A casa amarela

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O importante não é a casa onde moramos, mas onde, em nós, a casa mora.” Mia Couto

Houve uma época, numa rua de subúrbio no Rio de Janeiro, em um sobrado amarelo, com sacadas, grande terraço, varanda, jardins e quintal, residia uma família composta de 9 pessoas entre a família nuclear (pai, mãe e 3 filhas), um casal jovem( irmão do meu pai e esposa) e um casal de idosos (avós).  Época na qual duas ou três gerações coabitavam.

Neste sobrado havia alegrias e tristezas, tudo compartilhado no dia a dia. História escrita pelo cruzamento dos acontecimentos. Casamentos, nascimentos e mortes ali aconteceram; parteira, médicos, amigos de vizinhança, parentes próximos  compuseram várias cenas e rituais.

A criançada alegre corria e brincava livremente; no quintal árvores frutíferas e animais eram fontes de uma alimentação saudável. Em dia de festa todos colaboravam com a preparação dos doces, mas na cozinha, forno e fogão, quem cuidava era a matriarca (avó paterna), que, de origem portuguesa, amava a culinária.

Aos domingos a família paterna se reunia nesta casa para almoço regado ao garrafão de vinho e/ou cerveja preta, as crianças refresco de vinho; o pão não podia faltar. Era uma farra só. Havia muita alegria e trabalho também, desde a preparação da comida até a lavagem de louças (não havia máquina de lavar louças) e panelas. Mas para minha avó era uma realização dominical, para minha mãe um certo cansaço.

Esta realidade existiu por muitos anos em minha família até a morte da minha avó paterna e consequente mudança de residência. Neste período,  minhas irmãs já eram casadas, com filhos e eu cursava a faculdade.

São muitas lembranças das noites natalinas, dos terços no Divino Espírito Santo, das festas de aniversários, principalmente dos meus 15 anos, dos batizados, dos casamentos, das danças que animavam a todos, dos jogos de bingo, das noites de chuvas sob a luz de velas, dos medos infantis, dos paparicos da família, das doenças infantis (sarampo, catapora, coqueluche, entre outras),  que rendiam mimos e das arteirices, da menina que fui, que acarretaram braço quebrado por três vezes. Enfim,  memórias que ao serem compartilhadas descrevem uma realidade de uma época da família brasileira e vivifica em mim os entes amados.

Infelizmente, não tenho fotos desta casa, não era hábito termos máquinas fotográficas. Na frente da casa havia um grande flamboyant amarelo. Escolhi a imagem acima por causa da fachada.

Grata por sua visita,

Norma Emiliano

Comments

  • Élys Vianna Gomes
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    Recordar momentos do passado , vez por outra é muito bom.Lembrar fatos agradáveis, familiares…
    Um abraço e um feliz Natal
    Élys.

  • roseliadosreisbezerra
    Responder

    Boa tarde de semana pré natalina, querida amiga Norma!
    Como sinto saudade do refresco de vinho.
    Minha casa da infância tinha uma fileira de coqueiro… Tenho uma foto com meu pai que adorava água de coco.
    Tive primos em roda grande pelo quintal e jamais me esqueço das brincadeiras de criança.
    Adorei sua postagem inteira de ponta a ponta.
    Tenha dias felizes!
    Bjm carinhoso e fraterno de paz e bem

  • Dina Fernandes
    Responder

    Boa noite querida Norma,

    Voltei no tempo, vivi boa parte do que li aqui. lindas memórias qe fzem tao bem à alma.Gostei de ler suas lindas memórias.

    Desejo a você e a todos os seus um Feliz e abençoano Natal.

    Bs fraternos.

  • toninhobira
    Responder

    Na semana do Relembrar da Chica, aqui um recordar de infância e vida de um tempo onde as famílias se reuniam e interagiam. Principalmente as famílias do interior mais distantes das diversões e costumes das capitais. Em parte revivi minha infância Norma, senti o gosto do mingau de fubá com queijo e canela, das pipocas feitas em panelas comuns numa linda cantoria de minha mãe. Beleza de reviver amiga e pena, que a gente não tinha as máquinas de fotografar. Mas fica em nossas memórias as imagens e o direito às viagens.
    Gostei.
    Beijo

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