Archive for março, 2010

“Velhice, por que não?”

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 Lya Luft, brasileira, gaúcha,  iniciou sua vida literária em 1980, aos 41 anos . É conhecida  por sua luta contra os estereótipos sociais. É romancista, poetisa e tradutora . 

Nasceu no dia 15 de setembro de 1938, em Santa Cruz do Sul. Formou-se em letras anglo-germânicas e tem mestrado  em  Literatura brasileira e Linquística Aplicada. Trabalha desde os 20 anos como tradutora de alemão e inglês.

Publicou livros de poemas, romances e novelas, tendo textos seus adaptados para o teatro. Atualmente, dedica-se apenas à Literatura e à tradução de literaturas inglesa e alemã.

 Ficou viúva duas vezes, tem  três filhos e  vários netos.  “Mulher madura, experimentou perdas e ganhos, mas mantém o otimismo, ama a vida”. (Perdas & Danos)

Em entrevista a revista a revista Contigo/05/ 2009, revela que “a literatura jamais seria a minha maior  felicidade. Minha felicidade está na  família, no marido, nas amizades, em coisas reais e vitais (…) Sou uma mulher em busca de simplicidade, que curte a vida com tranquilidade  e certa beleza”.

Obras

Romances

As Parceiras (1980, hoje na 18ª edição).
Reunião de Família (1982).
O Quarto Fechado (1984).
Exílio (1987).
A Sentinela (1994).
O Rio do Meio (1996).
O Ponto Cego (1999)

Poesia

Mulher no Palco (1984).
O Lado Fatal (1988).
Secreta Mirada (1997)

Obras traduzidas no exterior

Alemanha: ‘As Parceiras’ e ‘Reunião de Família’ (ambas pela Editora Klett-Cota-Verlag)
Inglaterra: ‘Exílio’ (Ed. Carcanet)
Itália: ‘A Asa Esquerda do Anjo’
Estados Unidos: ‘O Quarto Fechado’

 

Velhice, por que não?

 “Para a vovó a beleza foi um tormento, porque o tempo não se detinha e desde moça seu maior pavor era perder aquele bem supremo. Olhava-se nos espelhos procurando uma primeira ruga, uma primeira dobra. Uma primeira manchinha.
Quando chegou aos 60 anos quase morreu de dor, andava pela casa gritando:
- Eu odeio fazer 60 anos! Eu não aguento fazer 60 anos!
Não adiantava as pessoas dizerem que parecia nem ter 40 tão conservada. Argumentavam com ela:
- Tente imaginar que você está conquistando a maturidade em vez de perder a juventude; e que um dia vai ganhar a velhice em vez de perder a maturidade. Não é muito mais natural pensar assim?

 Mas Vovó não aceitava, para ela o natural não era natural:
- Eu odeio pensar que estou ficando velha. Não aceito, não aceito, pronto.
 As primeiras cirurgias leves tinham-lhe feito bem: removeram um traço amargo, um sinal de cansaço prematuro. Depois seu médico lhe disse:
         – Vamos deixar a natureza agir um pouco e o corpo descansar. Não abuse.
 Ela então foi procurar outros médicos, que faziam suas vontades. Desconfiando o indesafiável e excedendo seus limites, foi entrando no irreal.
 Mas as ilusões não continham mais tempo, e o costurado voltava a descoser. Minha Avó foi-se isolando. Apartou-se das amizades, deixou as festas, não gostava mais de ninguém. Começou a delirar reclamando que todo mundo a apontava nas ruas, nas lojas, nos restaurantes: Lá vai aquela velha.
 Cada vez mais difícil de lidar e conviver, exigia o que ninguém podia lhe dar: o tempo congelado. Aos poucos foi sendo devorada por dentro também.
 O rosto da minha Avó, de tanto ser remendado, foi-se tornando outro. Mudou o olho, mudou o nariz, mudou o queixo, mudou até a orelha. No fim nada mais dela era dela”.
        (O ponto cego, 1999)

Lya Luft

 
Fontes:
 
Luft L. Perdas e Ganhos. Ed. Record, 2004.

http://www.releituras.com/lyaluft_bio.asp

http://pt.shvoong.com/books/biography/1659990-lya-luft-vida-obra/

 http://educarparacrescer.abril.com.br/leitura/lya-luft-468503.shtml

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Um olhar sobre o rejuvenescimento

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 Não se pode voltar atrás, ao começo, mas é sempre tempo para recomeçar e mudar.

 
O processo de envelhecer é uma característica dos seres vivos e o envelhecimento populacional é hoje uma realidade. Mas, paradoxalmente, vivenciamos o culto da juventude.  As propagandas veiculadas pela mídia dão uma visão de que a ciência proporcionará em breve a fonte da juventude e que para se ser feliz, é necessário ser belo, jovem e ter um corpo perfeito. Entretanto, os avanços das ciências ainda não são suficientes para conter a degeneração da vida celular. Assim, confunde-se longevidade com rejuvenescimento. Pode-se alcançar a longevidade pelos atuais recursos médicos, sem se assegurar o bem estar físico, mental e social.

Para muitos rejuvenescer é fazer plástica, fazer preenchimentos das rugas, pintar cabelo, colocar reimplante dentário, ou malhar numa academia. Na sociedade atual, capitalista, o consumidor cada vez mais quer comprar saúde, memória e sensações, com o sonho de dominar o tempo. Seu desejo é rejuvenescer. Neste sentido, as mulheres, ainda, são os maiores alvos do novo paradigma que promove a manutenção de uma aparência física jovem cada vez mais prolongada.

Entretanto, parece haver um consenso entre os estudiosos do assunto em relação aos métodos preventivos que devem ser utilizados. Entre eles, o exercício físico ocupa lugar de destaque.  Alguns estudos científicos constatam que podem existir benefícios psicológicos com o uso dos métodos de rejuvenescimento, a saber: melhora na autoconfiança, vida profissional e afetiva, e uma melhora na autopercepção com as mudanças do aspecto externo.

No mito antigo da águia, extraímos como metáfora que o rejuvenescer significa entregar à morte tudo o que de velho existe dentro de si para que o novo possa irromper e se integrar. Ou seja, desprender-se das coisas que um dia foram boas; de idéias que foram fundamentais, mas que se tornaram ultrapassadas no transcorrer do tempo.  Neste sentido, é fundamental aceitar o processo natural da passagem do tempo, desprender-se da imagem da juventude, buscando novas formas de interagir consigo mesmo, com o mundo e com as pessoas.

Enfim, rejuvenescer é corrigir os maus tratos dados ao organismo, recuperando a saúde perdida ao longo dos anos; é enfrentar o recomeçar; é dar valor a vida; é viver o aqui e agora, despertando das entranhas a paixão. Em todas as fases da vida surgem desafios; as escolhas determinam o caminho para enfrentá- los. A flexibilidade na trilogia, escutar, aprender e revisar faz-se necessária.

Norma Emiliano

O video abaixo é o exemplo  vivo da fonte da juventude.

“Rejuvenescer pela poesia” – Selda Roldan

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9 de outubro de 2009

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Recorte de uma época

 

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As lembranças de  nossa história trazem recortes de  tempos vividos e representativos de uma época.  Vez por outra, quando faço reflexões sobre o cotidiano familiar atual, seus valores e afetos,  as relações estabelecidas no meu contexto familiar trazem um  ‘ar de saudosismo e a consciência de  grandes perdas interacionais.

Ao receber, através de e-mail,  o texto “O tempo passou e me formei em solidão“, imediatamente, pensei em postá-lo, pois capta interações acolhedoras que  transbordavam de alegria pelo momento do encontro e que se perpetuavam n’alma com ternura e davam um intenso sentimento de pertencimento.

Considero propício este compartilhar de outras épocas como estimulo  a  nossa capacidade reflexiva e a construção de um mundo mais fraterno e solidário. Leia e faça seus comentários, pois esta é uma possibilidade de tecermos novos e consistentes fios de AMOR.

 ”O tempo passou e me formei em solidão

“Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente, à noite.
   Ninguém avisava nada, o costume era chegar de paraquedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres a visita. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um.
  – Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre.
    E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.
  – Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!
    A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando- nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro… casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.
    Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha – geralmente uma das filhas – e dizia:
    – Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa.
    Tratava-se de uma metonímia gastronômica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite… tudo sobre a mesa.
    Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também. Pra que televisão? Pra que rua? Pra que droga? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança… Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam…. era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade…
    Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida. Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa.. A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, t ambém ficávamos, a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos… até que sumissem no horizonte da noite.
    O tempo passou e me formei em solidão. Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail… Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa:
    – Vamos marcar uma saída!… – ninguém quer entrar mais.
    Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.
    Casas trancadas.. Pra que abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo  fresco, da manteiga, dos biscoitos do leite…
    Que saudade do compadre e da comadre!”

José Antônio Oliveira de Resende ,Professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura, da Universidade Federal de São João del-Rei.

Paulo Ogg Corporate Affairs Manager

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(Re) encontro

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 Ao avistá-la, fez menção de se esconder.   

 - Não, por que fazer isto? Por que não ter a chance de recordar tão boas lembranças? No entanto, não se aproximou. Ficou à    distância, vendo-a se movimentar na busca do rosto amigo.

 - Pronto! Ela a viu. Aproxima-se.

 - Nossa querida, como é bom depois de tanto tempo revê-la!!

 - Sim, como você está bem.

 - Obrigada, vem, vamos procurar um lugar para nos sentarmos.

Sentam-se e falam dos bons tempos da adolescência. Fica estarrecida, pois após vinte anos de afastamento, sente-se como se  nunca tivessem se separado. Todavia, quando pergunta sobre as realizações dos seus sonhos, uma nuvem de tristeza cobre o seu rosto e percebe que brotam lágrimas dos olhos da amiga.

 - Desejava não ter perguntado, mas já o fizera.

  – Meus planos se realizaram, mas a vida ensinou-me que não podemos idealizar. Tive o que queria e o perdi drasticamente. Hoje, sinto-me entristecida, mas cheia de garra para seguir em frente em busca da minha própria vida. Após a minha formatura, fui viajar. Nesta viagem, encontrei o homem por quem me apaixonei e me casei. Tivemos um filho. Vivi para eles e hoje sei que me esqueci. Passei anos a fio na espera da sua volta, pois ele viajava a trabalho. Eu me dediquei à casa, ao filho e à espera dos momentos da sua chegada. Não exerci minha profissão, afastei-me das amigas. Contudo, há seis meses eu recebi a notícia de um desastre que ele sofrera e a partir disto conheci a minha verdadeira situação.

  - Ele tinha outra mulher e quatro filhos. O seu trabalho como viajante lhe proporcionou a oportunidade de se dividir entre nós. Com isto, meu mundo se foi. Eu não tinha marido, não tinha profissão, nem amigos. Tive que mudar meu rumo. Mas, como você pode ver, aqui estou, enfrentando a vida, muito sofrida com o sonho desfeito, porém com a minha própria vida. Chega! Agora me conta o que tem feito.

 Sorri e disse:

- Vivido.

Conta-lhe o que tem feito; fala do trabalho, da casa própria, das amizades, dos breves namoros, dos sobrinhos. Percebe uma alegria que estava distante, invadir o seu coração. Sente que tem uma vida, uma vida própria. Teve receio de encontrar a amiga, de não mais terem nada em comum, de não terem assunto. Está feliz por ter feito este pacto e tê-lo cumprido.

 As horas passam e se dão conta de que no cruzamento de suas historias nada há para se envergonharem. Brindam o encontro e celebram as suas vidas. Selam um novo pacto: de se reencontrarem após 5 anos.

Norma Emiliano

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Rítmo da vida moderna

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 A sensação que se tem é de que falta tempo!!!

 

Desde a segunda metade do século do séc XVII,  a mudança do controle do tempo social  ( do natural para mecânico)  começou a acarretar alterações significativas na sociedade da época, sendo que a principal delas foi à mudança da disciplina do trabalho.  Com a industrialização, as máquinas passaram a determinar o ritmo de vida da humanidade.

O mundo atual  favorece, mais e mais,  condições e  estímulos às pessoas  para   ficarem sempre muito  ativadas,  aumenta  a tendência da diminuição do tempo do repouso, do tempo das interações familiares  e quase que invibializa a atitude de introspecção,  pois  as pessoas estão sempre com pressa .  Inclusive,  já se menciona “a doença da pressa”.

Neste sentido, numa parada para reflexão, sugiro a leitura do poema de Pablo Neruda.

 

“Se não estivéssemos tão empenhados
Em manter nossa vida em movimento,
E pelo menos uma vez pudéssemos não fazer nada
Talvez um enorme silêncio
Pudesse interromper a tristeza
De nunca entender a nós mesmos
E de nos ameaçarmos com a morte”

“Ficando em Silêncio”, Pablo Neruda

 

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Uma forma de olhar a vida

 

OS CRISTAIS   apresentado pela atriz  Fernanda Montenegro

“É o detalhe que faz a diferença”, uma forma de estar na vida.

Cristal simbolo da renovação

Aminkiel
23 de julho de 2009

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Eu mudei, e você?

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A indústria cultural reproduz o que já existe nas relações sociais superenfatizando determinados aspectos das práticas sociais através da “hiper-ritualização.” Goffman,

Ao longo da evolução da humanidade, a forma de se considerar a construção e evolução da parceria conjugal veio sofrendo, paulatinamente, mudanças, sobretudo no decorrer do século XX.  A revolução sexual e a entrada da mulher no mercado de trabalho influenciaram sua forma de estar no mundo e na sua relação conjugal. Muitos casamentos entraram em crise pela dificuldade de alguns homens renovarem seus paradigmas.

Os papéis rigidamente construídos, nos quais a mulher cuidava do lar e da educação do filho, enquanto o homem provia a família com os recursos financeiros, foram abalados. A oportunidade de trabalhar favoreceu as mulheres a acreditarem em outras competências antes não vislumbradas.

A esfera familiar trouxe ao gênero feminino a possibilidade de desenvolver práticas e construir um conjunto de conhecimentos que se transformaram em instrumentos valiosos para enfrentar o mercado de trabalho. A administração empresarial ganha muito com a capacidade de organização, sensibilidade, diversidade e assertividade da mulher.

 Por outro lado, gerar renda significa ter igualdade de poder na parceria. Para muitos homens, esta igualdade acarretou sentimentos contraditórios de admiração e de rejeição em relação ao cônjuge. Eles não se sentem mais reconhecidos nos papéis anteriormente valorizados; vêem-se abandonados e cobrados por suas mulheres ao compartilharem novas funções.

A mulher ganha espaço na sociedade capitalista, busca novos conhecimentos e diversifica, cada vez mais, suas competências. Contudo, há o estigma de que ela é a cuidadora da família e, em função disto, ainda há uma sobrecarga em suas funções.

Na família nuclear, hoje, já se encontra nas novas parceiras, uma divisão de tarefas em relação à administração da casa e ao cuidado com os filhos. Entretanto, em relação às suas famílias de origem, ainda é forte a missão da mulher como cuidadora exclusiva dos pais.

“Não somos mais uma geração de jovens”. O envelhecimento populacional já é visível e já foi constatado estatisticamente. O cuidado com os pais idosos envolve muitas tarefas e absorve o tempo. Contudo, nem a família nem as organizações empresariais estão atentas e, possivelmente, em bem pouco tempo, esta questão se transformará em crise.

As diversas parcerias são construídas tendo por base afinidades e diferenças. As diferenças sempre existiram e sempre existirão, não só entre os gêneros, mas de pessoa para pessoa. As mudanças tecnológicas, científicas e culturais vêm trazendo mudanças de atitudes na mulher e em contrapartida no homem, mas esta visão precisa ser ampliada para além da esfera doméstica. A sociedade precisa encontrar uma forma de conciliação das funções de forma que a afetividade familiar não fique comprometida e o desempenho profissional não fique prejudicado.

Norma Emiliano

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O amor ao próximo

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A partir da experiência clínica,  considero que  um dos fatores  significativos do processo terapêutico é  a empatia.  Esta consiste em conhecer o mundo do outro e se unir a ele no sentido de compreender as suas experiências.

Os conhecimentos teóricos e a  experiência de vida são as  lentes do terapeuta, contudo  cada cliente é único, o seu sofrimento é sentido nesta singularidade e, assim sendo, precisa ser aceito e compreendido. Enfim, é colocar-se disponível para a pessoa que precisa de ajuda.  Isto envolve  a habilidade de escutar e caminhar em função daquilo que é identificado.

Cabe ressaltar que a capacidade de empatizar só é desenvolvida quando se ouve e se respeita as próprias necessidades e sentimentos.

Artur da Távola escreveu uma crônica  enfatizando  que o sentimento do outro é quase um milagre, é o conteúdo oculto do amor ao próximo.   Leia abaixo.

O Milagre da empatia

“O mais difícil dos sentimentos é o sentimento do outro. O outro é ele e és tu. Ele é realmente o outro ou é a parte tua que não queres ser, saber, ver ou aceitar? Tu és o outro para os outros, logo és igual a ele. Todos somos “outros”. E, no entanto o outro invade, ameaça, mastiga de boca aberta, irrita, eriça, machuca.
Até teu filho é o outro. E tu, pobre pretensioso, pensas que ele é teu…

O sentimento do outro quantas vezes te faz parar, meditar, deixar de fazer o melhor que tens ou podes, só porque o outro é o mistério que te ameaça. Por que o outro te ameaça? Porque és tu. Quanto maior teu sentimento do outro, maior será teu o sentimento do melhor e do pior que tens.

O sentimento do outro não é sentir por ele. É saber o que ele sente. É avaliar o como e o quanto ele sente. O sentimento do outro não é o masoquismo de fazer teu, um sofrimento que só a ele pertence. É dimensionares a medida certa do sofrimento dele e só poderes ajudar porque não fazes teu um sofrimento que é alheio mas o entendes e sentes, na exata medida de sua extensão, sem as marcas e as limitações da dor enquanto dói. Não é ficar como o outro. É ficar com o outro. O sentimento do outro é quase um milagre. Cuidado com ele, vai te obrigar a ceder, a entender. Atrapalhará para sempre teu desejo, tua gula e vontade.

O sentimento do outro é aquilo que é mais prático não ter. Mas, em caso positivo é contágio de saúde: não podes deixar de exercê-lo. Senão fermentas. Senão apodreces.
Ele freará tua vitória, calará teu brilho e tua boca, impedirá tua vaidade. Pode, até, te pregar a suprema peça de te fazer entender os detestáveis. Cuidado com ele! Quanto maior, mais anulador! Quanto mais anulador, mais repleto de grandeza.

O sentimento do outro, talvez te faça tímido, herói, cais, antena. Ser antena dilacera, sabias? O sentimento do outro te exigirá nervos, músculos, e uma paciência de anacoreta. Quanto mais o outro o perceba em ti, mais ele te invadirá, cobrará, exigirá, até quando, exaurido, ainda consigas juntar os cacos do teu cansaço para, ainda assim, prosseguir.

O sentimento do outro é tua glória e tua tragédia! Tanto mais o terás quanto encontres em ti os escaninhos escurecidos do que és e, ao mesmo tempo as luzes do que, ainda puro, brilha em ti.
O sentimento do outro é o conteúdo oculto do amor ao Próximo.

Artur da Távola –  advogado, jornalista, radialista. escritor e político

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