Archive for agosto, 2009

Como se fossem brisas

Num trajeto normal do meu cotidiano, sem qualquer intenção, compartilhei recortes de vida.
Sentada ao meu lado, observei que havia uma senhora, de sessenta e seis anos, que me olhava de soslaio. Num certo momento, começa a me contar sobre a perda e clausura de uma amiga pela morte do marido. Fala do sofrimento e recuperação da amiga, após uma sessão espírita, na qual o marido lhe deixara uma mensagem: estava bem e desejava que ela jogasse ao mar suas cinzas, desfizesse-se de seus pertences e seguisse a sua vida. Num impulso, desejo perguntar – lhe por que me conta essas histórias. Mas, calo-me.

Percebo seu contentamento ao relatar que a encontrara ótima. Mudou de residência, afastou – se da dependência dos filhos. Hoje, tem amigas, faz ginástica e sai para dançar. Entrelaçando – se ao relato, observa que vai fazer o mesmo em relação a sua mãe. Vai dar os seus pertences, guardar os seus retratos. Levanta – se para saltar, ainda, referindo – se a certos compromissos que tinha que resolver para o pai.

Na sua saída, um senhor, de mais de setenta anos, pede licença para sentar – se. Desculpa – se por me incomodar, mas diz que vale a pena pelo prazer de sentar-se ao lado de tão simpática companhia. Olho – o e vejo seu largo sorriso. Mal agradeço a sua gentileza, começa a falar do seu atribulado dia. Tinha ido ao Rio resolver alguns problemas e nada conseguira, mas que não ia deixar de sorrir por esse fato. Percebo seu desejo de entabular uma conversa, respondo rapidamente sua pergunta sobre meu local de residência, mas despeço – me por ter chegado ao meu rumo.

Acabara a viagem e ficaram – me as imagens dessas pessoas. Dois idosos: uma mulher e um homem que tiraram – me da rotina do percurso. Trouxeram – me para suas vidas e arejaram com suas histórias o meu enredo matutino.

Norma Emiliano

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Renascimento

Seu nascimento veio marcado por uma anomalia. Passou meses e meses com as pernas imobilizadas por gesso. Seu desenvolvimento truncado e cerceado por suas limitações físicas.  Passaram- se os anos e uma profunda tristeza foi tomando conta de seus dias. Não houve infância e a adolescência foi com poucos sonhos e amores.  Certo dia, quis ter algo só seu e foi em busca de um animalzinho de estimação. E lá estava ele, olhando-a e remexendo o rabinho e ela exclamou: é este!

Por alguns anos seu fiel cãozinho lhe saudava ao amanhecer e se aconchegava aos seus pés ao dormir. Uma sensação de bem estar lhe acompanhava. Contudo, nada dura para sempre, ele se foi. Adoeceu e não resistiu. Ela se manteve em sua estrada, amargando a solidão, sem conseguir se afogar em prantos. Seu organismo sucumbiu e rapidamente aos 37 anos entrou num processo de envelhecimento precoce.

Em meio a tudo isto, a música, seu violoncelo, que não fora sua escolha, mas sim do pai, expressava-se lindamente, integrando-se aos demais instrumentos da orquestra da qual fazia parte, e transmitindo ao público a beleza do seu ser. Porém ela não se apercebia e só tristeza sentia.

Certo dia não pode mais tocar, pois seu ombro direito se enrijecera não dando mais comando ao braço. Neste momento, surge em meio a sua dor uma voz que lhe sussurra: desenterre seu tesouro. Cave, cave um pouquinho a cada dia. Traga o cuidado, o prazer por você mesma, pois eles estão aí esperando ansiosos o seu renascer. Surpresa gostou e aceitou o que ouviu. Quando a luz do sol irradiou, mostrando o seu apogeu, o seu sorriso brotou celebrando a vida.

A infância e adolescência se foram, não tinham volta, mas a vida se mantinha e com ela o surgir de cada dia trazendo-lhe esperanças renovadas.

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Em Silêncio

“Os que esperam no Senhor renovarão as suas forças; subirão com asas como águias; correrão, e não se cansarão; andarão, e não se fatigarão.” Salmos 40:31

O amanhecer traz consigo o frescor e o azul há muito não percebidos. Ao fundo a correnteza do rio embala as folhas que se deixam levar. Numa sintonia perfeita o vôo da borboleta; a relva verdejante oferece seu leito. Quanta paz!

Nos pensamentos os ruídos das vozes familiares; imagens perdidas no passado distante. Pessoas que povoam a memória e trazem a história. De voz em voz, de imagem em imagem, um pedaço da vida. Menina marota e travessa. Jovem faceira perdida em sonhos. Entre sim e não as imagens paternas. Farfalhar das roupas, risos fluidos, muitas festas. O som do afeto contido nos sim e não.

Em meio à paisagem, a vida em sua permanência. Não importa quantos se foram ou quantos ainda virão. O ser misturado à paisagem no momento presente traz a memória recortes de vida. Permanência repleta de impermanências.

A música rompe o silêncio e espalha aos ares o som de melodias inesquecíveis. Entre os demais ritmos o bolero remete aos romances. Rostos colados, olhos brilhantes e sorrisos fartos.

O vento começa a soprar e no ar o perfume da relva traz e guarda em si muitas recordações. Flashes que ficaram gravados. Crianças correm, mulheres gesticulam, homens falam ruidosamente. O vento sopra, leva para longe estas imagens e traz a paisagem em relva. Quanta paz!

Surpreendentemente, a vida desperta com o som da violência que sorrateira espalha-se, ceifando vidas e sonhos. No turbilhão dos acontecimentos o vento sopra e traz imagens de dor e angústia.

Misturam-se o ontem e o hoje contidos em vozes passadas, entretanto tão presentes. Reter doces lembranças nas vozes do passado ajuda a manter o sonho da paz. Romper o silêncio da angústia, abrir o peito para vida percebida e sentida na relva, no vôo da borboleta e no vento.

Na harmonia da natureza o Ser debubraça em choro de alegria e tristeza. Tudo em volta anuncia a sincronicidade da vida, que teima em trazer, no som silencioso das vozes, a esperança de dias melhores. Dias nos quais a humanidade brote no Ser como as flores brotam no pantanal e o rio corre para o mar.

O anoitecer traz consigo o céu pontilhado de estrelas. O dia entra pela noite e reflete a seqüência da cadência do tempo. A vida traz bons e maus momentos. e no silêncio a presença da vida.
Norma Emiliano

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