Archive for novembro, 2009

Ser livre

Passaros-voando-2

Asas ligeiras dançam no ar
O infinito, interminável espaço para voar.

Ser livre, voar sem amarras
Perder-se na luz
Sair da escuridão, das garras do eu prisioneiro,
Das marcas profundas do viver.

Voar, voar no infinito.
Voar, dançar, e se perder
Largar as certezas…
Voar, dançar, perder e encontrar
Encontrar e perder.
Ser livre para poder voar.

Norma


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Integrando práticas

O descompasso entre o avanço tecnológico e o desenvolvimento humano cria um grande desafio, pois traz a idéia sistêmico de  que o sucesso do século XXI, isto é, o alcance  da  qualidade de vida será determinado pela qualidade da capacidade humana. Contudo, as transformações necessárias para a melhora da qualidade de vida, exigem  um  repensar do  próprio  homem   sobre  a   sua insegurança  e  vulnerabilidade  e  uma  responsabilidade  conjunta do  indivíduo e sociedade. Não existe uma fórmula sobre quais caminhos seguir, mas é  a  partir do  cotidiano que  podemos  construir pontes, partindo da premissa de que fazemos parte de elos circulares.

Este texto apresenta um modelo  de  trabalho  que  vem  sendo  executado pelo Serviço Social na área da saúde do trabalhador  que  tem  como  fundamento  teórico a abordagem sistêmica. Portanto, o  objetivo  é   favorecer  o entendimento de que a visão ampliada do indivíduo possibilita ao profissional de Serviço Social, mesmo através de uma intervenção breve, impelir o indivíduo a ser mais consciente de como agir em relação a si próprio, a sua saúde, tornando-se mais responsável, produtivo e motivado no seu cotidiano.

Quem levou o pensamento sistêmico para o mundo das ciências foi o biólogo Ludwig Von Bertalanffy (Nichols, 1998). Segundo ele “o sistema é uma entidade mantida pela interação de suas partes”. A aplicação desta forma de pensar trouxe várias contribuições a maneira de se compreender o mundo e o ser humano, transformando-se, hoje, como cita Peter Senge (1998), “ no antídoto para a sensação de impotência que muitas pessoas sentem na era da interdependência”.  Ao ver o todo, aprendemos a fomentar saúde”.   Desta forma,  o indivíduo deixa de ser olhado sob a ótica de um ser isolado do seu contexto natural, a família, e passa a ser entendido como parte de um sistema. Ele é resultado de suas interações, logo tudo que lhe ocorre está interligado.

Esse serviço de atendimento entende, de acordo com Henry Sigerist, que “ a saúde não é simplesmente a ausência de doença, é algo positivo, uma atitude otimista perante a vida, uma boa aceitação da responsabilidade que a vida impõe ao indivíduo”. Assim, tem como objetivo imediato: favorecer aos seus usuários (pessoas afastadas do trabalho por motivo de doença) um melhor entendimento das dificuldades pelas quais possam estar passando e ajudar-lhes a buscar alternativas pessoais para um retorno mais rápido e profícuo ao trabalho, bem como um melhor estilo de vida pessoal; como objetivo remoto: contribuir, a médio, e longo prazo, com a política de recursos humanos. Para tal utilizamos como instrumentos: entrevistas, abordagens reuniões, visitas, encaminhamentos, documentação; como metodologia: entrevista inicial, Sumário Biopsicosocial, entrevistas de acompanhamento com o trabalhador e/ou familiares, reuniões com Junta Médica e contatos com chefias e setores administrativos.

Enfim, esta prática cotidiana do atendimento à pessoa através do paradigma sistêmico nos permiti constatar a possibilidade de impulsionar uma cadeia de mudanças, pois vamos lançando a semente da corresponsabilidade dos problemas  envolvendo  os trabalhadores,  chefias  e  familiares, tendo  em  vista que  uma  vez assumida  a responsabilidade pessoal pela mudança do seu papel nos padrões de relacionamentos, podem-se romper hábitos antigos e encontrar soluções novas para os problemas. Desta forma, o indivíduo fica mais consciente de como agir em relação a si próprio e à sua saúde. Sai do lugar de vítima, acaba com a própria impotência e passa a agir. Como parte do sistema, a sua própria mudança acarreta mudança no sistema.

Por outro lado, o número de dados levantados nos atendimentos gera uma fonte de pesquisa que possibilita a elaboração de projetos na área da saúde ocupacional e para a melhoria da qualidade de vida.

Norma

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A Influência do Serviço Social na Terapia Familiar

Serv. SocialA profissão do assistente social desenvolveu-se no final do século XIX, a  partir  dos  movimentos  de caridade na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. Naquela época, como agora, os assistentes sociais dedicavam-se a melhorar a condição dos pobres e desprivilegiados da sociedade. Além de atender as necessidades básicas de alimentos, vestuário e  habitação,  os assistentes  sociais também  tentavam aliviar a angústia  emocional  nas  famílias   de seus clientes  e  encaminhá-los  às  entidades  sociais responsáveis pelos extremos de pobreza e privilégios. O visitador solidário era um assistente social que visitava os clientes em suas casas para avaliar suas necessidades e oferecer ajuda. Tirando os profissionais de seus escritórios e os levando até as casas das pessoas carentes, essas visitas serviram para derrubar a artificialidade do modelo médico-paciente que prevaleceu durante tanto tempo.

Os visitadores solidários estavam diretamente envolvidos no tratamento de problemas de casamentos conturbados e dificuldades na educação dos filhos. Os profissionais das casas de assistência social ofereciam serviços sociais, não apenas aos indivíduos, mas também aos grupos familiares. A assistência social familiar foi provavelmente o foco mais importante do treinamento inicial em serviço Social. Na verdade, o primeiro curso ministrado pela primeira escola de Serviço Social dos Estados Unidos intitulava-se “O Tratamento das Famílias Carentes em Suas Próprias Casas” (Siporin, 1980). Os profissionais aprendiam a importância de entrevistar pai e mãe ao mesmo tempo para obter um quadro completo e preciso dos problemas de uma família, isto em uma época em que as mães eram consideradas responsáveis pela vida familiar, e muito antes dos profissionais tradicionais de saúde mental terem começado a experimentar a realização de sessões familiares conjuntas. Estes estudiosos da assistência social familiar da virada do século estavam bastante conscientes de algo que a psiquiatria demorou mais 50 anos para descobrir que as famílias devem ser consideradas como unidades. Assim, por exemplo, Mary Reymond (1917), em seu texto clássico Social Diagnoses, prescreveu o tratamento de “toda a família” e advertiu contra o isolamento dos membros da família de seu contexto natural.

O conceito de Richmond de coesão familiar tinha um toque incrivelmente moderno, antecipando, como realmente o fez, os trabalhos posteriores das teorias do papel, a  pesquisa de  dinâmica de grupo e, é claro, a  terapia  da  família estrutural. Segundo Richmond, o grau de vínculo  emocional  entre os  membros da família  era  um  determinante fundamental da sua capacidade de sobreviver e florescer. Richmond também previu desenvolvimentos com os quais a terapia familiar passou a se preocupar na década de 1980, encarando as famílias como sistemas dentro de sistemas. Como observaram Bardhill e Sauders (1989 no livro Marital conflict and psychoanytic ): Ela (Richmond)  reconheceu que as famílias não são conjuntos isolados (sistemas fechados), mas existem em um contexto social particular, que influencia interativamente e é influenciado por seu funcionamento (isto é, são abertos). Descreveu graficamente esta situação, usando um conjunto de círculos concêntricos para representar vários níveis sistêmicos, desde o individual até o cultural. Sua abordagem à prática foi considerar o efeito potencial de todas as intervenções em todo o nível sistêmico, e compreender e usar  a  interação  recíproca  da hierarquia sistêmica  para  propósitos terapêuticos.  Ela realmente assumiu uma visão sistêmica da angustia humana. (p. 319). Ironicamente, os primeiros assistentes sociais a encararem  a  família  como a  unidade  de  intervenção, recuaram  para  uma visão  mais tradicional  da abordagem indivíduo-como-paciente quando ficaram sob a influência da psiquiatria na década de 1920.

Os assistentes sociais do ramo da saúde mental foram fortemente influenciados pelo modelo psicanalítico prevalecente, que enfatizava os indivíduos, não as famílias. Quando o movimento da terapia familiar foi iniciado, os assistentes sociais estavam entre seus mais numerosos e mais importantes colaboradores. Entre os líderes da terapia familiar que são assistentes sociais estavam: Virginia Satir, Ray Bardhill, Peggy Papp, Lynn Hoffman, Froma Walsh, Insoo  Berg, Jay  Lappin, Richard  Stuart, Harry  Aponte,  Michael White, Doug  Breunlin, Olga  Silverstein, Lois Braverman, Steve de Shazer, Peggy Penn, Betty Carter, Braulio Montalvo e Monica McGoldrick. A propósito, mesmo começar uma lista dessas é difícil, porque, a menos que escrevêssemos páginas e páginas de nomes, seria inevitável a omissão de muitos nomes importantes.

Texto  extraído do Livro: TERAPIA FAMILIAR Conceitos e Métodos – Nichols, M. P. & Schwartz, R. C.  – Artmed – 1998 ( p. 34-35)

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Terapia Individual Sistêmica

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O indivíduo sente que está mal e não consegue entender nem superar o estado de paralisação em que se encontra. Percebe que precisa de ajuda, há o desejo de conhecer mais profundamente seus conflitos e caminhar em direção à “felicidade”.

Cada pessoa é única no que diz respeito ao seu temperamento, composição genética, percepções e necessidades. Contudo, a formação da identidade se processa através das interações familiares contínuas. Assim, o sentido que cada pessoa  atribui  à  vida, à  família, aos  relacionamentos, às  suas  expectativas, bem  como  à  sua auto-estima  estão relacionados à sua família.  O ser humano nem sempre tem consciência disto.

A Terapia Sistêmica em sua origem dirigia-se exclusivamente ao atendimento de famílias. Ao longo do tempo, com desenvolvimento teórico, técnico e clínico, a abordagem sistêmica foi se reestruturando para atender clinicamente o sistema individual.

No atendimento individual, as  histórias  familiares  fornecem o nexo dos  fenômenos e constituem  os  recursos terapêuticos. “O espelho familiar vai circulando através das diferentes gerações de uma família, constituindo-se em elo entre passado e futuro.” (Gomel).  Desta forma, parte-se de algo que é “interno” para o indivíduo e o relaciona com algo que acontece entre as pessoas. “Forças  transgeracionais  exercem uma influência crítica  sobre  as  relações intimas atuais.” (Framo).  Consideram-se todas as informações levando-se em conta três gerações da família.

O foco da terapia é favorecer o auto conhecimento e possibilitar a descoberta de saídas para o impasse em que o indivíduo se encontra (processo de autonomia e mudanças de pautas disfuncionais).

A reconstrução das histórias, a analise e definição dos padrões relacionais repetitivos, possibilitam uma visão mais ampla  do  problema  podendo  trazer à consciência fatores  que  permitam  a  elaboração  de  conflitos, perdão, resignificação de atitudes, etc.

São fundamentais o desejo de mudança e a disponibilidade  do  indivíduo, assim como, que  o  vínculo  terapêutico favoreça o processo de mudança e ajude-o a se “diferenciar”, ou seja: ter capacidade de manter separados os sistemas emocionais dos intelectuais, usar mais a razão do que os sentimentos.

As intervenções consideram as  relações  entre o indivíduo  e  os outros  e  dele consigo mesmo.  Trabalha-se com a identidade pessoal e a identidade familiar nas vertentes do pertencer e do diferenciar-se, ajudando o indivíduo a sair da massa indiferenciada da família e a poder construir seu caminho, reconhecendo outras possibilidades.

A separação  da  família  de origem  é  um  processo  gradativo  e  que  não  se  esgota.  A Terapia individual sistêmica, agregando ou não, os diversos membros familiares, é indicada quando é o indivíduo busca a terapia com objetivo de desenvolver consciência do seu padrão de funcionamento e deseja adquirir  aprendizagens  que  são necessárias no momento, ou de realizar as mudanças que se fizerem necessárias.

Referência bibliográfica

Framo J.L.(2002). Uma abordagem transgeracional à terapia de casal, à terapia de família famíliar e a terapia individidual. In M. Andolfi (org.)

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Novas Familias- Momento de Transição

 

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Viajo no tempo. Abro o álbum e velhas imagens  trazem-me  a recordação  da minha família  extensa.   Numa fileira hierárquica, homens, mulheres e crianças. Época na qual, no mínimo, três gerações se reuniam para os almoços de domingo. A matriarca, orgulhosa de seus descendentes, recebia a todos com a mesa farta.

A família, “laboratório das relações”, manteve-se numa forma estável durante séculos. As uniões eram “para sempre”. Hoje, já não é surpresa quando os casais se separam.  Porém, o divórcio não é um fim. Ele é um momento de transição. A separação não destrói a família. Ela toma uma nova forma. Uma das novas modalidades  é  a que  denominamos de uniparentais, ou  seja, pai  e  filhos  e/ou  mãe  e  filhos, nas  quais  as  mudanças  nos  limites estabelecem  uma clara separação entre  o  marido  e  a  mulher.  Esta  transição  envolve   um  processo doloroso, que  vai   exigir    trabalho  psicológico    e reorganização.

Encontramos, também, as famílias  recasadas ou  reintegradas onde  cada um  dos parceiros traz, do relacionamento anterior, os seus filhos e posteriormente têm filhos em comum. Nestas, há o cruzamento de histórias, personagens, diferenças na forma de sentir e agir que podem gerar entraves para a reorganização do sistema familiar. O casal vai ter que  aprender  a  lidar  um  com outro  ao  mesmo tempo  em  que estará aprendendo  a lidar com  os  filhos. Assim, é ingenuidade pensar e agir como  se todos  estivessem felizes e  pertencessem a  uma grande  família e tentar  evitar os conflitos. Segundo Michael Nichols, ”A vida familiar depende de uma forte ligação do casal”. Desta forma, a relação do casal é o ponto de partida para a união e afetividade entre os demais membros.

É no campo das relações humanas que o homem enfrenta seus maiores desafios. É “a convivência entre as pessoas que conduz à descoberta e o desenvolvimento da individualidade e é condição de saúde mental”. ( Iara C. Anton, 1991),  e a família é o principal local desta convivência.

A  vida é  movimento  e  a f amília, como  todo  ser vivo, é  dinâmica  necessitando de  tempo  necessário para que os vínculos e a intimidade surjam e desta forma o amor floresça entre os seus membros.

Norma

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Espelho meu

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Pablo Picasso, Moça Diante do Espelho, c. 1932

Ah, onde está o meu você? Ah.Ah. …onde está você?”Serginho  Moa.

Contos de fadas são metáforas de situações e interações que fazem parte do repertório do cotidiano humano. Em Branca de Neve, a madastra, como a bruxa presa a vaidade, traduz  arquetipicamente  os  perigos da  experiência baseada na busca da beleza eterna . Branca de Neve também paga o preço da sua ingenuidade, todavia renasce de sua morte simbólica nos braços de seu príncipe encantado representando a consagração dos ideais da alma.

Em outro sentido, podemos pensar que todos gostam de aplausos e nesse percurso encontra-se todo um contexto construído de exigências sociais que leva as pessoas a seguirem como autômatas e não escutarem seus sentimentos, desejos e aspirações, enfim a não escutarem a si próprias.

Como me vejo, como sou visto? Na trajetória do ser humano as respostas a essas perguntas constroem a auto estima, que se inicia na infância e se reforça na adolescência. O espelho reflete – se nas ações e  nas  interações. Cada  olhar  é impregnado de valores, crenças, etc. Formam-se diversas lentes, e emoção e visão traçam seus fios.

A compreensão de si mesmo é vital para se poder apreender o outro sem tantos ruídos (emoção), tendo em vista a projeção do seu próprio eu. Neste sentido, Perls nos lembra com suas palavras: “Eu sou eu, você é você. Eu não vim ao mundo para atender às suas necessidades, e nem você às minhas. Se a gente se ENCONTRAR vai ser lindo. Senão, nada se pode fazer”.

Quanto aos elogios, quem não fica feliz ao ser admirado? O enaltecimento remete ao valor, ao respeito e ao amor.  No entanto, o excesso de auto-estima (narcisismo) pode  levar a  autodestruição, pois  nos  aprisiona  ao nosso próprio casulo. Enfim, a forma como cada um se vê, interfere na maneira de viver e conviver. A prática de se perceber e de perceber que afetamos uns aos outros nos ajuda a melhorar cada vez mais.

Norma

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Simplesmente

Tão simples, tão complexo
Trocas e toques. Dar e receber
O espontâneo, a alegria,
A repressão interna e externa.

Deixar-se sentir
Gostar, corresponder ou
Rejeitar
Retomar, deixar-se sentir, estar.
Deixar acontecer.
Para que  tanto pensar???
Basta viver, simplesmente viver.

Norma

No video  Eterno Aprendiz  (autor Gonzaquinha)  uma filosofia do viver e ser feliz.


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Famílias e Políticas Públicas

“A família é um princípio de construção ao mesmo tempo imanente aos indivíduos e transcendente em relação a eles”. Bourdieu, 1996

A família é reconhecida como um dos mais antigos provedores de cuidados (bem-estar) e, assim, tem sido valorizada mundialmente no âmbito da sua importância no contexto da vida social.

Desde o início dos anos 90, surgem pressões dos órgãos internacionais para a “recuperação da família como lugar de   busca   de condições  materiais de vida, de pertencimento  na sociedade e  de  construção  de  identidade, principalmente nas experiências de insegurança, de perda de lugar na sociedade e de ameaça de pauperização trazidas  pelo  desemprego”.  (Wanderley, 1997 apud MIOTO, 2006,).   Por sua vez,   o  Brasil, inseriu-se economicamente numa ordem globalizada.

Nesta perspectiva, o Estado vai combinar os mais diversos fatores, como novas tecnologias, desregulamentação, liberalização dos mercados, privatização de empresas estatais, integração das esferas nacionais, supressão de direitos trabalhistas e previdenciários.  (SOUZA, 1997).  Com o avanço tecnológico houve automatização dos trabalhos  menos  qualificados, a  maioria dos  empregos  da  manufatura passou para o  setor  de serviços  e conseqüentemente o nível e a ocupação de empregos passaram a ser mais vinculado as atividades terciárias.  Disto resultaram  um  crescente  desemprego  e precariedade das relações e condições de trabalho. (Antunes, 1999).  Soma-se a este  quadro a  questão do processo de concentração de renda,  sentido na diminuição do  poder de compra dos trabalhadores pobres em relação  aos que tiveram aumento expressivo de renda real. Tal fato resultou no crescimento da desigualdade de renda.  O quadro é de empobrecimento, cada vez maior, dos trabalhadores e de suas famílias (ALENCAR, 2006). Num sentido paradoxal, as responsabilidades que deveriam ser do Estado passam a ser assumidas pela comunidade e famílias. Assim sendo,  a família tem sido chamada a enfrentar responsabilidades para as quais não tem tido suportes para enfrentá-las.

Os efeitos da  crise  econômica  e das políticas de ajustes econômicos iniciados na década de 90, no Brasil,  não tornaram,  na prática,  possíveis  as reformas  institucionais  mais  amplas  nos  sistemas  de  proteção social. Entretanto, conforme assinala  Alencar, 2006, ocorre a convivência de modalidades de proteção social que combinam  velhos  padrões  e  novos elementos de  gestão pública de programas sociais, sendo priorizados  os programas  focalizados, os  fundos sociais de emergência  e  os  programas  compensatórios  direcionados ao atendimento  dos  grupos  pobres e vulneráveis.

O processo de modernização e os novos padrões familiares trazem novos desafios. O modelo de família assumido como universal (um casal heterossexual, legalmente  casado,  com dois  filhos e vivendo  num mesmo espaço)  orientou  e em  alguns casos ainda orienta  as políticas sociais. Entretanto, a vida familiar  se modificou para todos os segmentos da população brasileira. As  famílias tornam- se  mais heterogêneas  e as  novas formas  levaram a mudanças conceituais e jurídica. Portanto, é imprescindível que ao se considerar a centralidade das famílias como fator de proteção social atente-se para seu caráter participante nos processos das mudanças, bem como às suas transformações internas.

O ano de 1994 foi definido pela ONU como o “Ano Internacional da Família”. Constituiu-se também um marco brasileiro de oficialização da família, como foco do cuidado profissional de Saúde em atenção básica, através do Programa Estratégia de Saúde da Família (PSF). (SERAPIONI, 2007). Entretanto, as diversas análises apontam inúmeras contradições.

No cotidiano profissional, no Serviço Social e prática clínica,  podemos nos deparar com situações que nos levam a refletir sobre as peculiaridades da configuração familiar atual e sobre os recursos fornecidos pelas políticas sociais em prol da proteção social da família. Assim,  através de um estudo de caso, de uma mulher afastada do trabalho por problemas de saúde (sindrome do pânico), observamos que  esta pessoa, aos  63 anos, separada, com renda de CR$ 960,00, é a única fonte de renda estável  em sua família composta de seis membros. Vivem sob o mesmo teto: a pessoa entrevistada, uma filha solteira de 30 anos com sequelas de parto (excepcional);  uma filha casada de 29 anos e o marido,  ambos com nível de escolaridade segundo grau incompleto;  um filho solteiro de 35 anos, nível de escolaridade primário, com um  filho de 4 anos.
O filho encontra- se desempregado; o genro, com serviços de biscates; uma das  filha (excepional) não trabalha e a outra trabalha sem vínculo empregatício.  Residem numa  habitação em precárias condições numa localidade sem saneamento básico e de alta periculosidade.

Podemos observar a partir deste caso vários aspectos: agrupamento de vários nucleos familiares num só, em condições mínimas de sobrevivência; velhice sobregarregada de encargos familiares;  doença crônica sem um suporte  institucional; insegurança  pública; desemprego; precariedade  de  trabalho; quase  total  ausência de benefício previdenciário.

Assim,  podemos ilustrar   e  acrescentar de acordo com Gomes e Pereira (2005)  como  a   crise do   Estado se expressa na vida de grande parte da população que tem sido atingida diretamente pela ineficácia e inexistência de políticas públicas: famílias desassistidas, morando em favelas sem mínimo de condições de vida digna; hospitais sem condições de atendimento, escolas públicas funcionando em condições precárias, crianças e adolescentes nas ruas, velhice desassistidas etc.

A família como um dos atores da proteção social vive, hoje, um grande paradoxo, pois encontra-se num contexto sócio-econômico que  lhe traz  vulnerabilidade  e  ao mesmo tempo lhe transfere encargos.  Parafraseando Vasconcelos, 2000, é necessário retomar a família e a comunidade como ponto de partida de praticas sociais alterativas e não simplesmente alternativas.

ALENCAR. M.T. Transformações econômicas e sociais no Brasil dos anos 1990 e seu impacto no âmbito da família.  In LEAL, Mione (org) Política Social, Família e Juventude- Uma questão de direitos. Cortez Ed. São Paulo, 2006.

GOMES M.A; PEREIRA, M.L. D. Família em situação de vulnerabilidade social: uma questão de políticas públicas. Ciência. saúde coletiva,  Rio de Janeiro,  v. 10, n. 2,  2005.

MIOTO.R. Novas propostas e velhos princípios: a assistência às famílias no ontexto de programas de orientação e apoio sociofamiliar.In LEAL, Mione (org) Política Social, Família e Juventude- Uma questão d direitos Cotez Ed. São Paulo, 2006.

SERAPIONI. M. O papel da família e das redes primárias na reestruturação das políticas sociais Ciência. saúde coletiva. 2007.

SOUZA, Maria Adélia de. Território, globalização e fragmentação. São Paulo: Hucitec, 1997.

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