Seu nascimento veio marcado por uma anomalia. Passou meses e meses com as pernas imobilizadas por gesso. Seu desenvolvimento truncado e cerceado por suas limitações físicas.  Passaram- se os anos e uma profunda tristeza foi tomando conta de seus dias. Não houve infância e a adolescência foi com poucos sonhos e amores.  Certo dia, quis ter algo só seu e foi em busca de um animalzinho de estimação. E lá estava ele, olhando-a e remexendo o rabinho e ela exclamou: é este!

Por alguns anos seu fiel cãozinho lhe saudava ao amanhecer e se aconchegava aos seus pés ao dormir. Uma sensação de bem estar lhe acompanhava. Contudo, nada dura para sempre, ele se foi. Adoeceu e não resistiu. Ela se manteve em sua estrada, amargando a solidão, sem conseguir se afogar em prantos. Seu organismo sucumbiu e rapidamente aos 37 anos entrou num processo de envelhecimento precoce.

Em meio a tudo isto, a música, seu violoncelo, que não fora sua escolha, mas sim do pai, expressava-se lindamente, integrando-se aos demais instrumentos da orquestra da qual fazia parte, e transmitindo ao público a beleza do seu ser. Porém ela não se apercebia e só tristeza sentia.

Certo dia não pode mais tocar, pois seu ombro direito se enrijecera não dando mais comando ao braço. Neste momento, surge em meio a sua dor uma voz que lhe sussurra: desenterre seu tesouro. Cave, cave um pouquinho a cada dia. Traga o cuidado, o prazer por você mesma, pois eles estão aí esperando ansiosos o seu renascer. Surpresa gostou e aceitou o que ouviu. Quando a luz do sol irradiou, mostrando o seu apogeu, o seu sorriso brotou celebrando a vida.

A infância e adolescência se foram, não tinham volta, mas a vida se mantinha e com ela o surgir de cada dia trazendo-lhe esperanças renovadas.

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