Archive for category Conto

Fragmento de um encontro

SAM_2194

Aos 85 anos mantém-se ágil e lúcida. Os cabelos são brancos como algodões, a voz macia e os olhos espertos. Sua figura me chama atenção, desperta a admiração de uns e recordações de outros: – Ah! Deixe-me abraçá-la, você me fez lembrar minha querida avó, diz uma jovem.

Foi numa viagem de férias, num city tour, entre os diversos turistas, que a vi. Ora do lado do filho, ora do lado da neta e por vezes sozinha apreciando os detalhes de cada lugar.

Comunicativa, de imediato, acolhe a minha conversa e fala da sua disposição cotidiana nos seus afazeres domésticos.

Viúva há muitos anos, lamenta a falta do braço e mão do companheiro em suas andanças.  Ativa e participante vai a todos os passeios, pois se sente em porto seguro junto aos seus.

Não sei muito da sua história, mas o carinho, atenção, a interação entre ela e seus familiares e a forma como acolhem, transmite-me muito afeto e contentamento pelo compartilhar daqueles momentos.

Em nossa despedida ouça-a dizendo carinhosamente, quero encontrá – la, você é muito alegre, abraço-a e digo:

- Você já me encontrou…

Somos passageiros da vida, na imensidão do universo, cruzamos com muitos, convivemos com alguns e tocamos corações de outros, não importa a duração, mas a intensidade do toque.

Uma foto simbolizou este encontro, o toque permanece na alma e neste fragmento o registro da magia que nos é ofertada pelo existir.

Tags: , ,

Romantismo


No finito da vida


“Eu quero apenas estar no seu pensamento
Por um momento pensar que você pensa em mim”

A semente foi lançada numa tarde em que os olhares se encontram. Residiam na mesma rua e, muitas vezes, se cruzavam. Como não perceber aqueles olhos grandes e negros a  fitá-la!

Certa noite, numa brincadeira de rua, ele se aproxima e se junta ao grupo. Pêra, uva, maçã, ou seja, aperto de mãos, abraço, beijo no rosto. Todos numa roda, escolhe-se o mestre e o outro escolhido para começar, foi ele. Seus olhos são tapados e o mestre aponta para as pessoas até a resposta ser positiva. Na quinta rodada, ele diz sim, e para a surpresa de ambos se unem num forte abraço (uva).

Após este episódio, quando não o via, os dias não tinham significado. No seu ser romântico, sonhava até mesmo acordada  com o seu “príncipe”.

O tempo passou e os caminhos se desencontraram, mas ela tinha em seu íntimo que sua fantasia havia sido compartilhada e que ele não a esqueceria. Soube que ele se casara, tivera filhos, como ela.

Numa de suas visitas à casa materna, no mesmo bairro em que nascera e vivera até se casar, o telefone tocou e do outro lado da linha, ouviu uma voz masculina que lhe dizia que gostaria de revê-la.  Por que, não? Pensou.

Ansiosa o aguardou e o reencontrou. Conversaram sobre suas vidas e se despediram, com a doce sensação de um afeto, que tinha sido plantado e os mantém unidos na distância.

Ontem, dia de Natal, ainda após 25 anos daquele encontro, recebeu sua ligação anual e  o carinho que não tem preço.

Fantasia! Romance!  Não sabe, mas certamente será um afeto eterno enquanto viverem.

Norma Emiliano

Tags: ,

Diálogo

Recebi por e-mail um conto sobre a incompletude humana,  a sua interdependência e  a construção do amor . O contexto é o céu e os personagens,  um anjo e Deus.

Asa Humana

images

Imagem google


Certo dia, um anjo ajoelhou-se aos pés de Deus e falou:

“Senhor… visitei sua criação como pediu. Fui a todos os cantos; estive no sul, no norte, leste e oeste. Vi e fiz parte de todas as coisas. Observei cada uma de suas criaturas humanas. E por ter visto, vim até o Senhor… para tentar entender. Porque?
Por que cada uma das pessoas sobre a terra tem apenas uma asa? Nós anjos temos duas…podemos ir até o amor que o Senhor representa, sempre que desejarmos. Podemos voar para a liberdade sempre que quisermos. Mas os humanos…com sua única asa, não podem voar!” E Deus respondeu:

- “Eles podem voar sim, meu anjo. Dei aos humanos…apenas uma asa para que eles pudessem voar mais e melhor que Eu ou vocês, meus arcanjos…Para voar, meu amigo…você precisa de suas duas asas…Embora livre, sempre estará sozinho. Talvez da mesma maneira que Eu… Mas os humanos…com sua única asa precisarão sempre dar as mãos para alguém, a fim de terem suas duas asas. Cada um tem, na verdade, um par de asas.  Uma outra asa, em algum lugar do mundo, que completa o par.Assim, eles aprenderão a respeitarem-se… pois ao quebrar a única asa de outra pessoa, podem estar acabando com suas próprias chances de voar. Assim, meu anjo, aprenderão a amar verdadeiramente outra pessoa. Aprenderão que somente permitindo-se amar, eles poderão voar. Tocando a mão de outra pessoa, em um abraço amigo e afetuoso, eles poderão encontrar a asa que lhes falta… e poderão finalmente voar. Somente através do amor irão chegar até onde estou. Assim como você, meu anjo. E nunca, nunca mais…
estarão sozinhos quando forem voar.”

Autor desconhecido. Se souber por favor, avise-me para dar os créditos.

Norma

Tags:

Esperança

Estamos num momento em que a esperança paira no ar com o advento do Natal. Motivada por este fato, reedito um conto que expressa significativamente o quanto este sentir tem magia e promove transformações.Este conto tem como título Renascimento, mas hoje vou preferir denominá-lo de Esperança.


Corydalis triternata 0002

Corydalls triternat (flor da esperança)

Seu nascimento veio marcado por uma anomalia. Passou meses e meses com as pernas imobilizadas por gesso. Seu desenvolvimento truncado e cerceado por suas limitações físicas.  Passaram- se os anos e uma profunda tristeza foi tomando conta de seus dias. Não houve infância e a adolescência foi com poucos sonhos e amores.  Certo dia, quis ter algo só seu e foi em busca de um animalzinho de estimação. E  lá estava ele, olhando-a e remexendo o rabinho e ela exclamou: é este!

Por alguns anos seu fiel cãozinho lhe saudava ao amanhecer e se aconchegava aos seus pés ao dormir. Uma sensação de bem estar lhe acompanhava. Contudo, nada dura para sempre, ele se foi. Adoeceu e não resistiu. Ela se manteve em sua estrada, amargando a solidão, sem conseguir se afogar em prantos. Seu organismo sucumbiu e rapidamente aos 37 anos entrou num processo de envelhecimento precoce.

Em meio a tudo isto, a música, seu violoncelo, que não fora sua escolha, mas sim do pai, expressava-se lindamente, integrando-se aos demais instrumentos da orquestra da qual fazia parte, e transmitindo ao público a beleza do seu ser. Porém ela não se apercebia e só tristeza sentia.

Certo dia,  não pode mais tocar, pois seu ombro direito se enrijecera não dando mais comando ao braço. Neste momento, surge em meio a sua dor uma voz que lhe sussurra: desenterre seu tesouro. Cave, cave um pouquinho a cada dia. Traga o cuidado, o prazer por você mesma, pois eles estão aí esperando ansiosos o seu renascer. Surpresa gostou e aceitou o que ouviu. Quando a luz do sol irradiou, mostrando o seu apogeu, o seu sorriso brotou celebrando a vida.

A infância e adolescência se foram, não tinham volta, mas a vida se mantinha e com ela o surgir de cada dia trazendo-lhe esperanças renovadas.

Norma Emiliano

Tags: , , ,

Cada dia… Beth

vinculo-familiar-respuestas-300x261

Uma narração pode ter uma diversidade de interpretação, pois a visão de cada pessoa é singular.   Quem escreve se remete as suas memórias de vida,  de sonhos, de expectativas,  de desejos e/ou frustações.  A magia e a atração das histórias pode despertar emoções e valorizar sentimentos adormecidos. Dizem que os fatos falam por si, mas quem dá foco às cenas é o autor.

Hoje, Beth do blog Maegaia nos traz

Um conto

O seio familiar guarda o que de mais sagrado e necessário ao indivíduo pode haver – a segurança do lar – e ela vem através do amor entre cada um, do ato de se doar, participar, oferecer, entregar, dividir e tantos outros verbos que se conjugam juntos, unidos ou facilitando uns aos outros para que sejam felizes e possam realizar sonhos que poderão ser vividos através do compartilhamento e das estórias contadas.

Por esta razão, viajar e voltar pra casa, para os nossos, para o aconchego é, talvez, melhor do que tudo de lindo que vemos pelo mundo.

E foi assim, que o casal pode viajar juntos por alguns dias, contando com o apoio e proteção da família para aqueles que ficaram.  Na volta, compartilharam as fotos e reviveram momentos deliciosos com todos aqueles que aqui deixaram e que esperavam alegres pelos detalhes.

E foi assim:

A manhã não nasceu ensolarada, mas não seria um céu nublado que impediria o casal de ir para as ruas de Sevilha, encantadora cidade andaluza do século XIII AC, tão linda e cheirando à laranjas que se espalham pelo emaranhado de calles. A árvore oficial de Sevilha é a laranjeira.

Um imenso laranjal forma as ruas desta antiga cidade, mesclada de torres mouras e góticas, lampiões e casarios brancos com sacadas avarandadas bem cuidadas, com vasinhos coloridos debruçados e se mostrando aos turistas alvoroçados em descobrir os meandros de história e romantismo a cada dobra de esquina, a cada praça no final das ruelas. Alegria, religiosidade, cavalos e charretes, igrejas, flamenco, dança, antigo e moderno, tudo misturado perpetuará  para sempre na memória daquele casal visitante.

O charmoso e silencioso trem de superfície urbano, elétrico e colorido, deslizava e contrastava com o tempo das diversas construções seculares, como a imponente  Catedral e sua torre – a Giralda – que já tinha sido o minarete de uma antiga mesquita.

Tantas ruelas a descobrir sempre adornadas de laranjas.

As laranjeiras de Sevilha, lindas e impossíveis de se comer, dizem são amargas, mas enfeitam de modo extraordinário e inesquecível aquela cidade que tem um compasso diferente, sem pressa, feita para se aproveitar em todos os sentidos.

Atravessaram a ponte de Triana sobre o Rio Guadalquivir e se encantaram com suas águas límpidas e calmas, deixando escorrer por elas, dezenas de patos brancos e azulados.

Sobre a ponte, amarrados ao gradil de ferro, cadeados entrelaçados, anunciavam o amor eterno de casais apaixonados.

O casal passou o dia, entrando e saindo destas ruelas e a cada esquina uma descoberta surpreendente. Restaurantes, pequenas lojas de regalos, igrejas, capelas, lojinhas, bares de tapas, parreiras verdes cruzando de um lado para o outro das vielas com varandas forjadas a ferro ou louça, sempre dando para alguma praça com cheiro cítrico.

De repente anoitecia e os lampiões deram um outro colorido aquele centro histórico. Tudo ficou dourado, assim como as laranjas. Uma chuva fina molhava a cidade e tornava-a mais romântica, como num filme de Woody Allen.

O magnífico palácio de Alcázar parecia saído das Mil e Uma Noites, e suas torres ganharam um outro brilho e perspectiva com a luz dos lampiões e a chuva fina tal qual um véu transparente caia sobre ele, tudo e todos. Em algum lugar a dança flamenca tocava e atraia as pessoas.

Sevilha revelava-se com a noite que caía. Os restaurantes de tapas começavam a encher e uma explosão de agradáveis sons e aromas enchiam o ar.

Há tanto tempo o casal não se molhava na chuva. Naquele momento, sem guarda-chuvas e no afã de continuarem sua aventura, deixaram a marquise que os acolhia e, saltitando entre os pingos, atravessaram a imensa Plaza Del Triunfo, molhados e felizes riam e si mesmos e seguiram na noite dourada e cheia de magia que Sevilha ainda tinha a lhes oferecer.

Beth Q

Tags: , ,

Simplicidade

Escolhi este conto por retratar momentos de simplicidade e recheados de satisfação; a sabedoria da felicidade do existir.

Essa era de tantos quereres, de felicidade na corrente do consumo,  desperta-me o desejo de me  inundar do simples, e parafraseando o autor Rubem Braga:  do arroz, feijão, carne, alface, laranja, pão, tudo o que um ser humano necessita para viver bem. Ah! eu acrescento um bom café.

Venha!  Aprecie o fumegar deste café, acompanhando a leitura.

bebida-da-boa-manh-atilde-thumb19214305Imagem google


A boa manhã

Apenas passo os olhos pelos jornais; jogo-os fora, alegremente, porque eles pretendem dar-me notícia de muitos problemas, e eu não tenho nem quero problema nenhum.

Acordei um pouco tarde, abri todas as janelas para o sábado louro e azul, e o mar me deu bom-dia. Passa um pequeno barco branco no mar de safira: como vai ligeiro, como vai contente, com seu bigodinho de espumas brilhantes! Uma ave se detém um instante peneirando, depois mergulha na vertical em grande estilo; quando volta, um pequeno peixe brilha em seu bico.

Chupo uma laranja, e isto me dá prazer. Estou contente. Estou contente da maneira mais simples – porque tomei banho e me sinto limpo, porque meus braços e pernas e pulmões funcionam bem; porque estou começando a ficar com fome e tenho comida quente para comer, água fresca para beber.

Nenhuma tristeza do mundo nem de meu passado me pega neste momento. Tenho prazer em ver que a Ilha Rasa está lá direitinha, em seu lugar, com o farol branco. Vejo ao longe, saindo da praia, dois amigos; estão conversando e rindo. Tomaram seu banho de mar, vão almoçar; estou contente porque os amigos vão bem e suas mulheres esperam crianças. Saúde e prosperidade! Estou contente porque recebi uma boa notícia. Nada de extraordinário, mas uma notícia muito simpática.

Sei que o mundo está cheio de horríveis problemas – e eu mesmo, pensando bem, tenho alguns bem chatos. Mas não estou pensando neles; estou vivendo nesta fresca manhã um momento de bem-estar, de felicidade.

Ora, considerando que a felicidade é uma suave falta de assunto, eu me despeço de todos com um cordial bom-dia e vou almoçar. Não quero contar prosa, mas tenho arroz, feijão, carne, alface, laranja, pão, tudo o que um ser humano necessita para viver bem.

Um velho amigo vem honrar a minha mesa; falaremos com simpatia das mulheres bonitas desta formosa capital. Conversa de brasileiros! Bom dia, passem bem todos com suas mulheres, com seus amigos, com suas amantes também.

Rubem Braga

(“Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século”)

Tags: , ,

Os mistérios da paixão

Imagem google

Um encontro sem data, on-line.  Num bate papo, eis que surge um pisca-pisca convidando-o para conversa. Em pouco tempo admirou a sua vivacidade e marca mais um encontro.

Passam - se os dias, semanas; de bate papo em sala, passam para a privacidade do MSM.  Pessoa especial!  Sentiu-se atraído.

No desejo de se conhecerem um pouco mais, trocam os números do telefone, que passa a ser mais um meio de comunicação. Após um mês e meio, concordam que era momento de se conhecerem pessoalmente.

Ele sentiu receio, estava emagrecido, sua aparência não era a melhor. Enfim, resolve que vai arriscar.

O encontro é perfeito, ela é graciosa, cheia de vivacida e disposta a conhecê-lo mais. Daí ao namoro foi um pulo.

Sentiu-se animado e cada dia gostava mais dela. Tudo indicava que estava sendo correspondido. Saíam para vários programas e o vínculo crescia. No entanto, em meio à paixão, o ciúme o corroía e com isto algumas vezes se desentendiam.

Com o passar dos anos, caminharam entre altos e baixos. Sua paixão possessiva não o deixava compreender a forma espontânea, alegre e comunicativa dela ser. Houve pressões, mas ela não cedia, colocava seus limites e a paixão inicial foi se dissipando.

Não queria terminar o namoro, mas não se sentia mais envolvido pela chama que anteriormente o consumia. O que fazer? Manter o namoro em águas mansas ou partir para um novo e impetuoso amor?

Norma Emiliano

Tags: , ,

“À procura do par perfeito”

Uma Parábola

O casal (im)perfeito
À procura do par perfeito…

Um homem saiu pelo mundo à procura da mulher perfeita. Depois de dez anos de busca, resolveu voltar à sua aldeia. Seu melhor amigo lhe pergunta:

– Encontrou a mulher perfeita em suas andanças?

O homem responde:

– Ao sul, encontrei uma mulher linda. Seus olhos pareciam duas pérolas, seu cabelo era da cor da asa da graúna, seu corpo era lindo como o de uma deusa.

O amigo, entusiasmado, diz:

– Onde está sua esposa?

– Infelizmente, ela não era perfeita, pois era muito pobre… Fui para o norte e encontrei uma mulher que era a mais rica da cidade. Não tinha nem noção do poder e do dinheiro que tinha.

O amigo:

– Então, essa era perfeita?

– Não – respondeu o homem. – O problema é que nunca vi criatura mais feia em toda a minha vida… Mas, finalmente, no sudeste, conheci uma mulher linda. Sua beleza era de ofuscar os olhos, tinha muito dinheiro, era perfeita.

– Então, você se casou com ela, não é, amigo?

– Não, porque, infelizmente, ela também procurava o homem perfeito.

Parábola extraída do livro As Mais Belas Parábolas de Todos os Tempos, Vol. I, Alexandre Rangel, Editora Leitura

Tags: ,

Get Adobe Flash playerPlugin by wpburn.com wordpress themes