Archive for janeiro, 2010

Minhas Palavras

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Aquilo que guia e arrasta o mundo não são as máquinas, mas as idéias”. Vitor Hugo

Um fato é eu sair de mim para você; outro é eu chegar até você com minhas palavras. As palavras! As palavras, os ventos levam e trazem. Elas fluem pelo universo. Representam o meu desejo de expressão.

A voz interior expressa- se através das palavras faladas ou escritas que irão pousar de acordo com as diversas identificações pessoais. Identificações que passam pelas recordações, dores, alegrias e questionamentos. Não importam quais sejam. Posso trazer lembranças, informações, conforto, afeto e questionamentos. Respostas? Não. As respostas estão onde você se encontra.

Pessoas, cotidiano, eventos, relações despertam-me as palavras. No intuito das mensagens, as letras vão se juntando, formando palavras, frases, na direção do conteúdo. Exteriorizar o pensamento, as idéias, os sentimentos faz parte deste momento. A mente povoada de imagens  que vão se  configurando e  entrelaçando. Vidas  que são contadas, homenagens que são realizadas, informações que são repassadas. No entorno o meu afeto. No vai e vem dos pensamentos e palavras, converso comigo e vou até você com minha mensagem. Não ouço o que me diz, sua conversa é silenciosa. Entretanto, as palavras chegam a você e se transformam a partir de você. Assim, a comunicação se faz presente  e a experiência é valiosa.

A primavera finda. Está quente! O tempo faz com que me recorde de momentos passados e pessoas queridas. Viajo! Assim é a nossa memória. Tudo permanece dentro de nós. Imbuída dos sentimentos dessa viagem, surgem-me algumas palavras: amor, união, intimidade, intensidade. Ligadas a elas, duas cenas surgem e remetem-me aos sentimentos. Uma traz a alegria e a outra, a tristeza. Assim é a vida. Mas, nos pensamentos posso optar e escolho as cenas de alegria. E com elas, neste nosso encontro, quero irradiar energias positivas para você. É meu desejo que o espírito de amor e fraternidade, presentes aqui e agora, retidos nos meus pensamentos, impregnem o seu cotidiano e que ao lê-las, você possa carregar em seus pensamentos emoções positivas, de esperança e de fé num mundo onde o império seja do Amor.

Norma Emiliano

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Poema à boca fechada- José Saramago

Osvaldobarretofilho
27 de maio de 2008

José de Sousa Saramago (1922) é um escritor, roteirista, jornalista, dramaturgo e poeta português galardoado com o Nobel da Literatura em 1988.

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Louis Braille

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O INVENTOR DOS PONTOS
Ele nasceu há 200 anos: Louis Braille, o inventor da escrita para cegos

SENTIR. LER COM OS DEDOS. As coisas decisivas na vida de Louis Braille, o inventor da escrita para cegos, aconteceram na oficina de couro de seu pai. Ele amava esse local. As selas de couro macio, as ferramentas pontiagudas o fascinavam. Até que no ano de 1812 acontecesse a desgraça: brincando, o pequeno de 3 anos enfiou uma uma agulha grossa em seu olho, que infeccionou e contaminou o outro. Ele ficou totalmente cego. Mas o pequeno menino não se abateu, frequentou uma escola para cegos, aprendeu até a tocar piano. Apenas uma coisa o entristecia: não poder ler. Havia apenas livros, nos quais as letras, por meio de fios de cobre, ficavam destacadas para os cegos, um método que não funcionava muito bem.

 Ler por meio do tato: na escrita Braille seis pontos, três em cima vezes dois pontos na largura, formam a retícula para combinações de letras perceptíveis que podem ser representadas
CERTO DIA, LOUIS ouviu sobre uma escrita de pontos com a qual os soldados podiam ler também à noite. Os homens tateavam pontos, que formavam letras. O menino entendeu logo: essa escrita era ainda muito complicada, mas a ideia era genial! Louis decidiu inventar um sistema com menos pontos. Em 1825, ao completar 16 anos, veio-lhe a concepção decisiva. Estava – outra vez – sentado na oficina do pai. Férias escolares. Pegou então a agulha e imprimiu pontos em cartão firme, ordenados como o “6″ em um dado. Esse era o sistema: conforme quais e quantos dos seis pontos ficavam em relevo, formavam letras, números, sinais matemáticos, fáceis de serem tateados por cegos. Assim, uma a uma, o menino estampou 64 combinações diferentes, suficientes para todas as letras do alfabeto, números e sinais gráficos. Os colegas cegos de Louis na escola ficaram entusiasmados! Um mundo novo se abria para eles: o das palavras e dos livros.

POSTERIORMENTE, LOUIS BRAILLE tornou-se professor para cegos. Mas exatamente o novo diretor de sua escola era contra a escrita de pontos. Ele acreditava que os cegos se isolariam através de uma escrita que era desconhecida para os que enxergavam. Braille batalhou uma vida toda para a difusão de sua ideia. Somente em 1850, dois anos antes de sua morte, o alfabeto por tato foi reconhecido em sua pátria, a França.

ATÉ HOJE, OS CEGOS do mundo todo leem com a ajuda desse sistema, que recebeu o nome de seu jovem inventor: o alfabeto braile. Já há muito tempo existem máquinas de escrever especiais e impressoras que imprimem, em papel especial, escritos vertidos para as letras da escrita por pontos. Documentos com textos em braile têm, contudo, aproximadamente um volume 30 vezes maior do que o original. Quem possui um computador feito especialmente para cegos, também pode escanear textos impressos, que serão lidos por uma voz eletrônica desse computador. Ao navegar, enviar e-mails ou escrever cartas, essa voz ou uma linha em braile mecânica em frente ao teclado reproduz o que se pode ver na tela. Um resultado fascinante desde o 4 de janeiro de 1809, quando Louis Braille nasceu em Coupvray, perto de Paris.

Cada mundo de sentidos surge individualmente e reflete-se no modus operandi de cada cérebro em particular. Diversos grupos de cientistas em todo o mundo tentam rastreá-lo também nos deficientes visuais. Esses grupos querem saber, por exemplo, o que ocorre nas seções cerebrais que são ameaçadas de “desemprego” em cegos.

Fragmento do texto Entre a Luz e a Escuridão de  Susanne Paulsen, autora da GEO. Revistageo.com.br- http://revistageo.uol.com.br/cultura-expedicoes/1/artigo127045-1.asp

 

Yolanda-  http://www.slideboom.com/presentations/88731/Luz-e-escurid%C3%A3o

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Relacionamento Duradouro

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Ao completar trinta e um anos de vida conjugal diz não sentir a passagem desse tempo, que lhe foi sempre satisfatório. Qual será a “poção mágica” para essa sensação de que o tempo parou?

Na atualidade, há muitas queixas entre os homens e as mulheres sobre a inconstância dos relacionamentos, mas qual será o foco das atenções das pessoas no cotidiano? Vivenciamos as transformações da sociedade de consumo e da indústria cultural, bem como suas repercussões no comportamento humano. Investe-se muito tempo no sucesso da vida profissional; investe-se muito tempo para se ter cada vez mais recursos materiais. Corre-se de um lado para o outro, e os vínculos pessoais como ficam?

Quando nos sentimos amados, valorizados e compreendidos, temos forças para enfrentarmos os obstáculos que a vida nos apresenta. Desta forma, a qualidade do relacionamento íntimo se repercute na saúde mental, física e profissional, pois nos proporciona o sentimento de mais valia e segurança.

É certo que a satisfação conjugal não é simples de se alcançar. Ela envolve muitos fatores: valores, atitudes, expectativas, nível cultural, nível socioeconômico, etapa do ciclo de vida, experiência sexual, etc. Por outro lado, estar junto por muito tempo, necessariamente, não significa que há um bom relacionamento.

Ao longo da história humana, fatores (sócio, econômico, político e cultural) contribuíram para que, em muitas sociedades, predominassem nos relacionamentos de casal a monogamia. De outra forma, os preconceitos traziam sérios contratempos à separação do casal, principalmente para mulheres.

Hoje, a mulher submissa ao homem está em processo de extinção. A teoria que apoiava a infidelidade masculina como uma necessidade deixa de existir. As mulheres se dão o mesmo direito que os homens quanto ao exercício das relações sexuais, inclusive as extraconjugais.

Em alguns estudos sobre uniões de mais de vinte anos, encontram-se características, tais como: compromisso com a relação; respeito pelo outro; abertura mútua; valores morais fortes e compartilhados; lealdade e expectativa de reciprocidade; compromisso com a fidelidade sexual.

Muitos casamentos não sobrevivem ao momento do “ninho vazio”, o da saída e/ ou independência dos filhos, e o divórcio acontece após vinte e cinco anos ou mais de casados. São casais que ficaram muito  “pais” e esqueceram  de ser homem e mulher na relação.

As relações duradouras e estáveis favorecem aos cônjuges um refúgio em relação ao mundo de estresse e de violência em que vivemos, bem como proporcionam o equilíbrio para lidarmos com os outros sistemas sociais. Contudo, o perigo é que ocorra a acomodação e não enfrentem as mudanças necessárias. 
A construção da vida a dois é um processo. È necessário ter criatividade para cada dia adicionar um ingrediente novo, dando um gostinho de quero mais. É necessário nutrir a relação, para que ela seja proveitosa para os dois, buscando encontrar equilíbrio do nós e do eu, compartilhando interesses e relacionamento afetivo-sexual. Assim sendo, nessa construção, é fundamental alimentar sempre a chama da  relação homem mulher.
Enfim, respeito, dedicação e afeto, trilogia que pode formar a “poção mágica” do relacionamento duradouro, criativo e satisfatório.
Norma Emiliano

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Amor maduro – Artur da Távola

TheMataatlantica

12 de agosto de 2009

Artur da Távola, pseudônimo de Paulo Alberto Monteiro de Barros, político, escritor, poeta e jornalista brasileiro..

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Cegueira

 cegueira

 

 

 

 

 

 

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“A visão dos olhos atrapalha a visão interior (…)”. Hermeto Paschoal

Acompanhado por sua irmã, senta- se ereto como se fixasse o olhar e começa a falar:

- A vida traz surpresas! Quando eu iria pensar que deixaria de enxergar? Com essas palavras traduz o seu momento.
 
Casado, 49 anos, pai de dois filhos ainda dependentes financeiramente e com esposa do lar, ele é arrimo da família. Há quatro anos começou sua luta em relação aos problemas oftalmológicos. Submeteu-se a cinco cirurgias que só foram agravando sua visão, até ficar como se encontra hoje, só vendo névoas.

- Minha irmã são os meus olhos, ela tem me ajudado a ir e vir. Permaneci no trabalho com ajuda de outras pessoas e não vou deixar de ter esperanças, mesmo que o médico me diga que não há mais nada a fazer. Vou às consultas, utilizo a medicação. Ajudei muitas pessoas cegas atravessarem as ruas, não imaginava que um dia  seria eu o ajudado. Não nasci para ser cego. A cegueira existe na minha mente não está no meu espírito.
 
Ele perdeu sua auto-referência. Nega a patologia e não aceita sua limitação. Rejeita pensar em bengala ou mesmo em aprender braille.  A família mantém a sua ilusão com receio da depressão. Ele encontra-se aprisionado ao corpo vidente.

Nas palavras de Thomas J. Carrol (1968 in Lowenfeld, 1991)  “a perda da visão é o fim de uma certa maneira de viver que era parte do homem (…) mas, com a morte do homem de visão, o homem cego nascerá e sua vida poderá ser boa”. Outros estudiosos do tema também afirmam que a cegueira provoca uma grande reorganização de todas as forças do organismo e da personalidade, sendo assim uma fonte de manifestação das capacidades.

Estendeu-me com firmeza o braço e com aperto de mãos retirou-se, apoiado na irmã.

No desafio de novos olhares o corpo é o carro chefe, citando Merleau-Ponty (1991), que afirma “ser o corpo o vínculo entre o eu e as coisas”.

Enfim, nas perdas é necessário fazer o luto e entender as suas emoções. Por outro lado, na reorganização é também necessário entrar em confronto com sua vida racional e afetiva, compreender a dependência e reconhecer as suas limitações. Quem sabe se no contato dessa experiência perceptiva possa haver  libertação?

Norma Emiliano

 

LOWENFELD,  B. What is blindness? In: Berthold Lowenfeld on blindness and blind people select papers.  New Yorker: American Foundation for the Blind, 1991
MERLAU- PONTY, M. Signus. São Paulo: Martins Fonte, 1991.

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A arte de ver- Rubem Alves

olhos

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Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as “Odes Elementales”, de Pablo Neruda. Procurei a “Ode à Cebola” e lhe disse: “Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: ‘Rosa de água com escamas de cristal’. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta… Os poetas ensinam a ver”.

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.

William Blake sabia disso e afirmou: “A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê”. Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.

Adélia Prado disse: “Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra”. Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. “Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios”, escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada “satori”, a abertura do “terceiro olho”. Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: “Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram”.
Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, “seus olhos se abriram”. Vinicius de Moraes adota o mesmo mote em “Operário em Construção”: “De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa – garrafa, prato, facão – era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção”.

A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas – e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam… Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.

Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: “A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas”.

Por isso – porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver – eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar “olhos vagabundos”…

Fonte

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Sobre o amor- Kallil Gibram

Amor

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‘Quando o amor vos chamar, segui-o,
Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados;
E quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe,
Embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos;
E quando ele vos falar, acreditai nele,
Embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos como
o vento devasta o jardim.

Pois, da mesma forma que o amor vos coroa, assim
ele vos crucifica. E da mesma forma que contribui para
vosso crescimento, trabalha para vossa poda.
E da mesma forma que alcança vossa altura e acaricia
vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol,
Assim também desce até vossas raízes e as sacode no
seu apego à terra.
Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.
Ele vos debulha para expor vossa nudez.
Ele vos peneira para libertar-vos das palhas.
Ele vos mói até a extrema brancura.
Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.
Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma
no pão místico do banquete divino.
Todas essas coisas, o amor operará em vós para que
conheçais os segredos de vossos corações e, com esse
conhecimento, vos convertais no pão místico do banquete divino.

Todavia, se no vosso temor, procurardes somente a
paz do amor e o gozo do amor,
Então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez
e abandonásseis a eira do amor,
Para entrar num mundo sem estações, onde rireis, mas
não todos os vossos risos, e chorareis, mas não todas as
vossas lágrimas.
O amor nada dá senão de si próprio e nada recebe
senão de si próprio.
O amor não possui, nem se deixa possuir.

Pois o amor basta-se a si mesmo.
Quando um de vós ama, que não diga: ‘Deus está no
meu coração’, mas que diga antes: ‘Eu estou no coração de Deus.’
E não imagineis que possais dirigir o curso do amor
pois o amor, se vos achar dignos, determinará ele próprio
o vosso curso.
O amor não tem outro desejo senão o de atingir
a sua plenitude.
Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos, sejam
estes os vossos desejos:
De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho
que canta sua melodia para a noite;
De conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada;
De ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor
E de sangrardes de boa vontade e com alegria;
De acordardes na aurora com o coração alado e agradecerdes por um novo dia de amor;
De descansardes ao meio-dia e meditardes sobre o
êxtase do amor;
De voltardes para casa à noite com gratidão;
E de adormecerdes com uma prece no coração para o
bem-amado, e nos lábios uma canção de bem-aventurança”.

Kallil Gibram- Poeta libanês, artista e filósofo.(1883-1931)

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