfatizando determinados aspectos das práticas sociais através da “hiper-ritualização.” Goffman,

Ao longo da evolução da humanidade, a forma de se considerar a construção e evolução da parceria conjugal veio sofrendo, paulatinamente, mudanças, sobretudo no decorrer do século XX.  A revolução sexual e a entrada da mulher no mercado de trabalho influenciaram sua forma de estar no mundo e na sua relação conjugal. Muitos casamentos entraram em crise pela dificuldade de alguns homens renovarem seus paradigmas.

Os papéis rigidamente construídos, nos quais a mulher cuidava do lar e da educação do filho, enquanto o homem provia a família com os recursos financeiros, foram abalados. A oportunidade de trabalhar favoreceu as mulheres a acreditarem em outras competências antes não vislumbradas.

A esfera familiar trouxe ao gênero feminino a possibilidade de desenvolver práticas e construir um conjunto de conhecimentos que se transformaram em instrumentos valiosos para enfrentar o mercado de trabalho. A administração empresarial ganha muito com a capacidade de organização, sensibilidade, diversidade e assertividade da mulher.

 Por outro lado, gerar renda significa ter igualdade de poder na parceria. Para muitos homens, esta igualdade acarretou sentimentos contraditórios de admiração e de rejeição em relação ao cônjuge. Eles não se sentem mais reconhecidos nos papéis anteriormente valorizados; vêem-se abandonados e cobrados por suas mulheres ao compartilharem novas funções.

A mulher ganha espaço na sociedade capitalista, busca novos conhecimentos e diversifica, cada vez mais, suas competências. Contudo, há o estigma de que ela é a cuidadora da família e, em função disto, ainda há uma sobrecarga em suas funções.

Na família nuclear, hoje, já se encontra nas novas parceiras, uma divisão de tarefas em relação à administração da casa e ao cuidado com os filhos. Entretanto, em relação às suas famílias de origem, ainda é forte a missão da mulher como cuidadora exclusiva dos pais.

“Não somos mais uma geração de jovens”. O envelhecimento populacional já é visível e já foi constatado estatisticamente. O cuidado com os pais idosos envolve muitas tarefas e absorve o tempo. Contudo, nem a família nem as organizações empresariais estão atentas e, possivelmente, em bem pouco tempo, esta questão se transformará em crise.

As diversas parcerias são construídas tendo por base afinidades e diferenças. As diferenças sempre existiram e sempre existirão, não só entre os gêneros, mas de pessoa para pessoa. As mudanças tecnológicas, científicas e culturais vêm trazendo mudanças de atitudes na mulher e em contrapartida no homem, mas esta visão precisa ser ampliada para além da esfera doméstica. A sociedade precisa encontrar uma forma de conciliação das funções de forma que a afetividade familiar não fique comprometida e o desempenho profissional não fique prejudicado.

Norma Emiliano

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Quem é você, mulher?

 

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São muitas as mensagens sobre a mulher. Umas citam a beleza, a generosidade, a sensualidade, a proteção; algumas a sensibilidade de mãe e esposa e, ainda outras, a sua fragilidade diante da violência doméstica.

Na trajetória cultural encontramos várias lutas das mulheres: algumas sutis, outras mais agressivas como a de greve no dia 08 de março de 1857, em Nova York, por melhores condições de trabalho, o que acarretou várias mortes.

Atualmente, o 8 de março é considerado o dia Internacional da mulher. Contudo, é no cotidiano que a mulher, ao longo do tempo, vem construindo uma identidade, que vem se desvinculando da idéia da “natureza” feminina. Diversos estudos apontam que as características dos gêneros (mulher/homem) foram socialmente construídas.

Nos romances, músicas e poesias temos ilustrações das representações da mulher. Ataulfo Alves e Mario Lago reportam- se às mulheres das décadas anteriores a 40  em  “Ai que saudade da Amélia”. Nessa música, encontra- se a mulher destinada ao mundo doméstico, à sensibilidade, às emoções, à maternidade e aos cuidados com os filhos. Contudo, esta construção, na realidade, fez parte do jogo de poder e interesses, e a imagem de submissão e dependência vai ficando longínqua.

Uma das minhas bisavós foi parteira, uma das minhas avós foi comerciante e a outra lavadeira e provedora do lar, desde os 30 anos. Elas fugiram às regras de suas épocas, e são exemplos de força, liderança e coragem.

Hoje, a mulher, na busca de se organizar para conciliar suas funções de mãe, esposa e profissional, também abre para o homem um espaço que era exclusivo do sexo feminino, o lar e os filhos Mas, em meio a tudo isto, há ainda muitas dores, pois as diferenças dos sexos ainda geram injustiças e discriminações.

Enfim, em sua ousadia a mulher vem transpondo os obstáculos. No decorrer da história, foram se construindo a consciência crítica e a valorização da mulher como ser humano. Assim, ela vem tomando em suas próprias mãos o seu destino e firmando seu espaço na sociedade.

Norma Emiliano

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Trágico cômico

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A vida é a arte do encontro,  embora haja tantos desencontros pela  vida”.  Vinicius de Moraes

 

 

É comum em conversas informais, principalmente entre as mulheres, falar-se sobre situações afetas ao cotidiano de casal. Nessas conversas, as diferenças de pensamentos e atitudes trazem à tona um tema que vem sendo estudado, escrito, mostrado, por várias áreas da ciência e da arte: as diferenças de gênero.

O ser humano é dependente, não sobrevive ao isolamento.  No entanto conviver é o seu maior desafio.

Paradoxalmente, nos relacionamentos íntimos, principalmente de casal, alcançamos o céu e o inferno. Isso não diz respeito apenas às diferenças entre os sexos, mas, também, ao fato de que as parcerias favorecem que os conflitos emocionais não resolvidos com nossas relações primárias ressurjam com toda a intensidade. 

“Dormimos com o nosso maior inimigo”,  já assinalava Whitaker, pois o inconsciente nos aproxima, nos motiva nas escolhas.

Muitas peças teatrais, muitos filmes, algumas charges são produzidas sobre o enfoque trágico cômico que reproduzem algumas das incoerências humanas e freqüentemente da relação de casal. A estrutura biológica demarca as diferenças dos sexos, mas ao longo da história da humanidade, a cultura colaborou para que a visão de mundo entre mulheres e homens se distanciasse, criando mesmo, em certos momentos, rivalidades.

De acordo com John Gray, autor de Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus , ambos desejam ser amados, mas o homem necessita ser aceito, ser apreciado e gozar de confiança; a mulher: ser cuidada, ser compreendida e ser respeitada.

Por outro lado, a comunicação, principal meio para nos sintonizarmos com o outro, é atravessada pela forma do pensar, sentir e expressar tão diferentes entre homens e mulheres, transformando-os em ilhas cujas pontes para se firmarem necessitam de “muita engenharia”.

Apesar do sentido da vida ser subjetivo, o encontro está inserido no cerne da humanidade.  É a partir da união (macho/fêmea) que se dá a sobrevivência da espécie.  Na atualidade, o encontro torna-se, cada vez mais, descartável, e o índice de pessoas, que vivem só, aumenta. Mas, ainda observamos, que as mulheres anseiam pela relação estável e constituição de uma família. Contudo, a intolerância, o individualismo vêm crescendo.

No cenário da vida, temos muitos encontros e desencontros. Representamos vários papéis, mas somos os autores da nossa própria história.  Podemos ter relações construtivas buscando o autoconhecimento e desenvolvendo as habilidades interpessoais.

Norma Emiliano

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Mundo à parte

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Na penumbra da sala, uma mesa bem posta. No ar o perfume das flores. Ao fundo, um casal envolvido ao som de “Em algum lugar do passado”. Esse é um cenário perfeito ao romance.

O desejo de amar e de ser amado faz parte da condição humana. Todavia, em nome desse amor, a vida traz para muitos, principalmente, para as mulheres, uma condição de se manterem em um segundo plano. Mas, nem sempre é esse (amor) o considerado como o vilão da história. Ser a outra traz alguns estigmas e configura para a relação um mundo à parte.

Alguns autores, entre eles Elza Berguó, já mencionam a hipótese de que há no Brasil uma poligamia disfarçada. Apontar-se para o maior número de homens em comparação ao de mulheres é limitar a compreensão dessa questão.

No jogo da sedução, no lugar de amante, as fantasias dominam.  Na relação distante a idealização predomina. Não se conhece a pessoa como ela é realmente. Promessas são feitas. Feitas em palavras que quase nunca se transformam em atos.

A aproximação das pessoas se dá por vários fatores. Há mulheres que por serem comprometidas e se sentirem entediadas da rotina consideram mais confiável se relacionarem com homens também comprometidos. Há outras que namoram homens comprometidos por desejarem a liberdade; outras dedicam sua vida, com uma eterna lealdade, ao homem que se divide entre a família e a amante. Essas se sentem “importantes”, pois são “o refúgio” de homens “infelizes” no casamento. Sejam quais forem as motivações, normalmente, surge a esperança de que em algum dia ele a escolherá definitivamente (quando perceber que não pode viver sem ela, quando os filhos crescerem, quando a mulher melhorar de saúde, quando…etc.).

Estar em cena, só quando é possível e/ou entre quatro paredes, distante dos olhares de conhecidos, pode trazer sentimentos contraditórios (insegurança, ciúme, culpa) que acabam intoxicando a alma e o corpo. Segundo Beauvoir, “esperar pode ser uma alegria.(…) mas passada a embriaguez confiante do amor(…) misturam-se ao vazio da ausência os tormentos da inquietação”.

Além disso, há também a possibilidade de a mulher sofrer violências, desde físicas até a violação da intimidade do lar, no momento em que a esposa entra em cena, tentando afastar a “intrusa” do seu marido. Mas, nem sempre esses fatores são considerados relevantes.

Nas histórias cinematográficas pode-se observar que existem a artista principal e a amiga. Na sua história de vida você pode escolher qual será o seu papel. Neste sentido, algumas perguntas podem ser norteadoras dessa escolha, ou seja: O que deseja da relação, quais seus projetos, que tipo de homem quer ao seu lado? Enfim, nada deve se sobrepor ao seu compromisso com você mesma. O encontro com o parceiro, mesmo que perdure, é contingente.  O nós não deve ocupar todo o espaço, pois é no Eu e Tu, individualizados, que se confirma a mútua escolha de uma parceria.

Norma Emiliano

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Eterna Busca

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Manhã cinzenta e fria de um dia de inverno. Em seu quarto ele desperta para um novo dia. Não se levanta. Levantar para quê? Ao seu redor impera o silêncio da casa vazia e em seus pensamentos nada de tão valoroso o impele a se mexer. De uma vida plena ao vazio total. Perdeu-se. Os fios que entrelaçavam seus afetos foram se partindo, desde a separação conjugal até a morte da sua prima, com quem residia.
 
 Foram tantas “traições e perdas” que o sentimento de desesperança tomou conta dos seus dias. Fez várias tentativas de aproximação dos filhos, mas as brigas familiares foram provocando o distanciamento físico e emocional culminando em acusações sentidas por ele como ingratidão. Em meio a tudo isso, a prima adoece e falece.  Hoje, à base de remédios, perambula pela casa,  sem ter nenhum sentido na vida.

De outra forma, encontra-se também abatido outro homem que chegara à beira da morte, mas que, como milagre ressuscitara. Sua vida foi estruturada por muitos anos com a esposa, filhos sadios e um bom emprego. No entanto, o crescer do vício, era alcoólico, levou-o ao fundo do poço: perdeu dinheiro, separou-se da família e certo dia acordou de um longo coma. Assim, deparou-se com a solidão.

Duas histórias, traçados diferentes, mas com um mesmo resultado: a perda de si mesmo, do significado de sua vida. As pessoas e os afetos constroem a rede de proteção humana e são os referenciais do cotidiano.

Os dias e a as noites se sucedem, uns de marés altas e cinzentas e outros de ondas mansas e claras.  As circunstâncias impõem- se, mas sempre há várias formas de se relacionar com elas: submetendo-se, desafiando-se, reinterpretando-se ou recriando-se.  Aqui fica uma pergunta no ar, como cada um desses homens irá superar sua perda?

A busca do sentido de vida faz parte do viver humano e nas palavras de Osho “ele não está fora (…), ele tem que ser criado (…), ele é um poema a ser composto, é uma canção a ser entoada, uma dança a ser dançada”.

Norma Emiliano

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Relação com o tempo

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Em visita a um centro cultural, ao percorrer as diversas galerias de fotos, ressurge – me o impacto da ínfima presença de cada ser nessa esfera terrena. Vêem-se figuras célebres, históricas, seus trajes, paisagens, costumes, enfim, tempos vividos e finitos. Surge-me uma estranha sensação. Mergulho no tempo e no retorno à superfície percebo a dificuldade de respirar; não sei se pela imensuralidade da vida e seu fluxo ininterrupto ou pela certeza de que muitas mudanças virão e que eu, ser desta época, não as alcançarei.

Em curto espaço de tempo surge um turbilhão. O mundo gira numa velocidade tamanha que nós, seres humanos, sentimo-nos atordoados e com sentimento de perdas constantes. Nada é usufruído com intensidade, pessoas cruzam com tanta ligeireza e impessoalidade nossos caminhos que mal conseguimos tocá-las. Sim! Agora me dou conta de que a estranha sensação provém da consciência de tudo virar pó.

Filhos, netos e bisnetos são desdobramentos geracionais, trazem em si marcas das histórias. Vivo, reflito, escrevo e revejo minha trajetória. Não sei se por orgulho ou por desejo de ser infinita, mas anseio deixar legado à humanidade. No entanto,  já dizia Drumonnd “Na noite do sem fim, breve o tempo esqueceu minha incerta medalha, e a meu nome se ri”.

Qual será a vitalidade de um legado?  Das suas múltiplas apropriações, em se ter porta-vozes que possam reinventá-lo ou de instituições que o preserve?
È difícil para nós, seres pensantes e apegados uns aos outros e sensíveis à beleza da vida, nos imaginar fora dela. A vida pós-morte é um mistério. Acredita-se, fala-se, estuda-se sobre ela, contudo nada é comprovado. A reação à morte, principalmente entre os ocidentais, é de grande sofrimento, mesmo para aqueles que possuem fé religiosa. 

O ser humano não tem sido a melhor espécie desse universo, na medida em que vem destruindo o meio ambiente e se autodestruindo. Mas ainda o melhor legado é a própria vida tão bem ressaltada nas palavras de João Cabral de Melo Neto “vê-la desfiar seu fio, que também se chama vida, ver a fábrica que ela mesma teimosamente se fabrica: vê-la brotar em uma nova vida explodida”.

 

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Carnaval- Um recorte de alegria

Aproximamo- nos de uma data em que a folia embala o cotidiano de um  significativo número de brasileiros. Nesse sentido, considerei propício trazer um texto que aborda essa data  através do tempo e de algumas expressões do núcleo familiar.

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Um recorte de alegria

“Quanto riso, oh quanta alegria, mais de mil palhaços no salão….” essa e muitas outras canções remetem- me aos anos idos. Anos de magia, de muitos confetes e serpentinas. Anualmente, a chegada do carnaval trazia  aos lares, às  ruas  um novo colorido. Ensaios dos blocos, escolha das fantasias, enfeites nos postes antecediam a grande festa. Época de simplicidade, de calor humano entre vizinhos e ida aos clubes em família. Essas são lembranças minhas.

No meio da multidão, as máscaras; personagens ediondos, assustadores corriam de lá para cá, detinham- se juntos as crianças. Isso era amendrontador. Mas passageiro. Muitos faziam questão de mostrar o rosto após o primeiro impacto. Nos blocos, faziam- se alas de moças, de rapazes e crianças. Em sequida, vinham os pais, os responsáveis, que zelavam por sua família e se divertiam. Festa do povo. Muita animação. Três dias de folia.

Os bondes cheios traziam na parte traseira um grupo de instrumentistas.  Com ou sem fantasias as pessoas cantavam e dançavam animadamente ao som de sambas e marchinhas. A festa acontecia  em vários lugares de dia e de noite. Pela noite, os jovens voltavam, muitas vezes, a pé, dos grandes bailes carnavalescos. Muita paquera, lança perfume e alegria.

Um mundo mágico, três dias em que novos personagens tomavam conta do cotidiano: pierrô, arlequim, colombinas, príncipes, morcegos, diabos, bailarinas, homens vestidos de mulheres, mulheres vestidas de homens.

Nas tardes, os desfiles das fantasias infantis. Nas noites, os desfiles dos blocos. Feliz, empertigada na minha colombina, via – me no espelho. Lábios rubros, olhos pintados de azul. Tudo era novidade; meninas até seus quinzes anos não se pintavam. Os cabelos eram carinhosamente enrolados em papelotes por minha avó e ao se soltarem mostravam seus belos cachos. Minhas irmãs  ( mais velhas do que eu)  e suas amigas na sala  contavam as emoções da noite anterior. Meu pai tentava descansar para que à noite pudesse acompanhar “o seu rebanho”. Mas minha mãe ali estava dando conta de aprontar sua menina para o desfile.

Lembranças minhas que trazem uma época de vida em família, do compartilhar da magia do carnaval em que o maior sentido era a diversão. Lembranças das músicas que diariamente enchiam os lares.  Compositores  e artistas detinham- se  na nas belas e frenéticas composições carnavalescas.

Na retomada do tempo, pode-se traçar uma linha e pontuar as transformações. No sentido do carnaval, na entrega à folia, na união dos grupos, na participação comunitária, nos valores da família, no sentido da vida.  “Cidade maravilhosa cheia de encantos mis, cidade maravilhosa coração do meu Brasil”.
 
Norma Emiliano

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Identidade

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O nascimento de um ser não é o suficiente para que esse ocupe um lugar no mundo.

Muitas pessoas têm filhos sem planejamento ou mesmo sem motivos. É a partir  dessa premissa que ocorre o nascimento de Carlota, fruto de um caso efêmero. Filha de mãe solteira, que após um tempo de indecisão, opta pela gestação.

Ao longo dos seus primeiros sete anos vive ao lado da mãe e de um irmão, oriundo de outro relacionamento materno. Algumas vezes, Carlota ouvira a mãe dizer que não havia querido seu nascimento. Acostumou- se  a ganhar coisas usadas e a pouca organização. Aos quatro anos foi apresentada ao pai e passou a ter contatos esparsos com a família paterna (avó e tia); aos sete anos decidiram  que iria morar com o pai. Este era casado há cinco anos e tinha uma filha. Desse modo, foi inserida nesta família, e os sentimentos de rejeição, medo e exclusão irão permear seu cotidiano.

A construção da identidade ocorre através de influências de características adquiridas da personalidade,  da identificação com outras pessoas e de valores sociais. A identidade é uma concepção de si mesmo, composta de valores, crenças e metas com os quais o indivíduo está solidamente comprometido. Desta forma, os  hábitos, valores, limites, crenças vão sendo incorporadas no cotidiano infantil a partir de suas interações, principalmente com os pais e irmãos.

Entre expectativas e frustrações, entre amor e ódio, entre submissão e rebeldias os fios da mentira,  desconfiança e o medo foram sendo tecidos.

No decorrer de seis anos, retornou à casa materna por três vezes. Em todos os  retornos à casa do pai, as roupas esquecidas na casa da mãe eram motivos de conflitos com o pai. Todavia, não tinha nem um armário que fosse só seu. Dividia – o com a irmã. Seu material, roupas eram comprados sem sua opinião. O pai constantemente  lhe batia por pegá- la em mentiras.

As redes formadas pelos laços familiares constroem o pertencimento. Entretanto,  em meio a dois mundos conflituosos, que atitudes tomar? Como se comunicar? Como agradar?

Transitar entre duas residências não é questão. O que pode construir um problema é como cada um dos respectivos pais lidam com as suas diferenças e conflitos. Aquele que tenta afastar o filho do convívio de um dos genitores pode perder a confiança do filho.

Ajudar Carlota a construir sua identidade e auto-estima significa entender seus conflitos de lealdades, seus sentimentos de rejeição e exclusão. Significa ter regras claras de convivência; realizar mudanças concretas no atual espaço (moradia);  fazer sua inserção em projetos cotidianos da família; empatizar e apoiar seus conflito criando um clima de afeto e confiança para que ela possa transitar entre estes dois mundos e se enriquecer com as diferenças e não ser punida. 

 Ambientes e regras internas distintas constroem pessoas mais flexíveis; característica de grande valor nos dias atuais, tendo em vista que  o sujeito pós-moderno encontra- se  diante de uma  variedade de novidades.

Norma Emiliano

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O desafio cotidiano- Atitudes e Sentimentos

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“Hoje, na crise do projeto humano, sentimos a falta clamorosa de cuidado em toda parte”. Boff

Como você enfrenta os diversos desafios que a sociedade contemporânea tem acarretado à qualidade de sua vida? Como você vivencia este enfrentamento?

Para iniciarmos esta reflexão, cabe observar que vivemos num mundo globalizado, no qual estamos conectados concomitantemente a várias pessoas e situações.  Tempo e espaço se confundem.

A revolução nos meios de informação, mídia e tecnologia remete nosso pensar, refletir e agir sobre nossas atitudes e sentimento na construção do bem-estar. 

As interações socais são permeadas pelas relações de produção e de consumo; os padrões de convivência urbana se transformam;  o tempo destinado ao trabalho aumenta; a família pouco se reúne para compartilhar sobre o cotidiano. Há  uma queixa comum da dificuldade nos relacionamentos entre os parceiros e entre pais e filhos. Por outro lado, observa-se que  limites que separam crianças e adultos estão desaparecendo.

Na análise de Jurandir Freire Costa (1994; 1995), no perfil da sociedade brasileira, identificam-se quatro atributos que a compõem: o cinismo, a delinqüência, a violência e o narcisismo. Destaca em sua análise que a transgressão à regra dá uma ilusão, em nossa sociedade, de que podemos ficar impunes. No entanto, “quando o ser humano não tem mais a regra subjetiva que lhe faça ver no outro semelhante, ele não experimenta pelo outro nenhuma preocupação, nenhuma consideração. O outro é um estranho”. (Costa, 1994: p. 12).

Diante do exposto, podemos indagar qual o sentimento tem predominado no seu cotidiano; como este sentimento tem repercutido no seu corpo, nas suas ações e interações?

Será que o medo e o sentimento de impotência têm predominado causando tensões e dores no seu corpo distanciando-o das relações interpessoais? Ou pelo contrário, o otimismo e a garra pela realização dos seus sonhos são predominantes? Ou, ainda, você encontra-se no meio termo, com medo, mas sem desistir da luta por um solo mais fértil?

De acordo com os filósofos gregos, a ética deveria ajudar o homem a se transformar, de modo a obter para si o que o universo nos revela: ordenação, circularidade e beleza.

No filme Encontro de Casais, observa-se diversas facetas do comportamento de indivíduos e casais que os levam à alienação total dos seus reais problemas e sentimentos. Ele traz a mensagem de que a vida perfeita não existe e que os problemas precisam ser percebidos e confrontados.  Indo além, assinalo que é no cotidiano que tecemos os fios de atitudes que podem construir sentimentos mais propícios ao bem-estar pessoal e relacional. Pense sobre isto.

Norma Emiliano

Referências bibliográficas:

Costa, J. F. A ética e o espelho da cultura. Rocco, Rio de Janeiro, 1995.

________ Vida: um princípio básico no bem-comum e na ética do convívio. Revista Proposta. N. 60. P. 10-15. 1994

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Valores nas relações

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Dificuldades fazem parte da vida do ser humano e as relações intra e interpessoais, ao longo do tempo, constituem- se num grande desafio para a humanidade. Contudo, vivemos um momento em que urge indagar sobre as finalidades do agir humano e sobre o próprio sentido da existência individual e coletiva diante de tanta violência, miséria e impunidades.

Constata-se, no cotidiano, que os espaços de sociabilidades anteriores (ruas, praças etc.) são representações de perigo. As habitações se transformaram em apartamentos ou residências fechadas. Pouco se vê ou se fala com vizinhos; utiliza-se cada vez mais o carro, que acaba dissolvendo ou reduzindo uma rede de conhecimentos de portão, de rua, de vizinhança. A  TV ocupa as pessoas em casa, diminui as conversas, inibe as reuniões e outras formas de lazer. O computador aproxima virtualmente as pessoas. Os membros familiares pouco se vêem ou se falam. Assim sendo, surgem novas formas de sociabilidades (surfistas, torcidas de jogos, comunidades virtuais, etc.) fundadas em afinidades ou interesses momentâneos em comum. Hoje as interações ocorrem nos shopping centers, barzinhos da moda e no cyberespaço.  Dificilmente as pessoas se visitam. Para as crianças, no grande centro, a escola ou playground se constituem nas possibilidades de interação.

Nesse contexto, há um cultivo à individualidade; há o excesso de permissividade; há a precariedade nos relacionamentos, baseados em contratos temporários em definição e intenção. Não se prioriza a construção; o ter agrega o valor do ser.  O homem se encontra cada vez mais isolado, pois vem perdendo modos de pertencimento e de sentido de vida. Na busca de conforto e segurança, no desejo de extrair para si o maior prazer de uma vida boa, vive sem construir um projeto de vida. Enclausura-se nos desejos e esquece-se dos sentidos coletivamente construídos, de sentidos mais generosos para si e para os outros.  Neste caminho, o Ser se perde, não encontra caminhos de realização, pois não reconhece os seus próprios desejos.
 
Nesse sentido, como repensar a Ética em sua função de resguardar a vida, em função de ter uma morada, possuir um valor de lugar e um valor de posição? Como conciliar os direitos individuais e as obrigações coletivas? Quem sabe, retomando os filósofos, a ética socrático-platônica que postula a anterioridade do conhecimento das formas – justiça, virtude, coragem, responsabilidade etc. – como a condição de estabelecimento do Bem e, então, definir a forma de atingi-lo.

Norma Emiliano

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