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O amor ao próximo

 empatia

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A partir da experiência clínica,  considero que  um dos fatores  significativos do processo terapêutico é  a empatia.  Esta consiste em conhecer o mundo do outro e se unir a ele no sentido de compreender as suas experiências.

Os conhecimentos teóricos e a  experiência de vida são as  lentes do terapeuta, contudo  cada cliente é único, o seu sofrimento é sentido nesta singularidade e, assim sendo, precisa ser aceito e compreendido. Enfim, é colocar-se disponível para a pessoa que precisa de ajuda.  Isto envolve  a habilidade de escutar e caminhar em função daquilo que é identificado.

Cabe ressaltar que a capacidade de empatizar só é desenvolvida quando se ouve e se respeita as próprias necessidades e sentimentos.

Artur da Távola escreveu uma crônica  enfatizando  que o sentimento do outro é quase um milagre, é o conteúdo oculto do amor ao próximo.   Leia abaixo.

O Milagre da empatia

“O mais difícil dos sentimentos é o sentimento do outro. O outro é ele e és tu. Ele é realmente o outro ou é a parte tua que não queres ser, saber, ver ou aceitar? Tu és o outro para os outros, logo és igual a ele. Todos somos “outros”. E, no entanto o outro invade, ameaça, mastiga de boca aberta, irrita, eriça, machuca.
Até teu filho é o outro. E tu, pobre pretensioso, pensas que ele é teu…

O sentimento do outro quantas vezes te faz parar, meditar, deixar de fazer o melhor que tens ou podes, só porque o outro é o mistério que te ameaça. Por que o outro te ameaça? Porque és tu. Quanto maior teu sentimento do outro, maior será teu o sentimento do melhor e do pior que tens.

O sentimento do outro não é sentir por ele. É saber o que ele sente. É avaliar o como e o quanto ele sente. O sentimento do outro não é o masoquismo de fazer teu, um sofrimento que só a ele pertence. É dimensionares a medida certa do sofrimento dele e só poderes ajudar porque não fazes teu um sofrimento que é alheio mas o entendes e sentes, na exata medida de sua extensão, sem as marcas e as limitações da dor enquanto dói. Não é ficar como o outro. É ficar com o outro. O sentimento do outro é quase um milagre. Cuidado com ele, vai te obrigar a ceder, a entender. Atrapalhará para sempre teu desejo, tua gula e vontade.

O sentimento do outro é aquilo que é mais prático não ter. Mas, em caso positivo é contágio de saúde: não podes deixar de exercê-lo. Senão fermentas. Senão apodreces.
Ele freará tua vitória, calará teu brilho e tua boca, impedirá tua vaidade. Pode, até, te pregar a suprema peça de te fazer entender os detestáveis. Cuidado com ele! Quanto maior, mais anulador! Quanto mais anulador, mais repleto de grandeza.

O sentimento do outro, talvez te faça tímido, herói, cais, antena. Ser antena dilacera, sabias? O sentimento do outro te exigirá nervos, músculos, e uma paciência de anacoreta. Quanto mais o outro o perceba em ti, mais ele te invadirá, cobrará, exigirá, até quando, exaurido, ainda consigas juntar os cacos do teu cansaço para, ainda assim, prosseguir.

O sentimento do outro é tua glória e tua tragédia! Tanto mais o terás quanto encontres em ti os escaninhos escurecidos do que és e, ao mesmo tempo as luzes do que, ainda puro, brilha em ti.
O sentimento do outro é o conteúdo oculto do amor ao Próximo.

Artur da Távola –  advogado, jornalista, radialista. escritor e político

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De olhos vendados

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Aprender a viver com o que dói, deixar-se ir e desprender-se é um trabalho pessoal.

Nasceu com uma inteligência privilegiada. Construiu sua estrada baseando-se na capacidade de racionalizar tudo a sua volta.  Nas explicações lógicas do viver, criou sua defesa pessoal às dores de feridas que permanecem guardadas.

De tempo em tempo, uma profunda angústia tira-lhe o sossego. Por mais que pense, não consegue conectar um real motivo para tal. Na morte da sua mãe, sua primeira grande angústia, soube reconhecer as causas, bem como, na dissolução do casamento. Fatos bem palpáveis. Mas, no seu cotidiano, não consegue perceber que passa os dias, muito mais reagindo que agindo. Suas feridas são constantemente “cutucadas” e passa a ter posturas e respostas agressivas que não lhe são visíveis.

“Cercas de arames farpados” constroem-se.  O contato íntimo com a dor não se faz possível. Quem desafia a sua dor é rispidamente afastado. Nesse círculo vicioso,  perde o contato consigo  e fica vulnerável.

Os momentos da infância, as interações construídas nessa etapa, a posição que a família nos impõe e a forma como a aceitamos, fazem parte da trama que direciona grande parte da nossa história.

Ser forte, ser modelo, não poder expressar a dor, quando o indivíduo está em formação, constantemente, criam uma couraça que transmite ao corpo uma postura rígida e deixa o emocional frágil e vulnerável. Cada pessoa cria a sua própria defesa, que acaba se constituindo em vendas para os olhos da alma e forma, o que podemos denominar, o “emburrecimento emocional”.

 Todo ser humano tem necessidade de amor e segurança. Aquilo que ele vivenciar em suas primeiras interações familiares, seja qual for à realidade (violência, conflito, alegria), na  sua visão infantil, é a única descrição de amor e segurança que terá ao longo da sua vida.

Quando o indivíduo apenas reage às situações que surgem, fica sem escolhas, não é verdadeiro consigo próprio e sua busca pela felicidade limitada. É importante que possamos conhecer e reconhecer o que nos condiciona, o que  nos leva a executar ordens enquanto racionalizamos sobre por que as estamos fazendo.

“Quando mergulhamos fundo nos nossos sentimentos, obtemos informações novas que nos levam a um passo adiante de nos livrarmos de nossos demônios pessoais”. Jordan.

Norma Emiliano

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A ternura

 TERNURA

                                                           

O mundo com tanta violência, corrupção e competição, dificulta que o sentimento e gesto de ternura se expandam nas famílias. No entanto, na pureza do olhar da criança, na beleza das flores, na suavidade do canto dos pássaros podemos encontrar  motivação para  introduzir em nossos cotidianos a ternura.  

Qualquer tempo é tempo para transformação.  A vida humana urge  expressar doçura e carícias e com as palavras de  Vinícius de Moraes enfatizo: ”deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar  extático da aurora”.

Continue por   aqui e mergulhe no texto do  escritor Rubem Alves .

 

A Ternura

 Sentir ternura é não sentir as dores do amor nem a ardência sexual da paixão. Ela flerta entre um e outro, mas possui uma pureza singular.

Soeren Kierkegaard definiu a pureza de coração como “desejar uma só coisa”. Puro é aquilo em que não há misturas; é uma coisa só, um único desejo. Assim é a paixão: pura. Porque ela se alimenta de uma coisa só: a imagem da pessoa amada.

Não se trata de uma imagem mais bonita que as outras. É uma única imagem que apaga todas as outras. O apaixonado só pensa na pessoa amada. Em todos os momentos, sempre. Os assuntos que fazem as conversas do cotidiano não o interessam.

Camões, no episódio de Inês de Castro, escreveu que ela caminhava “dizendo aos campos e às ervinhas o nome que no peito escrito tinhas…”. Se não havia ouvidos humanos a quem pudesse dizer o nome que tinha gravado no peito, que as árvores, a relva e as pedras fossem depositários do seu segredo.

A raposa pediu que o Pequeno Príncipe a cativasse.

“– O que é cativar?’, perguntou o Pequeno Príncipe.

“– Cativar é assim”, explicou a raposa. “Eu me assento lá longe e você se assenta aqui. Eu olho para você e você olha para mim. No dia seguinte nos assentamos mais perto. Eu olho para você e você olha para mim. Até que nos assentamos juntos. Se você me cativar eu pensarei em você, conhecerei o ruído dos seus passos e sairei da minha toca quando você chegar…” Aconteceu então que o Pequeno Príncipe cativou a raposa. O tempo passou e chegou um dia em que ele disse à raposa:

“– Preciso ir…”

A raposa disse: “– Vou chorar…”

“Não é culpa minha. Eu não queria cativar você. E agora você vai chorar… O que é que você ganhou com isso?”

“– Ganhei os campos de trigo”, disse a raposa.

“– Como assim?”, perguntou o Pequeno Príncipe sem entender.

“Eu sou uma raposa. Eu como galinhas, não como trigo. Os campos de trigo não me comovem. Mas porque você me cativou eu amarei os campos de trigo. O seu cabelo é louro. Os campos de trigo são dourados. Assim, quando o vento bater nos campos de trigo eu me lembrarei de você e sorrirei…”. O rosto do Pequeno Príncipe estava gravado no trigal. Mas isso só o apaixonado vê.

O amor começa quando colocamos uma metáfora poética no rosto da mulher amada. A paixão é uma experiência estética. Está ligada à contemplação da beleza. A mulher pela qual se está apaixonado é bela. É o olhar apaixonado que a torna bela. Porque não vemos o que vemos; vemos o que somos. Uma mulher é bela quando nos vemos belos ao olhar nos seus olhos. Quem, ao olhar para uma mulher, pensa em sexo não é um apaixonado.

O apaixonado sorri ao contemplar sua amada dormindo, sem tocá-la. É um momento de ternura. Há um desejo de acariciá-la, mas a mão se contém. Nenhum movimento seu deverá interromper a beleza da cena. Nessa cena os impulsos sexuais estão proibidos.

 O sexo dos adolescentes e jovens se parece com um furúnculo inchado; túrgido, vermelho, dolorido que busca livrar-se do incômodo. Ele nem precisa de um objeto que o excite. Ele se excita por si mesmo. O que se busca não é a experiência amorosa; é rasgar o furúnculo para que o pus saia trazendo alívio. E quando o orgasmo acontece numa mistura de dor e prazer, o furúnculo se esvazia e o corpo fifica em paz. Pode até ser que nesse momento o parceiro se esqueça da mulher ao seu lado, vire para o outro lado e durma.

Era o sexo que Tomas, personagem de A insustentável leveza do ser (Milan Kundera), fazia com suas namoradas. Tomas não sentia ternura por suas amantes. Ele as usava. Não as amava. Mas uma delas protestava: “Não procuro o prazer, procuro a alegria…” Mas onde mora a alegria? Mora no rosto da mulher amada, nos seus olhos que dizem: “Como é bom que você existe…”

 Rubem Alves

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Pausa carnavalesca

 Agradeço sua visita.

Os dias de carnaval inspiram folia para muitos, o descanso para alguns e para  outros viagens e passeios. Portanto, é um momento de pausa em nossas rotinas.

As atualizações ficarão suspensas até o dia 17 de fevereiro. Mas se desejar,  faça deste espaço instante de pausa e reflexões.  Aproveite o arquivo do blog e deixe seus comentários.

Bom carnaval

  

Tauil
3 de abril de 2009

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Sobre carnaval

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Segundo conta a história, em Roma, em louvor ao deus Saturno, comemoravam-se as Saturnais. A importância desses festejos eram de tal porte que tribunais e escolas fechavam as portas durante o evento, escravos eram alforriados, as pessoas saíam às ruas para dançar.

Na abertura dessas festas, carros em forma de navios saíam na “avenida”, com homens e mulheres nus. Estes eram chamados os carrum navalis. Dizem  que daí saiu a expressão carnevale.
 
O costume de se brincar no período do carnaval foi introduzido no Brasil pelos portugueses, provavelmente no século XVI, com o nome de Entrudo.  Essa palavra  vem do latim introitus  que designa as solenidades litúrgicas da Quaresma.

As pessoas jogavam uma nas outras, água, ovos, farinha, fuligem, cal, pó-de-sapato, alvaiade e vermelhão, que empapavam o transeunte . Esse acontecia num período anterior a quaresma e portanto tinha um significado ligado à liberdade.

No Brasil, o entrudo chegou por volta do século XVII sob a influencia das festas carnavalescas que aconteciam na Europa. Em países como Itália e França, o carnaval ocorria em formas de desfiles urbanos, onde os carnavalescos usavam máscaras e fantasias. Personagens como a colombina, o pierrô e o Rei Momo, de origem européia, também foram incorporados ao carnaval brasileiro.

No Brasil, no final do século XIX, surgem os primeiros blocos carnavalescos, cordões e os famosos “corsos”.  As pessoas se fantasiavam, decoravam seus carros e, em grupos, desfilavam pelas ruas das cidades. Está ai a origem dos carros alegóricos, típicos das escolas de samba atuais.

No século XX, o carnaval cresce e torna-se cada vez mais uma festa popular. Esse crescimento ocorreu devido às marchinhas carnavalescas.

A primeira escola de samba surgiu no Rio de Janeiro e chamava-se Deixa Falar que anos mais tarde transformou-se na escola de samba Estácio de Sá.  A partir dai o carnaval de rua começa a ganhar um novo formato. Começam a surgir novas escolas de samba no Rio de Janeiro e em São Paulo. Organizadas em Ligas de Escolas de Samba, começam os primeiros campeonatosde beleza e animação.

De acordo com, Cavalcanti (1983) no Brasil no carnaval, as posições sociais são invertidas dando a essa festa nacional uma grande importância por sua popularidade unindo uma grande parcela da nação em uma mesma “corrente” de confraternização.

 

Fontes

http://artes.com/carnaval/historia.html
http://www.karnaval.com.br/c_origem_e_historia/index.html
Cavalcanti.L.M D. O carnaval na poética de Manuel Bandeira. Darandina Revista Eletrônica.Programa de Pós-Graduação em Letras / UFJF – volume 2 – número 1. 1983

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Saúde Mental- Rubem Alves

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Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei.

 Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico. Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh matou-se.Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakoviski suicidou-se.

Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos.Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as idéias comportam-se bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou.

Pensar é uma coisa muito perigosa… Não, saúde mental elas não tinham… Eram lúcidas demais para isso.Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata.Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental.Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvir falar de político que tivesse depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.

Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos.Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente “equipamento duro”, e a outra denomina-se software, “equipamento macio”. Hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito. O software é constituído por entidades “espirituais” – símbolos que formam os programas e são gravados nos disquetes. Nós também temos um hardware e um software.

O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo “espirituais”, sendo que o programa mais importante é a linguagem.

Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software.Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam.

Não se conserta um programa com chave de fenda.Porque o software é feito de símbolos e, somente símbolos, podem entrar dentro dele.Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o corpo fica excitado. Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e os acessórios, o hardware, tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção!

Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio:
A música que saia de seu software era tão bonita que seu hardware não suportou… Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, “saúde mental” até o fim dos seus dias.

Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes.

A beleza é perigosa para o hardware. Cuidado com a música… Brahms, Mahler, Wagner, Bach são especialmente contra-indicados. Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Tranquilize-se há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago?

Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato.

Seguindo essa receita você terá uma vida tranqüila, embora banal.

Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram…

 

Rubem Alves, “Sobre o tempo e a eternidade”. Campinas: Speculum/Papirus. 164p.

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Compartilhando belezas

 

“Compreendi que a vida não é uma sonata que, para realizar sua beleza, tem que ser tocada até o fim. Dei-me conta, ao contrário, de que a vida é um álbum de minissonatas. Cada momento de beleza vivido e amado, por efêmero que seja, é uma experiência completa que está destinada à eternidade.
Um único momento de beleza e de amor justifica a vida inteira.”
 
Rubem Alves
Concerto para corpo e alma.

 

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Foto de Tião/ 2010

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Ambição e Ética- Stephen Kanitz

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As pessoas costumam ter como ambição ganhar muito dinheiro, casar com uma moça ou um moço bonito ou viajar pelo mundo afora.

A mais pobre das ambições é querer ganhar muito dinheiro, porque dinheiro por si só não é objetivo: é um meio para alcançar sua verdadeira ambição, como, por exemplo, viajar pelo mundo.

Já a ética são os limites que você se impõe na busca de sua ambição.

É tudo que você não quer fazer na luta para conseguir realizar seus objetivos. Como não roubar, não mentir ou pisar nos outros para atingir sua ambição, ou seja, é o conjunto de princípios morais que se devem observar no exercício de uma profissão.

A maioria dos pais se preocupa bastante quando os filhos não mostram ambição, mas nem todos se preocupam quando os filhos quebram a ética.

Se o filho colou na prova, não importa, desde que tenha passado de ano, o objetivo maior.

Algumas escolas estão ensinando a nossos filhos que ética é ajudar os outros. Isso, porém, não é ética, é ambição.

Ajudar os outros deveria ser um objetivo de vida, a ambição de todos, ou pelo menos da maioria. Aprendemos a não falar em sala de aula, a não perturbar a classe, mas pouco sobre ética.

O problema do mundo é que normalmente decidimos nossa ambição antes de nossa ética, quando o certo seria o contrário.

E por quê? Por que dependendo da ambição, torna-se difícil impor uma ética que frustrará nossos objetivos.

Quando percebemos que não conseguiremos alcançar nossos objetivos, a tendência é reduzir o rigor ético, e não reduzir a ambição.

O mundo conheceu a história de uma estagiária na casa branca, que colocou a ambição na frente da ética e tirou o partido democrata do poder, numa eleição praticamente ganha, devido ao enorme sucesso da economia na sua gestão.

Não há nada de errado em ser ambicioso, desde que se defina cedo o comportamento ético.

Quando a ambição passa por cima da ética como um rolo compressor, o resultado é o que podemos acompanhar nos noticiários que ocupam as manchetes em nosso país.

Assim, para mudar definitivamente essa situação, é preciso estabelecer um limite para nossa ambição não nos permitindo, em hipótese alguma, violar a ética para satisfação pessoal, em detrimento do coletivo.

Conforme ensinou Jesus, “seja o seu falar: sim, sim, não, não”. Seja em que situação for.

E se estiver difícil definir se estamos agindo com ética ou não, basta imaginar como julgaríamos esse ato, se praticado por outra pessoa.

Se o condenamos é porque não é ético. Se o aprovamos e julgamos justo, então podemos seguir em frente.

Defina sua ética quanto antes possível. A ambição não pode antecedê-la, é ela que tem de preceder à sua ambição.
Stephen Kanitz é administrador

Fonte www.kanitz.com.br- Publicado na Revista Veja, edição 1684, ano 34  nº 3, de 24 de janeiro de 2001

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A arte de ver- Rubem Alves

olhos

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Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as “Odes Elementales”, de Pablo Neruda. Procurei a “Ode à Cebola” e lhe disse: “Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: ‘Rosa de água com escamas de cristal’. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta… Os poetas ensinam a ver”.

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.

William Blake sabia disso e afirmou: “A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê”. Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.

Adélia Prado disse: “Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra”. Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. “Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios”, escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada “satori”, a abertura do “terceiro olho”. Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: “Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram”.
Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, “seus olhos se abriram”. Vinicius de Moraes adota o mesmo mote em “Operário em Construção”: “De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa – garrafa, prato, facão – era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção”.

A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas – e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam… Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.

Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: “A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas”.

Por isso – porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver – eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar “olhos vagabundos”…

http://www.rubemalves.com.br/aartedever.htm

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Pensando em famílias

rosanegra

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Passagem de Ano, comemorações de um lado, tragédias de outro. Exaltação à vida e  desalento pela morte e destruição. A dor da perda vem sendo anunciada incessantemente pela mídia. Entramos num clima de tristeza  e solidariedade.  Cada corpo encontrado em Angra dos Reis nos alerta da gravidade do momento que estamos vivendo.

Tantas famílias têm tido seus lares destruidos por perdas materiais e  seus corações partidos pela morte de entes queridos. As chuvas torrenciais carregam em suas águas moradias, sonhos e vidas. Somos parte  deste universo e precisamos somar  esforços para  não sermos banidos. Não  podemos continuar apenas apagando incêndios. Não há desenvolvimento de um país sem que se privilegie a todos sem distinção.

Deixo aqui para reflexão: como repensar a Ética em sua função de resguardar a vida, em função de ter uma morada, possuir um valor de lugar e um valor de posição? Como conciliar os direitos individuais e as obrigações coletivas?

Norma

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