Archive for category Terapia de Família

Encontro Terapêutico

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“… Solta minhas mãos e segue. ( )… Por longe que te vás, sempre estarás comigo”. 
Cora Torres Maia

Eu e você, o nós; o nosso encontro. Momento impar de disponibilidade; de sair de mim e estar com você. Na sua fala, na minha escuta, na empatia, no nosso diálogo estão os nossos caminhos. Entre suas e minhas histórias enveredamos por estradas. Encontramos lugares desconfortáveis, tristes e solitários. Lugares que trazem muitas recordações e saudades; lugares marcados por lágrimas e mágoas. Lugares que são seus que, às vezes, confundem-se com os meus. Nos fios traçados, os diversos personagens entram e saem de cena, mas você e eu estamos aqui. Com você vem toda a bagagem genética e emocional construída ao longo das diversas gerações que lhe  antecederam; o seu Ser, a sua dor, a sua história. Comigo, o meu ser (pessoal e profissional), a minha história; a paixão por estar aqui. No passo a passo, no seu passo, vamos entrelaçando os fatos, os sentimentos, os comportamentos e montamos o quebra cabeça. No traçado da linha da vida, dados significativos que estruturam a sua identidade e direcionam seu destino. No passo a passo, no seu passo, vamos entrelaçando e separando os personagens, os sentimentos, os comportamentos e os acontecimentos. Entre suas idas e vindas, progressos e retrocessos vão se intercalando.

Neste percurso quantas descobertas! Novos olhares; novos sentimentos.  Separamos e juntamos, juntamos e separamos muitas dores. Abrimos feridas, mas no passo a passo, muitas curamos. Algumas, mesmo tratadas, deixam marcas profundas. Essas servirão de sinais de alerta no seu ponto de equilíbrio.

Ao termino desse caminho que construímos, desse nosso encontro, fica a riqueza de cada Ser, a nossa troca, o nosso crescimento, a reconstrução da sua vida e o reflorescer da minha prática.
Seguiremos vivos em nossas memórias.

Norma Emiliano

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Expressão da vida

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Claudia Olivos, pintora chilena

 

“Deus criou o homem e enquanto este encontrava-se em sono profundo teria tomado uma costela e criado Eva”. Gênesis 2:18, 20-24

 

Ao perguntar-lhe em que posso ajudá-la posso perceber seu constrangimento. Olhos baixos, braços abandonados ao longo do tronco. Seu rosto pálido é emoldurado pela cabeleira vasta e escura.  Levanta lentamente os olhos e fala, quase em sussurro, que esta muito mal. Soube há poucos dias que está com uma doença crônica e sente a sua vida desmoronando.

No cotidiano profissional encontro o objeto de trabalho no ser humano. No cotidiano relacional de cada indivíduo, os personagens constroem histórias que expressam a vida humana.  De pessoa à pessoa uma questão, várias emoções e vários cenários. De peça em peça monto o quebra-cabeça que desvela a humanidade.

A evolução humana se deu com a tentativa do Homem compreender e manipular o mundo à sua volta. A cada problema colocado pela natureza, ele respondeu com inteligência e criatividade. Isto o possibilitou de desenvolver a tecnologia e a ciência.

O homem é um ser eminentemente social. É um ser histórico e racional.  Faz conexão de idéias, faz ligação dos pensamentos e conclui através destas conexões. Mas, esta racionalidade muitas vezes não lhe traz o melhor. Segundo Freud, “os seres humanos são criaturas boas e gentis, mas que também são maus e agressivos dependendo da vantagem ou do prazer que cada uma dessas duas características lhes confere. São dotados de pulsões, estímulos naturais da psique, que desencadeiam a resposta que dão ao mundo, procurando alívio para as pressões a que estão sujeito em seu cotidiano”.

É o homem quem faz a sua história e utiliza- se da história do passado.  No cotidiano profissional, no contato com o sofrimento, angústias, conflitos, insatisfações, etc. percorre-se a linha da vida de cada pessoa. Neste traçado, fatos significativos trançam a trama que por muitas vezes paralisam o desenrolar natural das histórias do indivíduo. O ser pensante perde-se em suas emoções quando estas o remetem ao passado.  Passado, presente e futuro se entrelaçam na construção da sua história que se define com o que cada um faz em função dos seus sentimentos. No embate das duas forças, emoção e razão, o indivíduo traça seu caminho.

Ampliar a visão sobre o indivíduo e suas questões nos remete as suas interações primárias, a forma como ele lida consigo e com os outros além dos seus familiares. No entrelaço das relações contextualizamos a questão, penetramos no universo pessoal e encontramos recursos que possam favorecer reconstrução da história.

A vida apresentada através da palavra, a vida percebida nas interações familiares, traz a riqueza contida na evolução da espécie, traz a imperfeição humana e a necessidade de um olhar que privilegie a interdependência de todos os elementos que a compõem. Um processo terapêutico que enfatize a saúde ao invés de reforçar a doença.

Em cada indivíduo uma história, em cada indivíduo a humanidade, em cada indivíduo as conquistas e fracassos, as alegrias e dores, enfim todas as etapas da vida que seguem em sua evolução.

Norma Emiliano

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O que significa o Natal?

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Meu bom dia leitor.

Na proximidade do Natal, tenho postado  vários  textos de vários autores para  refletirmos sobre o Natal. Hoje,   convido-o a pensar na  família e  na importância dos seus recursos enquanto  célula “mater” da sociedade.

O Natal  é muito mais que um data ou um dia no calendário. É uma jornada do espírito, das trevas para a luz, do caos para a paz, da separação para a união do amor“.  Karen Katafiasz

A aproximação das festas natalinas traz uma série de sentimentos às pessoas, alguns deles ambivalentes.

O Natal é a data do nascimento de Jesus. Cultiva a fraternidade, alegria, harmonia, presentes, união e amor. Este evento universal tradicionalmente leva as famílias a se reunirem para a ceia, que deveria representar a alegria do reencontro do menino Jesus.

Os núcleos familiares são construídos pelo casal e envolve o desafio da união de duas famílias, isto é, as famílias de origem de cada um deles (pai, mãe, irmãs, tios, avós, etc.) com seus valores, comportamentos, mitos, enfim, diferenças no modo de agir  e pensar.

No Natal, festa familiar, os desejos oriundos dos sentimentos de pertencimento e lealdade provocam, constantemente, grande tensão, entre os diversos membros  das famílias, nas decisões de quem vai reunir com quem, onde e como. Somado a este aspecto, os conflitos do dia -a -dia decorrentes das diversas alianças entre cada um dos membros traz a apreensão e dificuldade na organização e participação no evento, que acaba  favorecendo que venham à tona todas as questões mal resolvidas. Portanto, nem sempre o espírito da data é o que  predomina.

Se pensarmos na família como uma grande teia interligada, observamos que qualquer coisa que  mexa um ponto repercute- se por todo o sistema. Assim, esse momento pode permitir uma reflexão sobre como as relações familiares estão acontecendo, bem como sobre a atitude, a parcela de cada um,  para o estabelecimento de um  contexto no qual a reunião dos membros signifique mais prazer do que tensão.

Segundo Michael Nichols, 1990, “ é necessário parar de esperar que os outros mudem,  vá ao encontro de sua família, ou seja, só se desperta o amor agindo de forma amorosa.”  Isto não significa que as mudanças sejam fáceis e simples, tendo em vista que os hábitos  são cômodos e portanto exigem reflexão, atos deliberados e muita  determinação.

Norma Emiliano

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Qual o seu desejo?

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“Você nunca recebe um desejo sem também receber a capacidade de torná-lo realidade.”
Richard Bach

Nenhuma pessoa racionalmente busca para si a infelicidade. Mas, é comum não se ter certeza do que se quer em um relacionamento. Assim, sentimentos de insatisfação surgem e se mantêm. Quantas pessoas não permanecem anos amarguradas porque não encontram uma parceria e outras por não conseguirem desatar um relacionamento destrutivo?

Em algum momento você já se perguntou o que deseja da vida e dos seus relacionamentos? A crença de que as “coisas do coração” precisam ser espontâneas leva as pessoas a relutarem na reflexão sobre os relacionamentos. Contudo, ninguém age sem objetivos. Portanto, ter clareza sobre seus objetivos aumenta a chance de sucesso.  Definir o que se quer e a expectativa possibilitam traçar caminho e a não “permanecer” onde você não deseja

Na maioria das vezes, as pessoas detêm-se “no outro” para encontrar respostas para as suas questões, quando as respostas estão consigo mesmo. Responder o que você quer mudar, entrar em contato com as dificuldades pessoais, detectar as atitudes que precisa ter para conseguir o que almeja, leva à transformação.

As crenças pessoais determinam caminhos, os pensamentos positivos favorecem que se atinjam os objetivos. Entretanto, nada é definitivo e, assim, a construção é diária. Há sinais ao longo do caminho que denunciam se a direção está correta.  É comum que não se faça conexão dos eventos cotidianos, dos sentimentos aos sintomas físicos, mas eles são um bom referencial para que se indague se algo não vai bem em sua vida. Desta forma, o investimento na atenção e tempo são fatores preponderantes nessa construção.

Como começar este processo?  Na atenção diária aos seus sentimentos e ações. Na atenção aos seus desejos, às suas necessidades. Enfim, ter consciência de si próprio, dos seus limites pessoais, pois se você não se autoconhece dificilmente perceberá o outro.  Acontece com frequência que se veja o outro como extensão de si próprio e desta forma surgem muitas frustrações e conseqüentemente as mágoas.

Um bom relacionamento é aquele em que as pessoas são próximas o suficiente para dar espaço ao outro de ser o quem ele é, sem as cobranças de suas expectativas pessoais. No momento em que você consegue equilibrar seus desejos e necessidades, poderá compartilhar dos desejos e necessidades com o outro.

Norma Emiliano

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Por quê Terapia de Família?

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Quantas vezes ouvimos pessoas desesperançadas e infelizes por se depararem freqüentemente com situações repetitivas em suas vidas e, com certa constância, culpando a terceiros pelo que lhes acontece. Quando o ser humano se indaga quais são as suas atitudes que podem estar favorecendo a uma seqüência de acontecimentos desagradáveis?

O homem ao nascer entra numa história construída por seus antepassados e recebe uma bagagem composta de valores, expectativas, comportamentos, etc. Assim, no decorrer do seu desenvolvimento no contexto familiar aprende a se relacionar através das interações constantes com os diversos membros. Este aprendizado se converte em marcas que se levam para todas as diversas áreas: amizade, profissional, amor, etc.

Essas marcas trazidas da família não são percebidas e as pessoas vão lidando em seus diversos relacionamentos repetindo os padrões relacionais originais, atraindo para si sempre os mesmos resultados, muitos deles insatisfatórios. Por outro lado, os passos normais da vida na família (infância, adolescência, etc.) somados às dificuldades ocasionais como: desemprego, acidentes, morte, etc podem ocasionar o surgimento de problemas, na medida em que vão exigir mudanças nas relações e nos hábitos.

Quando surge uma crise a família paralisa e o sintoma em um dos membros (distúrbio de aprendizagem, distúrbio alimentar, depressão, agressividade, etc.) pode denunciar a disfunção familiar. Este é um momento que significa risco, mas ao mesmo tempo a possibilidade de crescimento e mudanças. Neste sentido a Terapia de Família, através da intervenção junto ao indivíduo, casal e/ou família analisa os padrões de interações familiares, identifica o problema, como ele está sendo mantido e como poderá ser alterado, possibilitando que cada pessoa se torne mais centrada e menos repetidora dos seus padrões relacionais.

Norma

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Entre eles

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Ao se constituir a parceria conjugal, cada um traz seu modo de ser e ver o mundo, que se traduz nas atitudes e decisões cotidianas. O nascimento dos filhos inaugura a família nuclear.  Os filhos sofrem as influências dos valores dos pais tendo como norteador os seus comportamentos. Quando há muitas diferenças e poucas negociações, instala-se uma guerra de poder, na qual os filhos se confundem.

No momento em que surge a necessidade de separação do casal, a família se transforma em duas, as quais se denominam de uniparentais ou monoparentais, ou seja: mãe e filhos e, pai e filhos.

Normalmente, encontramos jovens que têm dificuldade de afirmarem sua identidade, sofrendo por não poderem atender às expectativas paternas e não ter clareza dos seus desejos. Os filhos gostam dos seus pais e por mais aliança que tenham com um deles sentem-se presos ao sentimento de lealdade que se estabelece ao longo do desenvolvimento do ciclo familiar. Isto pode se agravar quando após a separação os pais mantêm rivalidades.

Na separação, a reorganização das relações é fator decisivo para o equilíbrio emocional de todos os membros, principalmente dos filhos. O estabelecimento das fronteiras, estar separado como homem e mulher e estar cooperando como pais, é crucial para que os filhos possam seguir em frente sem ter que estar entre os pais. É necessário abandonar a antiga estrutura e estabelecer outra mais funcional. Isto implica em superar os ressentimentos e, muitas vezes, abandonar a esperança de reunificar.

Ter duas casas pode ser uma coisa positiva para os filhos, na medida em que o pai e a mãe possam desenvolver relacionamentos independentes e definir regras e papéis claros e nítidos, sem disputas e atritos. Desta forma, facilitando aos filhos poderem ir e vir sem grandes problemas.

Os filhos anseiam por uma relação natural com o pai e a mãe e nada é mais pernicioso do que as críticas da outra parte. O filho em contato com cada um, sem a intervenção do outro, conseguirá construir a sua relação com cada um dos pais de forma saudável e ter equilíbrio para escolhas e decisões de caminhos.

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Briga de casais

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O casamento é aquele ambiente idealizado em nossa infância onde somos amados sem reservas e tudo funciona por conta própria, e, se não funcionar, é culpa do outro”.  Kitty LaPerrière

Constatamos nos atendimentos a casais o desalento dos parceiros por não conseguirem mais se entender. Falam dos conflitos contínuos, da indecisão de se manterem juntos e da impossibilidade da comunicação. Sentem-se perdidos, sofrem, e cada um está convencido de que o outro é a causa do problema.

O início dos relacionamentos é envolvido pelas idealizações de cada um dos membros do casal. Passada a fase do encantamento, surgem as diferenças, que são sentidas como uma traição às expectativas depositadas  na relação através das idealizações. Assim, surgem os primeiros conflitos. Um culpa o outro por sua infelicidade. Surgem as mágoas e a comunicação começa a ser interrompida.

Se pensarmos que o casal é composto de três partes: dois indivíduos e uma relação, cada uma das partes necessita ser observada. No contexto do casal, inconscientemente, cada um ajuda o outro em suas atitudes. As influências são recíprocas.

Ao resolver viver junto, o casal se compromete numa história comum que implica  na tomada de decisões conjuntas, formando-se  uma rede de interdependências complexas. Criar uma história comum significa lidar com diferenças. Cada um tem suas próprias experiências que moldaram seu modo de ser, pensar e agir. Além do que, de acordo com Framo “ os conflitos interiorizados, originados das relações familiares, do passado, são revividos no presente através das relações conjugais.”

A relação de casal é um processo de construção contínua, isto significa mudanças nas atitudes e nas regras para se adequar às diversas necessidades de cada etapa.  Estas, algumas vezes, são difíceis de serem apreendidas e realizadas.  Nos momentos de transição, quando se instala a paralisação, acaba sendo detonada uma crise.

Normalmente, não se recorre à terapia até que os problemas cheguem ao clímax. Entretanto, a crise se percebida e avaliada no momento oportuno, pode possibilitar uma nova vitalidade e a redefinição do contrato do casal.

Norma

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Dança relacional

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A chegada do primeiro filho traz para o casal mudanças significativas, não só na rotina cotidiana, mas de papéis, que vão fazer ressurgir emoções, muitas delas inconscientes. Nesta etapa, quando o casal passa a desempenhar a função paterna, os modelos familiares vêm à tona e, algumas vezes, confundem trazendo sentimentos incompreensíveis como por exemplo: sentimento de culpa, na maioria das vezes, na mulher e de rejeição, no homem.

Vivemos um momento de profundas transformações sociais, no qual a mulher vem ocupando novos espaços e alcançando, no plano sexual, uma maior liberdade. Contudo, ainda, enfrentamos nos consultórios os dilemas conjugais, nos quais no cerne do distanciamento e conflito conjugal detecta-se a dificuldade de reorganização do casal para lidar com esta etapa de vida da família ( nascimento dos filhos).

O nascimento de um filho requer mudanças na organização familiar para as quais um ou ambos os cônjuges podem estar despreparados. As exigências de um bebê requer funções diferenciadas dos cônjuges e o tempo que o casal passa junto se restringe. Nesse processo, na maioria das vezes, perdem de vista o relacionamento íntimo e só compartilham a função paterna.

O filho precisa ser acolhido, sentir-se pertencente, ser protegido mas, também, ser encorajado a se desenvolver e isto está diretamente ligado à forma como o casal administra sua relação, seu vínculo amoroso e sexual. Assim sendo, é inevitável o conflito se os pais não conseguem desfrutar da companhia um do outro sem os filhos.
Normalmente, encontramos alianças entre pais e filhos, por exemplo: mãe aliançada a filha e/ou pai aliançado ao filho, que podem vir a se transformar em um verdadeiro campo de batalha, no qual temos como produto final prejuízo para todos os envolvidos.

Neste sentido, tanto a relação conjugal como a entre pais e filhos dependem de como foram vivenciadas, interpretadas e elaborados os conflitos por cada um dos membros. As histórias familiares, os modelos dos subsistemas (conjugal, paterno, fraterno) influenciam no modo como os parceiros adaptam- se às novas situações. Portanto, de acordo com Bowen “o maior laboratório é a casa dos pais”. Uma visão objetiva das forças que nos moldam ajuda a nos libertarmos de expressá-las inconscientemente.
Norma

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Canção Silênciosa

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Existe uma canção a ser cantada em nossa cultura: a canção dos ritmos dos relacionamentos, das pessoas enriquecendo-se e expandindo-se mutuamente.

Nós nascemos com a capacidade para a colaboração, acomodação e mutualidade. Todos os recém – nascidos vêm equipados com uma receptividade bem sintonizada com o som e voz da mãe e o ritmo de seus movimentos. A mãe e a criança se definem mutuamente em milhões de pequenos atos com a precisão de uma reação química. Esta é a silenciosa canção da vida.

Mas este processo precisa ser destacado na nossa cultura, porque em geral o que percebemos são as discordâncias, as diferenças. Nós nos detemos nas desigualdades e não prestamos atenção aos padrões que tornam possível a vida familiar, às harmonias que não valorizamos.

A nossa sociedade é uma sociedade que celebra a singularidade do individual e a busca do self autônomo.

A marca registrada da terapia familiar é tratar ao mesmo tempo da individualidade e das conexões. Quando os membros da família param de dar ênfase ao comportamento frustrante dos outros e começam a ver a si mesmos como interligados, eles descobrem novas opções de relacionamento.

O terapeuta familiar pode navegar entre o reino da individualidade e das conexões, da unidade familiar. Os membros da família com sua longa história em comum, reconhecem que vivendo juntos eles ao mesmo tempo limitam e enriquecem um ao outro. A vida na família realmente limita nossa liberdade, mas também oferece um inesgotável potencial de felicidade e realização pessoal.

Isso implica em aceitar as possibilidades e limitações em si mesmo e nos outros. Tolerar incertezas e diferenças. Esperança de novas maneiras de viver junto. Esta é a canção que nossa sociedade precisa ouvir : a canção do eu-e-você, a canção da pessoa no contexto, responsável perante os outros e pelos outros.

Para ouvi-la precisamos ter a coragem de renunciar à ilusão do self (eu) autônomo e aceitar as limitações do pertencer.

MINUCHIN, Salvador, NICHOLS, Michael. A cura da família – história de esperança e renovação contada pela terapia familiar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993. p.268.

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A Influência do Serviço Social na Terapia Familiar

Serv. SocialA profissão do assistente social desenvolveu-se no final do século XIX, a  partir  dos  movimentos  de caridade na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. Naquela época, como agora, os assistentes sociais dedicavam-se a melhorar a condição dos pobres e desprivilegiados da sociedade. Além de atender as necessidades básicas de alimentos, vestuário e  habitação,  os assistentes  sociais também  tentavam aliviar a angústia  emocional  nas  famílias   de seus clientes  e  encaminhá-los  às  entidades  sociais responsáveis pelos extremos de pobreza e privilégios. O visitador solidário era um assistente social que visitava os clientes em suas casas para avaliar suas necessidades e oferecer ajuda. Tirando os profissionais de seus escritórios e os levando até as casas das pessoas carentes, essas visitas serviram para derrubar a artificialidade do modelo médico-paciente que prevaleceu durante tanto tempo.

Os visitadores solidários estavam diretamente envolvidos no tratamento de problemas de casamentos conturbados e dificuldades na educação dos filhos. Os profissionais das casas de assistência social ofereciam serviços sociais, não apenas aos indivíduos, mas também aos grupos familiares. A assistência social familiar foi provavelmente o foco mais importante do treinamento inicial em serviço Social. Na verdade, o primeiro curso ministrado pela primeira escola de Serviço Social dos Estados Unidos intitulava-se “O Tratamento das Famílias Carentes em Suas Próprias Casas” (Siporin, 1980). Os profissionais aprendiam a importância de entrevistar pai e mãe ao mesmo tempo para obter um quadro completo e preciso dos problemas de uma família, isto em uma época em que as mães eram consideradas responsáveis pela vida familiar, e muito antes dos profissionais tradicionais de saúde mental terem começado a experimentar a realização de sessões familiares conjuntas. Estes estudiosos da assistência social familiar da virada do século estavam bastante conscientes de algo que a psiquiatria demorou mais 50 anos para descobrir que as famílias devem ser consideradas como unidades. Assim, por exemplo, Mary Reymond (1917), em seu texto clássico Social Diagnoses, prescreveu o tratamento de “toda a família” e advertiu contra o isolamento dos membros da família de seu contexto natural.

O conceito de Richmond de coesão familiar tinha um toque incrivelmente moderno, antecipando, como realmente o fez, os trabalhos posteriores das teorias do papel, a  pesquisa de  dinâmica de grupo e, é claro, a  terapia  da  família estrutural. Segundo Richmond, o grau de vínculo  emocional  entre os  membros da família  era  um  determinante fundamental da sua capacidade de sobreviver e florescer. Richmond também previu desenvolvimentos com os quais a terapia familiar passou a se preocupar na década de 1980, encarando as famílias como sistemas dentro de sistemas. Como observaram Bardhill e Sauders (1989 no livro Marital conflict and psychoanytic ): Ela (Richmond)  reconheceu que as famílias não são conjuntos isolados (sistemas fechados), mas existem em um contexto social particular, que influencia interativamente e é influenciado por seu funcionamento (isto é, são abertos). Descreveu graficamente esta situação, usando um conjunto de círculos concêntricos para representar vários níveis sistêmicos, desde o individual até o cultural. Sua abordagem à prática foi considerar o efeito potencial de todas as intervenções em todo o nível sistêmico, e compreender e usar  a  interação  recíproca  da hierarquia sistêmica  para  propósitos terapêuticos.  Ela realmente assumiu uma visão sistêmica da angustia humana. (p. 319). Ironicamente, os primeiros assistentes sociais a encararem  a  família  como a  unidade  de  intervenção, recuaram  para  uma visão  mais tradicional  da abordagem indivíduo-como-paciente quando ficaram sob a influência da psiquiatria na década de 1920.

Os assistentes sociais do ramo da saúde mental foram fortemente influenciados pelo modelo psicanalítico prevalecente, que enfatizava os indivíduos, não as famílias. Quando o movimento da terapia familiar foi iniciado, os assistentes sociais estavam entre seus mais numerosos e mais importantes colaboradores. Entre os líderes da terapia familiar que são assistentes sociais estavam: Virginia Satir, Ray Bardhill, Peggy Papp, Lynn Hoffman, Froma Walsh, Insoo  Berg, Jay  Lappin, Richard  Stuart, Harry  Aponte,  Michael White, Doug  Breunlin, Olga  Silverstein, Lois Braverman, Steve de Shazer, Peggy Penn, Betty Carter, Braulio Montalvo e Monica McGoldrick. A propósito, mesmo começar uma lista dessas é difícil, porque, a menos que escrevêssemos páginas e páginas de nomes, seria inevitável a omissão de muitos nomes importantes.

Texto  extraído do Livro: TERAPIA FAMILIAR Conceitos e Métodos – Nichols, M. P. & Schwartz, R. C.  – Artmed – 1998 ( p. 34-35)

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